sábado, abril 30, 2005

Não hesitar

Entretanto descobriu-se que o Dr. Carrilho prefere estar com a Bárbara do que mal acompanhado. O Dr. Miguel Portas, exilado em Bruxelas, soube de tudo através de missivas, não sei se anónimas, e decidiu descarregar a sua raiva aqui (o Dr. Louçã, conhecido evangelista e missionário nas horas vagas, já tinha dito o mesmo mas por outras palavras, não conseguindo disfarçar o incómodo que o PC lhe causa).
Embora não percebendo o projecto do Dr. Carrilho para Lisboa, percebo perfeitamente a escolha selectiva que o Dr. Carrilho faz das suas companhias e da sua opção, clara, por não fazer coligações. Entre fazer campanha ao lado do Ruben Carvalho ou fazer campanha exclusivamente ao lado da Bárbara, poucos hesitariam. Ele não hesitou.

Vícios

De cada vez que leio ou oiço o todo-poderoso Jorge Coelho (no DN ou no Quadratura do Círculo), tenho a sensação nítida de deja vu. O homem que se desdobra em mil e uma declarações e que domina como ninguém a máquina do PS, já começou a utilizar o célebre discurso da tanga tão característico de Durão Barroso, Ferreira Leite e Bagão Félix para descartar quaisquer responsabilidades governativas dos seus pares. Desconheço se a táctica é para vingar, mas há que avisar o Dr. Coelho que a ideia tem direitos de autor a respeitar e que a falta de imaginação em política começa ser de facto um dado preocupante. Talvez porque o Dr. Coelho, himsef, já ande nisto há demasiado tempo. Não se pode também limitá-lo?

50 dias

Desde a fuga de Elba, 50 dias se passaram. Faltam outros 50 para Napoleão cair.

sexta-feira, abril 29, 2005

A terra das oportunidades

O velho Edward Shills lá dizia que as sociedades mais justas não eram aquelas efectivamente mais justas mas as que conseguiam passar com maior eficácia a ideia de que o eram. Neste sentido, segundo ele, os Estados Unidos era a sociedade menos desigual porque conseguiu criar a crença generalizada de que era possível vencer. Esta crença é conhecida pelo sonho americano e faz parte de qualquer agenda ideológica liberal e neo-liberal. Um estudo sobre mobilidade social em países ocidentais publicado pela London School of Economics indica que os Estados Unidos, seguido pela Inglaterra, é o país ocidental em que a mobilidade social é mais baixa. Os investigadores dizem mesmo que nos Estados Unidos a mobilidade é quase estática. Sugerem ainda que o sistema de educação é o grande instrumento de manutenção das desigualdades, já que, como canal fundamental de mobilidade, pune aqueles económica e culturalmente mais fracos, protegendo os mais fortes. Isto é, citando um clássico da sociologia, o sistema de ensino actua como um instrumento de reprodução da estrutura social. Não surpreendentemente são os países que ainda mantêm serviços públicos relativamente fortes que apresentam taxas de mobilidade mais altas: Noruega, Suécia, Dinamarca e Canadá.

quarta-feira, abril 27, 2005

Prozac e Ritalin

As duas notícias vinham hoje no DN do continente: “Psicofármacos com riscos em crianças” e “Consumo de antidepressivos aumenta no País”. Duas situações indelevelmente associadas e que revelam já um nítido e puro descontrolo no nosso país.

As drogas psicotrópicas têm o seu expoente máximo nos EUA onde o Prozac e o Ritalin, só para citar alguns exemplos, fazem maravilhas pelos adolescentes americanos e, principalmente, pelos seus progenitores que não olham a meios para conseguir a felicidade dos seus rebentos (belíssima forma de lavar daí as suas mãos). Aliás, 10% da população americana (qualquer coisa como 28 milhões de indivíduos e maioritariamente feminina), toma o Prozac (considerado por muitos um verdadeiro ícone do “sexo fraco” e até uma espécie de “Nação”) com o intuito de melhorar a sua auto-estima e realização. O Ritalin, por seu lado, é prescrito para adolescentes e crianças com dificuldades de concentração ou consideradas como hiperactivas (seja lá o que isso for) e tem uma espécie de função contrária ao Prozac.

Conhece-se os riscos daqui inerentes, mas parece que muita gente vê mais prós do que contras nesta administração ad hoc destas drogas para lá de qualquer limite razoável. O seu consumo excessivo tem efeitos e consequências ainda por estudar e não é certo que certos sintomas posteriores não sejam resultado destes medicamentos: depressões, crises, tendências suicidárias e outras coisas do género.

Alguns autores, como Fukuyama, identificam três grandes tendências que resultaram do alargamento das chamadas drogas psicotrópicas nos EUA: a primeira tem a ver com desejo do cidadão comum de procurar numa patologia tão alargada quanto possível as causas dos seus problemas para daí minimizar as suas responsabilidades quanto à “doença” em si; a segunda decorre dos enormes interesses financeiros e económicos que alimentam a monstruosa indústria farmacêutica e que fazem cada vez mais medicamentos para tudo e mais alguma coisa; e, finalmente, uma terceira que é muito culpa de nós todos, e que tem a ver com o facto de querer ver tudo e qualquer coisa como uma doença “urgente” e “incurável”.

Nada nos custa perceber o que este tipo de dosagem anda a fazer pelas nossas crianças e pelos nossos adolescentes, em particular, e por cada vez mais gente, em geral.

Mas o pior, quanto a mim, ainda está por vir e por ver: com o desenvolvimento da engenharia genética e com o conhecimento alargado e integral do genoma humano, a ciência diz-nos que vêm aí os medicamentos feitos à medida (o sonho da genética é fazer o “bebé por encomenda”, por exemplo) que vão, por um lado, garantir satisfação plena e “cura total” consoante o caso e a patologia, e, por outro lado, menosprezar qualquer efeito secundário problemático que impeça o vulgar “tratamento”.

Perante este cenário, o meu sentimento é pessimista. E temo que dentro em breve a moda alastre e chegue a cada vez mais gente…

terça-feira, abril 26, 2005

Disfunções

Há lugares comuns que de tanto se repetirem chegam à náusea. Falo-vos como “funcionário público”, publicamente reconhecido como privilegiado, mau trabalhador, e rotineiramente habituado a fazer coisa nenhuma. Tenho suportado as “felicitações” quase diárias com um sorriso de circunstância. Repetem-se os clichés do costume: “Grande sorte!”, “Então não fazes nada!”(seguido de uma gargalhada mais ou menos alarve consoante os casos), e mimos diversos que congratulam a minha suposta entrada no limbo do laxismo, e da preguiça.
Seria injusto não reconhecer que há benefícios óbvios, sobretudo em relação ao sector privado. De facto não tenho grandes razões de queixa nessa matéria. Segundo alguns não deveria sequer queixar-me. Mas queixo-me.

1º - É inacreditável que só uma imensa minoria dos que me interrogam/felicitam deseja saber o conteúdo funcional do meu trabalho, ou demonstram interesse sobre aquilo que se passa numa instituição que sobrevive à custa dos impostos que pagam, sendo óbvio que não acham bem pagar impostos, muito menos para pagar o meu salário.

2º - A subversão maior e mais preocupante, é que na maioria dos casos a bitola de comparação com as ditas regalias do funcionalismo público, são as condições laborais de que a maioria goza no sector privado, que são normalmente aceites entre um prosaico, “é a vida”, ou um fatalista …”não há nada a fazer”

A minha inquietação (sim, porque isto de ser funcionário público também dá espaço para inquietações), é a leviandade com que se tratam matérias fundamentais como os direitos dos trabalhadores, e como se pensa segundo uma lógica bipolar profundamente acrítica e superficial. Se alguém folhear o novo código do trabalho vai perceber, que já não há só o branco e o preto, mas que se caminha a passos largos para um cinzento carregado e homogéneo. Não faltarão muitos anos para que tanto no público como no privado os trabalhadores usufruam do mesmo: De cada vez menos.

Já agora seria interessante que muitos dos que se queixam da sua sorte, que “invejam” a minha, ou que acham que não se pode fazer nada, estivessem presentes nas comemorações do 1º de Maio. Pode parecer um argumento demagógico, mas ainda assim continuo a gostar muito mais do vermelho do que do cinzento.

(P.S. – Parece–me uma ideia demasiado batida e pouco original comparar o P.C.P à igreja católica, mas ainda assim, cristãos e ateus venham à missa na Alameda)

Fórmula 1

Porventura devido ao entusiasmo criado pela adesão recente às corridas de Karts, consegui visionar este fim de semana, mais de 10 anos depois, uma corrida de Fórmula 1, do princípio ao fim.
Desde os tempos em que Senna e Prost finalizaram os confrontos nos circuitos, que os grandes prémios foram perdendo para mim boa parte do encanto a que até então tinham estado associados.
Com a memória pessoal esticando-se ao início da década de oitenta, quando pontificavam o louco finlandês, Keke Rosberg, o falecido Gilles Villeneuve, Patrick Tambay, Nelson Piquet, Andrea de Cesaris, Michele Alboreto, Nigel Mansel, Thierry Boutsen, além dos citados Senna e Prost, ao volante de Ferraris, Mc Larens e do meu carro preferido, o Lotus, patrocinado pela John Players Special, em todas as quinzenas aquelas duas horas de Grande Prémio em frente do televisor eram praticamente sagradas.
Eram tempos em que as garantias de segurança que os carros ofereciam primavam por uma certa precaridade, fazendo os pilotos do risco e da audácia constantes consortes traiçoeiros da integridade física.
Mudaram os tempos, apareceram novos pilotos, novos circuitos, novas regras de segurança, e o entusiasmo refreou-se. Os laços afectivos com os ídolos de sempre extinguiram-se com o seu desaparecimento, os palcos de aceleração situavam-se nos mais insuspeitos e indiferentes locais (Malásia, Bahrein, Turquia), enquanto que outros eram apagados do mapa (Estoril), novas regras de segurança diluíram a margem de erro dos pilotos, e, sobretudo, surgiu Schumacher.
Tornado por mérito próprio a maior figura da disciplina automobilística, cerceou toda a concorrência durante anos a fio e provocou com a sua indesmentível superioridade o bocejo permanente sobre a incerteza quanto ao vencedor.
Até que este ano, ao que parece, a F1 volta novamente às grandes emoções, graças a um piloto espanhol, Alonso, que neste G.P de San Marino susteve o primeiro lugar acossado ininterruptamente pela maior lenda vida da F1, Schumacher, durante as últimas 15 voltas. Sem vacilar, sem se desconcentrar um centésimo, ganhou a corrida e fez com que os comentadores televisivos dissessem que há muito que não se via uma corrida assim.
Depois de tantos anos de afastamento, acho que escolhi o dia certo para ver novamente um Grande Prémio.

domingo, abril 24, 2005

Do livro e da venda

Ando a perguntar-me por que raio as pessoas se desfazem de livros. Por necessidade primária, claro. É preciso dinheiro, e toca a vender os pertences. E como as casas portuguesas estão cheias de livros e por aí que se começa. É no que dá a abundância. Mas há quem os ache um estorvo, como os jornais, desarrumam a casa, uma chatice. É no entanto evidente que uma casa fica bem desarrumada com livros e outras papeladas. É lindíssimo, a livralhada junta a combater as perseverantes mentalidades domésticas. As casas são pequenas, dirão alguns com razão. É certo, mas enquanto houver espaço para o serviço de casamento deixado pela bisavó, os inenarráveis bibelots da tia, a colecção de revistas Motor do pai, o enxoval da madrinha, os bares ao canto da sala, o cão de loiça e o urso de peluche do Benfica, haverá também lugar para os livros. E se quiserem comerciar, já que o país está carente de empreendedores, deixem os livros para penúltimo lugar, antes, naturalmente, de se livrarem do urso do Benfica - que aliás só deve ser alienado em caso de catástrofe nuclear, e mesmo assim só depois de vendermos a avó em leasing para a apanha do tomate na Estremadura espanhola. Já agora, em vez de venderem livros, podiam oferecê-los, ou deixá-los num café ou num banco de jardim, era mais fofo.

sexta-feira, abril 22, 2005

Fumo branco

Parece que no Caldas também já há fumo branco... 60 dias depois. Nada mau...

Médias

Nos EUA, em 1850, a média de idades cifrava-se nos 19 anos. Na década de 90 do século passado, essa mesma média subiu para 34 anos. Algumas projecções demográficas, com alguma pertinência, prevêem que em 2050 esse número atinja os 40 anos. É um fenómeno preocupante que é indiciador da enorme mudança que se avizinha e que não pode ser descontextualizado de dois fenómenos umbilicalmente ligados: o aumento da esperança de vida e a queda, abrupta, da taxa de fertilidade.
Mas a coisa piora fora dos EUA. De acordo com projecções semelhantes, e que não levam em linha de conta um eventual aumento da esperança de vida (que no ano 2000 nos EUA era de 74,2 anos para os homens e de 79,9 para as mulheres, por exemplo), a média de idades para esse mesmo ano de 2050 será de 54 anos na Alemanha, de 56 anos no Japão e de 58 anos na Itália. Mais: prevê-se que no caso italiano apenas uma reduzidíssima percentagem de crianças tenham parentes colaterais (que é exactamente o mesmo que dizer que muito poucas terão irmãos ou primos).
Parece evidente que este é um fenómeno preocupante e de consequências imprevisíveis nas sociedades ditas ocidentais. Um só exemplo, entre muitos possíveis, em tom de descontracção: que sentido farão os desfiles de moda com meninas anorécticas para plateias de idosos?

Prémio Carreira

Não sabia que também havia disto no Vaticano!

Bento 16 e o Patriarcalismo

Na matéria que se reporta à eleição do novo Papa, e independentemente da mais ou menos vetusta ambição do Papa Bento 16, este é reconhecido como tendo sido mais o mais influente mentor da doutrina perfilhada pelo papado anterior, aquele que morigerava as posições morais da Igreja Católica a respeito de diversos temas “fracturantes” das sociedades contemporâneas.
Não sendo portanto surpreendente a sua nomeação, considero que é mais honesto que a figura ideológica dominante do Vaticano há longos anos, saia finalmente dos bastidores e dê a cara no papel de principal actor do Vaticano.
Dos diversos temas controversos sobre os quais tomou conhecidas posições no passado , gostaria de opinar sobre uma questão que penso ser particularmente sintomática de um desfasamento obstinado da realidade social, adoptado pelas elites católicas dominantes, incluindo Ratzinger, ou seja, o patriarcalismo, enquanto sistema caracterizado pela autoridade, imposta institucionalmente, do homem sobre mulher e filhos no âmbito familiar, e que se enraiza na estrutura familiar e na reprodução socio-biológica da espécie.
A frontal e veemente oposição à ordenação das mulheres para as funções sacerdotais, que tem sido transmitida nas prédicas de Ratzinger, denota uma clara resistência às reivindicações para a concessão de um estatuto de igualdade às mulheres no seio da Igreja Católica.
Estas reivindicações cobrem-se de antanho mas acentuaram-se nas últimas décadas em paridade com um conjunto simultâneo de transformações sociais, tecnológicas e culturais que vão desde;
- o aumento da autonomia reprodutiva feminina através dos avanços tecnológicos na medicina reprodutiva e na farmacologia;
- o surgimento de uma grande variedade de estruturas domésticas, visíveis através da proliferação de lares de solteiros e habitados por apenas um dos pais;
- a crescente taxa de divórcios, que por sua vez se associa a outras tendências importantes: o adiamento da formação de casais e a formação de relacionamentos sem casamento.
- a incorporação massiva das mulheres no mercado de trabalho remunerado, traduzida quase sempre numa contribuição financeira decisiva para o orçamento doméstico;
- por fim, relacionado com os factores acima invocados, o aumento da influência social, política e cultural dos diversos movimentos feministas numa economia informacional global. Tais movimentos, não obstante a diversidade de objectivos e adversários, perfilam uma ideia comum: a abolição do patriarcalismo.
Negar estas evidências, enterrando a cabeça na areia, ou fazer de conta de que elas ocorrem numa qualquer superestrutura metafísica erigida por indívíduos que se inserem uma faixa populacional numericamente muito restrita, e portanto irrelevante, é um sintoma de intenso atavismo de que a Igreja Católica se faz valer publicamente e que prenuncia mais um afastamento incompreensível a medio prazo da comunidade de crentes.

quinta-feira, abril 21, 2005

Semelhanças entre o PC Português e a Igreja Católica

- Ambas as instituições privilegiam o centralismo democrático;
- Ambas as instituições têm adeptos renovadores e adeptos ortodoxos;
- Ambas as instituições vivem embrenhadas em movimentos de cisão e são fortemente criticadas por toda a gente que se julga no direito de as julgar;
- Ambas as instituições são acusadas de se fecharem na doutrina e na sua rigidez;
- Ambas as instituições são acusadas de não reconhecer os seus erros do passado;
- Ambas as instituições viram subir ao poder novos líderes conotados com a ala mais ortodoxa e radical;
- Ambas as instituições têm novos chefes tidos, numa primeira instância, como cinzentos e demasiado velhos para promoverem as mudanças necessárias e urgentes;
- Ambas as instituições são odiadas pelo Dr. Louçã e pela sua quadrilha circense;
- Ambas as instituições viviam, e vivem, com o célebre dilema: mudar e deixar de ser; ou não mudar e deixar morrer. No fundo, o ser ou não ser.

Em tudo isto uma única ideia que retiro de uma frase sublime de Mark Twain: “A notícia da minha morte é manifestamente exagerada”. Vão ver que sim. E vão ver que em ambos os casos.

Tempos sempre interessantes

Foi mais simples encontrar um novo chefe para a Igreja Católica do que um líder para o CDS/PP.

Ecos de Weimar

A emigração tornou-se, por iniciativa do partido conservador, o grande tema das próximas eleições inglesas do dia 5 de Maio. A táctica é a do medo e da ignorância e o resultado é o incremento do racismo. Os conservadores, que utilizam a emigração porque perderam o centro político para Blair, subiram nas sondagens e estão perto dos trabalhistas. A utilização do fantasma da emigração é uma estratégia sem qualquer suporte factual, já que todos os números provam que o número de emigrantes a entrar em Inglaterra nos últimos anos tem vindo a decrescer. O país goza de uma considerável saúde financeira e o desemprego, apesar de recentes casos com o da Rover, mantém-se baixo e estável. É precisamente devido a este cenário que a eficácia da táctica do medo se torna mais impressionante. Imaginemos então uma situação de crise do sistema capitalista semelhante à que ocorreu em 1929, falências, inflação, aumento do desemprego. Em que é que se transformará esta retórica primária?

sexta-feira, abril 15, 2005

Aeroporto II

Chegada a Londres e uns senhores fardados revistavam malas no aeroporto, seleccionando as pessoas através de um mais que evidente critério étnico. O meu castanho semi-escuro devia estar na fronteira do suspeito e não me safei. A revista foi acompanhada com um inquérito mal disposto que se foi suavizando depois do senhor perceber que eu era estudante. Ainda pensei adoptar uma postura à Mourinho, mas fui interrompido pela curiosidade do caucasiano nos dois pães alentejanos que transportei para a ilha. Olhou, rodou-os e passou-os por aquela máquina que tira radiografias a malas e outras bagagens. Nenhuma arma de destruição maciça. De certa forma achei aquilo um elogio ao Alentejo e ao padeiro que os confeccionou, que o zeloso guarda inglês quis promover a membro da célula da Al-Qaeda na Amareleja. Mas há que ser compreensivo, o pobre homem come pão-de-forma desde que nasceu e isso não é saudável.

Aeroporto I

Os aeroportos estão em rápido processo de democratização. Claro que nem todos os portugueses viajam por avião, mas é evidente que muitos que não o faziam, fazem-no agora, tornando mais interclassista o espaço do aeroporto. Para isto terão contribuído decisivamente as viagens para a América do Sul e Caraíbas. Brasileiros e Caribenhos recebem os portugueses como nós recebemos no Algarve grupos de classes baixas e médias baixas provenientes da Inglaterra e da Alemanha. Para estes novos turistas portugueses, o Brasil dos resorts onde pululam palmeiras e lagostas são uma espécie de sonho de vida em saldo. Nestes espaços fabricados para turistas, protegidos do mundo perigoso dos “indígenas” e das suas vidas reais, ensaia-se uma vida de luxo que nunca se teve, gerida cuidadosamente pelas agências de viagem e pelos fabricantes do “very typical”. O bronze é capitalizado depois no regresso à pátria, durante o abusivo horário de trabalho e nas filas de trânsito.

Esquemas III

Apenas para constatar alguns factos:

O Sr. Veiga é director desportivo do Benfica.
O Sr. Veiga é o maior accionista do Estoril.

Que nome terá este tipo de coincidência?

quinta-feira, abril 14, 2005

Esquemas II

Petit, jogador do Benfica e internacional português, foi incorrecto. Jogou duro. Não como o costuma fazer no relvado, mas por palavras. Não está em causa que foi incorrecto. Agora fazer disso motivo de tanta celeuma será porventura mais exagerado do que o acto original. Também não me recordo de ler nestas páginas muitas críticas ao Karaté personalizado dos jogadores do Porto, ou ao “mau feitio” arruaceiro de Sá pinto ou Rui Jorge ao que parece peritos em diálogos nos túneis de acesso ao relvado. Não será de excluir desta lista os maneirismos futebolísticos dos jogadores do Boavista, que conjugam o Karate do Porto com o estilo arruaceiro de alguns leões.
Quanto a esquemas, será no mínimo demagógico não aceitar que são prática comum na estrutura e organização do futebol português, tal como é demagógico dar exagerada atenção ás palavras de Petit. Partamos de um pressuposto óbvio: nada ou quase nada vale a pena no futebol português. Ainda assim se quiserem falar de futebol, o Benfica empatou e empatou bem.

A notícia

A notícia tem alguns dias. Confesso que fiquei à espera de ver reacções sobre a mesma, mas até hoje nada. Pelo menos nos jornais de referência. Por isso cá vai.
O Sr. Madaíl, personagem do nosso imaginário colectivo, veio com toda a pompa e circunstância anunciar que a sociedade Euro 2004 SA deu lucros na ordem dos 4 milhões de euros (mais coisa menos coisa) facto que o deixou, naturalmente, contente e satisfeito. O povo, de fraca memória, engole a patranha como é óbvio porque o futebol em Portugal é uma mistura de logro com ficção científica. Mas aprenda-se com a iniciativa e com a propaganda gratuita do Sr. Madaíl.
Perguntas inocentes para o Sr. Madaíl, indivíduo também conhecido por só aparecer nos bons momentos: como é que uma empresa que teve como principais funções vender ingressos para estádios novos e recrutar jovens em regime de voluntariado não haveria de dar lucro? Como é que uma empresa que praticamente só tinha receitas, excluindo como é óbvio os chorudos ordenados usufruídos pelo Sr. Madaíl e seus lacaios, não haveria de ser um sucesso? Só 4 milhões, Sr. Madaíl? Tanto bilhete vendido, e só 4 milhões, Sr. Madaíl?

O esquema

O jogador mais polido de Portugal, Petit, veio dizer que os jogadores do Rio Ave tiveram uma motivação extra para ganhar o jogo com o Benfica do passado fim-de-semana. Manifestando evidente mau perder, o jogador mais polido da Europa, Petit, debitou meia dúzia de frases que ousaram deixar dois tipos de suspeição no ar: ou que os jogadores do Rio Ave tinham recebido dinheiro para derrotar o gigante ou que os jogadores do Rio Ave tinham tomado alguma substância proibida que lhes dava uma força paranormal (talvez uma poção do druida gaulês).
As afirmações valem o que valem e Petit, o jogador mais polido do Mundo, já pediu desculpa pela infelicidade, certamente imaginando algum processo sumaríssimo que o suspendesse por 10 minutos, por exemplo. Só que o mundo dá muitas voltas e agora parece que é o Estoril a receber uma motivação extra para facilitar o jogo que tem de jogar contra o Benfica uma vez que o mesmo, ao que consta, vai ser deslocado para esse inenarrável estádio do Algarve – uma das mais engenhosas ideias da personagem focada no post anterior – em vez de ser disputado no estádio da Amoreira, casa oficial do Estoril Praia.
A tramóia está bem montada. Tão bem montada que nem se pode chamar bem de batota. Esquema será talvez a denominação mais correcta.
Estou à espera que Petit, o jogador mais polido do Universo, discorra, obstinadamente, sobre esta motivação extra dada aos jogadores adversários que visa, obviamente, prejudicar o Benfica e beneficiar o Estoril.

terça-feira, abril 12, 2005

Jardim de Infância de Moselos

O Jardim de Infância de Moselos, uma aldeia do concelho de Viseu, deu ontem início a uma feira onde estão à venda artigos feitos pelas crianças daquele estabelecimento e recolhidos junto dos encarregados de educação.
O objectivo da feira consiste em angariar fundos para a aquisição de material didáctico, como jogos e livros e, eventualmente, um computador para o estabelecimento, já que, segundo a organizadora da iniciativa, “os apoios que vêem do Ministério da Educação não dão para quase nada”.
O Ministério da Educação, a quem compete a tutela pedagógica da instituição, devia, certamente, conhecer o perfil social da maioria das crianças que frequentam aquele estabelecimento de educação e as carências por que passam grande parte das famílias daquelas 49 crianças em termos de bens culturais que possam colocar ao dispor das aprendizagens e do desenvolvimento daquelas crianças desde tenra idade, à semelhança do que acontece com aquelas que nascem em lares economicamente mais bafejados.
Seria de elementar justiça num Estado que se quer redistribuidor de riquezas e oportunidades, que crianças tão novas não tivessem que estar envolvidas tão precocemente em estratégias mercantilistas para a dotação material do estabelecimento pré-escolar que frequentam e assim poderem usufruir de actividades educativas na justa medida de igualdade com as demais.
Se o grau de desenvolvimento civilizacional de um país se deve também medir pela existência de um rede tendencialmente gratuita de estabelecimentos de educação pré-escolar, territorialmente abrangente e financeiramente bem dotada, o exemplo que o jardim de infância de Moselos corporiza por estes dias não será propriamente o melhor indicador a este respeito.

segunda-feira, abril 11, 2005

Dialéctica Hegeliana Social-democrata

Tese (afirmação): o PSD está minado por poderes instalados e por barões que são anti-democráticos e que usam a seu bel-prazer as bases sociais-democratas para inquinar qualquer possibilidade de renovação e de transformação real e efectiva do partido enquanto defendem a manutenção do seu status quo.

Antítese (negação): o PSD precisa de se refazer e de se refundar (para usar um termo na moda) e para isso precisa de enterrar e acabar com o poder do cavaquismo, dos seus barões e dos mitos ardilosamente alimentados e propagados. É preciso ainda promover maior participação interna dos seus militantes e operar uma verdadeira abertura à sociedade civil capaz de atrair sangue novo e ideias novas.

Síntese (negação da negação): Ontem, regressou em força o cavaquismo (!). Há qualquer coisa aqui que não bate certo.

Afinal, Parménides tinha razão: nada muda. Porque nada interessa mudar, acrescento eu.

sexta-feira, abril 08, 2005

O funeral do Papa e o poder da fé

A questão do Papa... Deixa-me muito triste... Não por ele ter morrido. Foi na sua hora. Mas por constatar que as pessoas perecem só unir-se em torno de coisas fáceis: uma oração, um morto ‘ilustre’, um deus que nunca viram mas que dizem sentir. É este o poder da fé religiosa. Infelizmente no mundo parece só haver esta: uma fé que ou nos imobiliza nas orações ou nos move para as guerras...

quarta-feira, abril 06, 2005

Pestana, o Papa, e o Reino Unido

Um dia destes deitei mao a uma revista do Expresso que deve ter-se infiltrado na mala de alguem. Na capa aparecia o retrato do Sr. Pestana, onde se prometia contar a historia deste menino pobre que chegou a milionario. Resolvi pois dedicar os meus 10 minutos de intervalo a leitura desta mini auto-biografia. No entanto nao passei da infancia... O Sr. Pestana, filho de imigrantes portugueses e natural de Africa do Sul, onde nasceu. Conta-nos ele que com os pais em casa nunca falava portugues e que os pais so falavam portugues com os tios e primos, que tambem estavam la imigrados (e muito provavelmente com mais uma centena de imigrantes portugueses que deveria habitar a mesma rua). Dai que portanto o Sr. Pestana diz sentir-se muito mais anglo-saxonico. Ora foi aqui que parei de ler, tal foi o ataque de riso... Por entre as gargalhadas e os olhos semi cerrados ainda pude ler que o Sr. nutre uma admiracao pelo pais da sua lingua que diz materna: basta ir a Londres, afianca Pestana, para se respirar a democracia, o desenvolvimento, a abertura!
Ora, no pais democratico de Pestana termina agora o julgamento de 3 politicos do Labour Party condenados por fraude eleitoral a escala industrial (sic palavras do Juiz). Ao que parece, esta sera apenas uma gota num imenso oceano de fraude eleitoral com votos via postal. Nada que nao me passasse pela cabeca quando nas ultimas eleicoes locais e sem eu nada pedir, chegou a minha casa um boletim de voto que qualquer pessoa poderia ter assinado (alias chegaram seis: referentes a todos os anteriores inquilinos e eu poderia ter preenchido todos...). No entanto, os tres partidos parlamentares esforcam-se por diminuir a gravidade da situacao. Isto porque num pais onde acima de 50% nao vao as urnas, todos os partidos deverao ter os seus politicos que a noite, num primeiro andar de um qualquer armazem, levam a familia para preencher 3000 ou mais boletins de voto.
No pais de abertura do Sr. Pestana, passou o 'Social Behaviour Act', que faria corar Salazar, e passara, sem controversia, a lei de 'odio religioso' que muito provavelmente tera precisamente os efeitos que pretende evitar.
No aberto pais de Pestana (que ja agora aproveito para dizer que e o Reino Unido, visto Londres ser uma cidade...) ha dias que a BBC nos massacra com o Papa. Alias, eu ja vi mais vezes a imagem do Papa morto do que a das minhas falecidas tias todas juntas! Blair adiou o anuncio do dia das eleicoes e Charles, o retardado, adiou o seu casamento com o travesti Camila. E isto estamos a falar de um pais que nao e constitucionalmente laico. Isto porque o pais democratico de Pestana nao tem constituicao e legalmente os cidadaos britanicos sao ainda subditos da Rainha que e o representante maximo da Igreja Anglicana (duro trabalho que delegou no retardado).
Pestana representa o nacional parolismo esquecendo-se que 1) ha coisas boas e mas em todo o lado 2) na era da informacao ja nao se pode ir para os jornais dizer baboseiras. A Pestana de nada lhe serve o dinheiro e as viagens. Pouco parece ter aprendido para alem de maneirismos novos-ricos e ressaibiamentos. Eu compreendo. Ser portugues na Africa do Sul do Apartheid e dificil, sobretudo quando os portugueses eram vistos ao nivel da populacao negra. Pestana optou por se identificar com o grupo dominante e opressor. Pois quanto a mim, abonaria muito mais em seu favor se fosse o contrario...
Take care!

terça-feira, abril 05, 2005

Variedades

No PSD há uma moção sem candidato e no PP um candidato sem moção. Tempos interessantes.

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Para azar dos azares o Papa João Paulo II morreu à hora do Boavista-Sporting que iria ser transmitido em directo na TVI. A antiga televisão da igreja enfrentou o dilema e decidiu-se pelo futebol. No intervalo do jogo, quem esperasse alguma notícia sobre o Papa, para além dos infindáveis rodapés, ficou desapontado, já que tivemos 15 minutinhos de anúncios. Pois é. O share da TVI foi de 42,5%. Nada mau, para um país católico. Já ontem, a RTP, adiou um grande programa de informação sobre segunrança já que a Fátima Campos Ferreira estava no Vaticano a fazer reportagem. As reportagens que têm sido feitas do Vaticano, especialmente as que implicam entrevistas de rua, estão bastante próximas do ridículo absoluto. Toda a gente gostava do Papa, mas ninguém consegue explicar porquê, além claro, de referirem que o Papa era um homem muito bom e defendia os pobres. Claro que ninguém pergunta como é que o senhor defendia os pobres. A fé é uma crença, e se os católicos gostam de criar deuses na terra estão no seu direito. Parece claro, porém, que deviam estudar um pouco a história da Igreja e o modo como, em grande parte, a mensagem e a acção cristãs têm sido subvertidas. João Paulo II, instrumento do cardeal Ratzinger, o homem que controla realmente na Igreja, foi o Papa da contra-reforma, que pôs em causa os avanços conseguidos pelo Concílio Vaticano Segundo, que perseguiu católicos como os seguidores da Teologia da Libertação, que, em termos sociais, pugnou por um conservadorismo reaccionário, que condenava o capitalismo mas ao mesmo tempo favorecia a Opus Dei, braço económico da Igreja. Que o próximo Papa seja melhor do que o último.

António Borges

O Sr. António Borges, certamente farto de ser vice-presidente de uma instituição capitalista qualquer, vai apresentar uma moção de estratégia global ao congresso do PSD. A resma de papel ao que parece promete. Muita gente subscreve (incluindo Balsemão) e muitos sectores abanam-se convencidos da teoria do homem e do seu conhecimento. Falsa esperança. Nem um centésimo do PSD vai conhecer a moção (que por si só não será mais do que um simples plano de intenções e frustrações várias e sortidas) nem o Sr. António Borges e sua trupe vão ter o impacto desejado dentro do partido. Não sendo um movimento burguês qualquer e espontâneo, este novo movimento dentro do PSD (só do PSD?), armado em moralista e transparente (???) e que pretende fazer da política um clube privado, só pode ser um movimento de aristocratas onde os senhores, do alto da sua sapiência e conhecimento (e já agora autismo), vão debitar algum ruído e ideias gastas com o propósito de ensinar ao povo as virtudes do seu modo de fazer política (claro que enquanto esperam, futuramente, tirar dividendos, que é como quem diz, ser ministro ou qualquer outra coisa melhor). O Sr. Borges não vale o esforço. Basta ler e ouvir as entrevistas e analisar os “militantes” e “barões” que o acompanham: falam com muita erudição, desdobram-se em poses sérias, falam de sonhos e estatísticas, de milagres e reformas, de pequenas revoluções, do maravilhoso mundo civilizado já ali ao lado, de gente bonita e inteligente deslumbrada com a macroeconomia e outros derivados. No fundo, são uma versão melhorada do nunca me engano e raramente tenho dúvidas que no passado fez furor e sucesso. Felizmente para nós, e infelizmente para eles, ninguém, tirando os jornais e o Sr. José Manuel Fernandes (que anda muito atarefado e preocupado com o futuro da direita), lhes passará cartão. E ainda bem.

Marques Mendes

Na corrida ao PSD, com moção e tudo, está o incontornável Luís Marques Mendes. LMM é uma espécie de dois-em-um de duas alas muito influentes dentro do actual PSD: os cavaquistas e os marcelistas. A maioria desta gente sobrevive, estoicamente desde há muito tempo, na política, usando os mitos sebastiânicos e promovendo histórias da carochinha, enquanto espera para ver para que lado puxa a corrente sempre com o intuito, ao que parece legítimo e legitimado, de se safar. As principais preocupações deste grupo são, pelos vistos, fazer de Cavaco Silva presidente (como se isso fosse a coisa mais importante para Portugal) e dar uma imagem muito impoluta de gente séria e cumpridora dos seus deveres políticos, exactamente o oposto daqueles que os antecederam. Sócrates comerá, literalmente, toda esta gente de cebolada e agradecerá tão agradável petisco.
O PSD de Luís Marques Mendes representa um regresso ao passado sem sentido, com pouco esclarecimento, sem qualquer ruptura e com total conivência com o regime político vigente, onde o PS usará a seu bel-prazer a máquina do Estado para levar a água ao seu moinho. Mendes limitar-se-á a esperar que o poder lhe caia no colo (se antes não for corrido), enquanto luta abnegadamente para ganhar as eleições que se avizinham. O PSD que se prepare: a travessia pode ser longa. E dura.

Menezes

Luís Filipe Menezes representa a ala mais populista do partido. Contra si tem a péssima experiência recente de Santana Lopes (que o PSD não quer ver tão cedo repetida) e os barões que muito provavelmente já lhe minaram o terreno acertando as suas estratégias pessoais com o cavaquismo revisitado. Mas louve-se a ousadia de Menezes na promoção de rupturas e no agitar das águas com algumas medidas interessantes e mediáticas (ainda que só).
Menezes estará praticamente sozinho, totalmente despido de gente influente nas suas fileiras e com muito poucas hipóteses de sucesso. Tão cedo ninguém esquece a tragédia santanista e Menezes tem sobre si essa velada ameaça de representar uma espécie de ressurreição. Mas pelo menos vai à luta, apresenta moção, candidata-se e, espera-se, não desiste. Outros não podem dizer o mesmo.
A esta distância é duro antecipar o resultado que o espera, mas Menezes, é um combatente hábil que venderá, certamente, cara a derrota. Joga com o facto de não pertencer à classe política lisboeta o que é, simultaneamente, uma vantagem e uma desvantagem (é muito complicado penetrar em classes herméticas que se protegem e se reproduzem). Contudo podia ter evitado alguns exageros que denotam insegurança e pequenez de horizontes: dizer que vai ter uma mulher como secretária-geral e que vai dar o cargo de secretário-geral adjunto à JSD são propostas perfeitamente desenquadradas, que não têm qualquer sentido prático e que se podem revelar erros políticos graves explorados pelos seus adversários.
No PSD, parece-me óbvio, acontecerá como no PS na altura de Soares, Alegre e Sócrates: ganhará o candidato que mais rapidamente der garantias de um rápido retorno ao poder. E esse candidato, para os barões e seus derivados, não é Menezes. Já se percebeu isso.

segunda-feira, abril 04, 2005

Público on-line pago

Na senda do que alguns media escritos já tinham também feito o site do jornal Público passou a disponibilizar, a partir de hoje, os conteúdos da Edição Impressa on-line somente aos seus assinantes.
Continuo a achar muito discutível que as publicações que optam pelo condicionamento monetário da informação on-line retirem daí proveitos, actuais e futuros, significativos.
Desde logo, porque a lógica de fechar a sete chaves a informação vai completamente ao arrepio da cultura primordial da tecnologia de informação que é a Internet, ou seja, a cultura da livre distribuição e partilha da informação, como forma de democratizar o seu acesso. E porque essa continua ser a cultura dominante, a batalha pela elitização dos acessos não será facilmente vencida, principalmente quando à excepção dos artigos de opinião, todos os outros temas dos jornais são alvo de tratamento noticioso por parte de uma miríade de media e publicações on-line, nacionais e internacionais, isentos de assinaturas.
Depois, porque concentrando-se os adoptantes principais da prática da Internet nas faixas mais jovens, restringir o acesso aos conteúdos virtuais do jornal não será concerteza a melhor forma de atrair e cativar futuros leitores para o jornal.
Por outro lado, para quem não aderir à assinatura, será expectável um menor tempo de permanência no site, logo também um menor tempo de exposição a mensagens publicitárias, sendo portanto provável que ocorra um abaixamento do preço que as marcas pagam pela publicidade, dando azo ao famoso mecanismo de auto-regulação de mercado, tão prezado pelo Director do Público.
Ainda neste capítulo, os efeitos da diminuição de acessos e do menor tempo de permanência on-line não se farão sentir simplesmente na publicidade externa. Também o impacto da publicidade interna acerca da imensa panóplia de publicações apêndice que os próprios jornais de há algum tempo a esta parte tem vindo a aderir, e que segundo consta, são responsáveis por uma fatia considerável das receitas dos mesmos, será reduzido.
É por isso que para o apuramento final do saldo desta opção não bastará somar os créditos das assinaturas conseguidas. Terá que haver uma contabilidade bem mais abrangente.

sexta-feira, abril 01, 2005

Afinal temos um bom ministro

Alguns tiques de certas cliques portuguesas cintilam na crónica que Prado Coelho assina hoje no Público. Homem de cultura, Prado Coelho avalia o mundo e os indivíduos pela posse de competências culturais, situadas, está bem de ver, no mundo da arte dominante. Assim, Manuel Pinho, Ministro da Economia, porque é coleccionador de arte, alcançou o zénite da escala prado-coelhana. Cavaco, por seu turno, trocando Thomas Mann por Tomas Morus, e não sabendo quantos cantos tinham os Lusíadas - escândalo nacional - já não servia, por esses factos, para primeiro-ministro. Se são bons ou maus economistas, se partilham modelos de intervenção ou têm pensamentos diferentes, não interessa. A casaca cultural é que avalia os seus méritos. Talvez não fosse mau que estas metralhadoras de referências artísticas, para equilibrar, demonstrassem conhecimento noutras áreas socialmente menos charmosas: um pouco de física, umas noções de química, concepções básicas de engenharia, matemática, e talvez mesmo algum saber prático, em marcenaria, agronomia e metalúrgica. Mas não, continuamos a fazer loas à aparente excelência do nosso provincianismo.