segunda-feira, janeiro 31, 2005

Portugal, 2005

Como é possível, trinta anos depois do 25 de Abril, que uma campanha eleitoral visando a eleição de um parlamento e de um governo esteja centrada na vida privada dos candidatos? Já há muito que grande parte da esquerda, quando quer açoitar Santana, prefere as questões do estilo às de conteúdo. Agora, assistimos a uma campanha inqualificável da direcção do PSD em relação ao cabeça de lista do PS e à sua pretensa homossexualidade. O populismo na sua forma racista. Alguns dirão que é o desespero. No entanto, continuo a pensar que o cuidado é sempre pouco com esta espécie de populistas, especialmente quando dominam com mestria o mundo da linguagem mediática e pouco se importam de mergulhar na sarjeta para chegar aos seus objectivos.

sábado, janeiro 29, 2005

Um longo domingo...

Na mesma semana vi um dos melhores filmes de sempre, ‘2046’ de Wong Kar-wai, e, até ao momento, o pior filme do ano, ‘Um longo domingo de noivado’, de Jean-Pierre Jeunet. Confesso que não fazia questão alguma de ir ver este último, mas a uma sexta à noite, depois de um longo dia de trabalho, torna-se difícil argumentar com um grupo de amigos, fã do famoso ‘Amelie’... Já o ‘Amelie’ tinha sido uma desilusão. Depois do ‘Delicatessen’ esperava mais, muito mais de Jeunet. Mas não. Acabou por realizar um ‘feel-good-movie’, perfeitamente inofensivo, é certo, mas em nada criativo. ‘Um Longo domingo’ parece a história da (tri)bisavó de Amelie. Audrey Tautou provou que ainda tem muito que provar... Terá de provar se é assim tão má actriz ou se a sua actuação depende exclusivamente da direcção de actores de Jeunet. Tautou lá esta, com aquela carinha ‘eternamente 5 aninhos’, a fazer um beicinho aqui, a abrir ou a fechar os olhinhos ali e, grandes momentos de representacao, a coxear, pois claro. Aliás, esta deficiência física é a única que separa Mathilde de Amelie. De resto, Tautou não fez esforço algum (ou simplesmente não consegue, coitada) para compor uma personagem diferente da empregada de mesa de um café de Paris. O filme é pejado de ‘flash-backs’, uma técnica que Jeunet, ex-realizador de ‘spots’ publicitários, parece adorar uma vez que o argumento é tão mau, tão mau que nem em mais de duas horas de filme, Jeunet consegue condensar a complicada historieta. Logo, temos os constantes ‘flash-backs’. Resta-nos a paisagem, o trabalho de montagem e fotografia. Tirando isso, não nos resta mais nada. Péssimo, muito mau mesmo. Completamente dispensável.

[E eu tambem gero vida. Se puder e quiser. Não sou a Maria, logo Deus não tem nada a ver com isso, muito menos o Gabriel...]

sexta-feira, janeiro 28, 2005

Auschwitz 60 anos

“(…) Mas o sentido era este, que não esqueci, nem então nem depois: que, exactamente porque o Lager é uma grande máquina para nos reduzir a animais, nós não devemos tornar-nos animais; que também neste lugar se pode sobreviver, e por isso é preciso querer sobreviver, para contar, para testemunhar; e que para viver é importante esforçarmo-nos para salvar pelo menos o esqueleto, os pilares, a forma da nossa civilização. Que somos escravos, privados de qualquer direito, expostos a qualquer injúria, condenados quase com certeza à morte, mas que uma faculdade nos restou, e temos de a defender com todo o vigor porque é a última: a faculdade de negar o nosso consentimento. Temos, portanto, sem dúvida de lavar a cara sem sabão, na água suja, e limparmo-nos ao casaco. Temos de engraxar os sapatos, não porque a tal obriga o regulamento, mas por dignidade e por propriedade. Temos de caminhar direitos, sem arrastar as socas, certamente não em homenagem à disciplina prussiana, mas para nos mantermos vivos, para não começarmos a morrer.”

Primo Levi, Se Isto é Um Homem

Auschwitz 60 anos

“(…) E não o diz por decisão ou por escárnio, mas porque de facto este nosso comer de pé, furiosamente, queimando-nos a boca e a garganta, sem tempo para respirar, é “fressen”, o comer dos animais, e não certamente “essen”, o comer dos homens, sentados a uma mesa, religiosamente. “Fressen” é o termo apropriado, o que habitualmente usamos entre nós.”

Primo Levi, Se Isto é Um Homem

Auschwitz 60 anos

“A persuasão de que a vida tem uma finalidade está enraizada em todas as fibras do homem, é uma propriedade da substância humana. Os homens livres dão a esta finalidade muitos nomes, e sobre a sua natureza muito se debruçam e discutem; mas para nós [judeus em Auschwitz] a questão é mais simples. Agora e aqui, a nossa finalidade é chegar à Primavera. Neste momento, nada mais nos preocupa. Por detrás desta meta, neste momento, não há outra meta. (…)”

Primo Levi, Se Isto é Um Homem

... Da cabeca

Doente. Muito doente. Um homem assim tao doente nao deveria candidatar-se a Primeiro Ministro de um pais, ainda que esse pais seja Portugal. E este o unico comentario que faco as declaracoes de Santana Lopes acerca da ‘mega-fraude’. Muito, muito doente…

quinta-feira, janeiro 27, 2005

Emigração outra vez

Por cá, o Partido Conservador, a tentar desesperadamente recuperar os votos que perdeu para a extrema-direita, lá avançou com mais uma proposta de lei para combater a emigração, seja esta causada por motivos económicos ou por motivos políticos. O noticiário da BBC2 resolveu debater a questão. O senhor do partido conservador lá disse que a lei era viável, mesmo que quebrasse convenções internacionais sobre refugiados e leis europeias; disse mesmo que se estava nas tintas para a Europa. Bravo. Uma senhora que defendia os interesses dos refugiados não foi brilhante, já que se preocupou apenas com os refugiados políticos deixando o problema dos refugiados económicos ao critério dos governos. Mas foi uma terceira figura que mais chamou a atenção. Este último cavalheiro, que não consigo perceber por que raio foi convidado para o debate, ficou conhecido por ter ganho um concurso num outro canal televisivo. O concurso, intitulado “vote for me”, consistia, se bem percebi, num género de disputa política fictícia entre vários concorrentes, cabendo aos telespectadores ingleses a decisão quanto ao vencedor. Pois bem, este senhor, que ganhou o tal concurso de popularidade, afirmou que o país “estava fechado para o negócio”, “close for business”, isto é, que ninguém, mas ninguém, deveria poder entrar na Inglaterra. Mas disse mais, perante as provocações do jornalista, o excelente Jeremy Paxman, disse que mesmo numa situação idêntica à resultante dos campos de extermínio nazi, a Inglaterra não deveria receber um único refugiado. Disse-o com convicção e sem qualquer vergonha. Perante a constatação de que são precisos estrangeiros para realizar certos trabalhos em Inglaterra, o senhor afirmou que deveriam ficar até que ingleses fossem especialmente formados para esses trabalhos, mas depois teriam que sair. Perante o nível do debate, o governo trabalhista o mais que consegue dizer, pela boca de Blair, é que o plano dos tories é pouco prático e burocrático. Diga-se que enquanto os conservadores querem impor um quota de 15 000 refugiados por ano na Inglaterra, há países africanos e asiáticos, pouco mais que miseráveis, que recebem milhões de refugiados provenientes de países ainda mais miseráveis do que eles. Assim vai o mundo.

O golo para acabar com o jogo

Estou em crer que quando um jogador marca um golo como o que Paíto marcou ontem no derby da Luz o jogo devia acabar de seguida. O mesmo deveria ter sucedido quando Rui Costa colocou Portugal a vencer a Inglaterra no último Europeu. Acabava. Não havia muito mais a dizer. Ontem na Luz confirmou-se mais uma vez que o futebol é um jogo injusto. E às vezes, como ontem, ainda bem que é assim. Os golos do Benfica surgiram quase todos de lances fortuitos, não há uma ideia, uma jogada combinada, uma estrutura de jogo, nada. Defender, e mal, e pontapé para a frente, são os dois mandamentos de Trapattoni. Salvou-se a narrativa emocional do jogo e o seu final exemplar. Menos mau.

Guerrilhas

Regularmente visito o blog do Gato Fedorento (GF). Acho piada aos gajos. Isto e, as vezes. Nem sempre. Confesso que aquela cena de colocar a publicidade aos ‘shows’ me enerva de sobre maneira. Mas enfim, cada um faz do seu blog aquilo que quer. No geral considero o blog despretensioso, com boa critica social, e com sentido do humor inteligente. Portanto, sou assidua. De ha uns dias para ca, tenho vindo a acompanhar o debate entre o GF e o Acidental. Este ultimo, desconhecia por completo. Mas parece-me que tambem nao vale a pena conhecer. Ja la vamos.
Pois entao, defendia-se o RAP do GF da critica que o Acidental lhe dirigiu pelo facto dele ter ido a um jantar do Bloco de Esquerda (BE). O PPM (Mascarenhas) achou mal o RAP dar a cara por um partido, alegando que o RAP nao devera confundir a imagem do Gato Fedorento com a do BE e que um humorista devera manter-se imparcial na medida em que o seu publico e ‘admiradores’ proveem de sectores politicos e sociais diversos. A resposta do RAP a PPM e de facto brilhante.
Entao porque e que eu estou para aqui a comentar o assunto?! Porque raio e que eu, que ate nem gosto destas entre-blogs guerrilhas, venho por este meio comentar o que aconteceu? Olhem, porque achei bizarra que os Belfords, os Nogueiras Pintos, os Bourbons, os Deuses e os Ratos, em pleno seculo 21, e depois de deposta a ditadura em Portugal, ainda pensem que a participacao civica devera ser dever (privilegio?) de alguns e nao de todos. Sera talvez dever dos Belfords, dos Nogueiras Pintos, dos Bourbons, dos Deuses e dos Ratos. E um humorista, oh valha-nos o Papa, essa grande categoria social de elevadas responsabilidades tambem elas sociais! Esse modelo para as criancinhas! Um humorista, senhores, um humorista a ter opiniao politica! Onde ja se viu?! Alias, pessoas a terem opiniao politica?! A arraia-miuda?! Entao mas o que e isto! Ja chegamos a Madeira o que? Olha ai sim, ai so tem opiniao politica quem deve ter!
No meio disto tudo la fui eu visitar o Acidental. E um blog, como outro qualquer onde sao expressas opinioes politicas. Com a diferenca de que estas opinioes politicas sao expressas por quem deve, por quem de direito, e nao por qualquer um. E depois acho lindo! No final de cada post tem sempre a frase ‘E nos tambem geramos vida’. Bom saber. Enquanto os Nogueiras Pintos, os Bourbons, os Deuses e os Ratos se reproduzirem havera sempre quem deva pronunciar-se politica e civicamente, e de direito!

terça-feira, janeiro 25, 2005

FCP

A invasão russa do futebol português parece ser uma realidade incontornável nos dias de hoje. Depois do Dínamo de Moscovo, é agora a vez do Spartak de Boxe de Moscovo e do Locomotiv de Boxe de S. Petersburgo que avançam sem medo para novas contratações, em Portugal.
Extasiados perante as últimas exibições de Benni Mcarthy e Luís Fabiano ao serviço do FC Porto, os responsáveis dos dois clubes russos já estabeleceram os primeiros contactos com os responsáveis da SAD Azul e Branca, no sentido de poderem contratar os dois atletas ainda antes do fecho deste período de inscrições. A intenção dos dirigentes russos é poder contar ainda com os seus valorosos préstimos na segunda fase do campeonato russo de boxe, actualmente muito disputado entre estas duas agremiações.
Entretanto, noutro âmbito, o FC Porto emitiu esta tarde o comunicado tipo em defesa daqueles que, habitualmente, por valorosos actos, pugnam pelas vitórias portistas. Depois de ainda na semana passada o ter feito em prol de Nuno Cardoso, agora é a vez de o fazer em defesa do brio profissional de Luís Tavares, o bandeirinha que não viu a bola a ultrapassar a linha de golo no Estádio de Luz, e que neste fim de semana, coerentemente, também não viu o festival de socos e cotovelos dos avançados do FCP sobre os defesas leirienses mesmo à sua frente.
Assim, num comunicado divulgado no sítio na Internet do clube, o F.C. Porto "assegura, inequivocamente, que a postura do auxiliar Luís Tavares foi rigorosa e exemplar, em nada tendo beneficiado, quer do ponto de vista pessoal, quer patrimonial, com este lapso".
Acrescenta ainda, "o que parece ser penalizante, quer para a pessoa de Luís Tavares, cuja seriedade está neste momento a ser posta em causa, quer para os representantes do F.C. Porto, é que a competência e eficácia sejam sempre motivo de inveja ou de especulação", refere o comunicado do clube "azul-e-branco".

sábado, janeiro 22, 2005

Por mares nunca dantes navegados...

Os Lusíadas são uma das obras-primas da literatura portuguesa e mundial. Há poucos dias atrás concluí finalmente a sua leitura. Só à segunda tentativa visto que, há mais ou menos três anos, fiz uma primeira incursão para ler a obra épica de Camões. Infelizmente,e ao contrário do que é habitual nos meus hábitos de leitura - onde sou incapaz de deixar um livro a meio, mesmo que o ache intragável - interrompi no quinto canto, curiosamente com as naus de Vasco da Gama a aproximarem-se do Cabo da Boa Esperança. Não consegui dobrar o Cabo. O Adamastor não deve ter gostado da minha cara e voltei a pôr o livro na prateleira.

À segunda foi de vez e os dez cantos foram rapidamente percorridos (talvez seja mais correcto dizer navegados), estrofe por estrofe. E aqui deixo o meu elogio a Luís Vaz de Camões porque é de facto notável como se consegue produzir uma obra deste calibre, sempre em oitavas, sempre com o mesmo esquema rimático e sempre com o mesmo número de sílabas métricas. Verdadeiramente assombroso o talento e o engenho deste génio universal que o pequeno rectângulo produziu. E que, tal como outros Portugueses de valor, não viu ainda em vida serem reconhecidos os seus méritos.

Os Lusíadas são muito mais que uma obra em poesia. São o relato de uma viagem, numa época que deve ter sido verdadeiramente fascinante de viver, são um manual de História de Portugal (desde os primórdios até à actualidade do autor) e são igualmente um retrato da sociedade portuguesa do séc. XVI. Só me interrogo como é que o censor do Santo Ofício deixou passar a autêntica sessão de sexo em grupo que decorre na Ilha dos Amores, sublime recompensa dos marinheiros portugueses, desgastados e esgotados de mil e uma peripécias. Eu escrevi desgastados e esgostados? Esqueçam o que eu escrevi.

À laia de reflexão deixo aqui a transcrição da estrofe 145 do canto décimo:

"Não mais, Musa, não mais, que a lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho,
Não no dá a Pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Duma austera, apagada e vil tristeza."

Intemporal, não é?

sexta-feira, janeiro 21, 2005

Segunda parte, do lado de dentro

O presidente americano conquistou a última eleição porque falou a um país que, na sua grande parte, é um espaço provinciano, no sentido físico e mental da palavra. Mas a sua eleição é, antes de mais, um aviso para a esquerda, essa esquerda que deixou de conseguir falar com as pessoas “simples”. O que se passou foi extraordinário: Bush conseguiu ganhar em regiões empobrecidas, onde os trabalhadores perdem direitos todos os dias; Bush ganhou retirando direitos de saúde, de educação, destruindo aos poucos a segurança social. Este processo vai continuar, o presidente já o anunciou. Para lutar contra os efeitos eleitorais de tais políticas, Bush usou o nacionalismo, o medo e a ideia de que em cada esquina, em cada casa, em cada rua, pode estar um terrorista a trabalhar para destruir a América. Tudo embrulhado num discurso primário mas absolutamente eficaz. Quem goza com Bush, devia ter atenção à eficácia da sua estupidez. Bush não é estúpido, é um vencedor. A “comunidade internacional”, já se notou, pouco interessa ao presidente e aos seus Homens de mão. Resta então, infelizmente, a política interna americana. Muito do que se passará no mundo passa pela luta que os americanos conseguirem fazer ao seu presidente.

Segunda parte, do lado de fora

George Bush iniciou ontem o seu segundo mandato afirmando que a América iria lutar por levar a liberdade a todo o mundo. Conhecendo o método americano a frase só pode preocupar o mundo. As explicações para o novo imperialismo americano têm sido diversas. Muito se tem falado do idealismo dos neo-conservadores, da recuperação dos valores morais, da influência da sua matriz religiosa radical. Tudo isto é verdade, mas talvez faça sentido juntar a estes factores o preocupante estado da economia americana. Os americanos gastam muito mais do que produzem, importam muito mais do exportam. Parte do dinheiro utilizado para equilibrar a situação é proveniente de títulos da dívida pública que têm sido comprados, em grande parte, por capital saudita e chinês. A situação é artificial e instável. Mas os Estados Unidos sabem que mesmo que percam na economia têm sempre a hipótese coerciva. Infelizmente tudo leva a crer que o futuro próximo passe pelo saque de matérias-primas e recursos naturais. Sabe-se, claro, em que região do mundo estes recursos abundam. Sabe-se, também, qual é o método americano. A máquina de propaganda, claro, irá apregoar os valores da liberdade, do cristianismo e da sociedade da posse.

quinta-feira, janeiro 20, 2005

Vera Drake

Mike Leigh e um filho de Manchester. Nasceu a meio da Segunda Guerra Mundial numa das cidades mais bombardeadas pelo Alemaes, que procuravam acima de tudo, destruir o coracao industrial de Inglaterra. So quem nao conhece o Noroeste de Inglaterra e que pode negar a existencia de uma classe trabalhadora, a mesma que Marx e Engel descreveram. Leigh conhece esta classe melhor do que ninguem. Cresceu em Salford onde a vida acontecia ao som do toque da fabrica, onde nos bairros as familias se aglutinavam por oficios, onde as arvores eram cinzentas e nao verdes, onde o sol a custo despontava pelo meio da poluicao, onde a agua do canal nao era translucida e transparente. Todas estas memorias, Leigh transfere-as para a tela do cinema. Melhor do que ninguem, este e um realizador que retrata as diferencas de classe numa Inglaterra dominada pela Industria pesada.
E no entanto uma visao romantizada, que quase sempre transmite a idea da classe trabalhadora como uma classe de pessoas boas, humildes, puras e docemente ingenuas; por oposicao a uma classe alta arrogante e snob. Leigh ja nao vive em Manchester. Leigh ja nao vive em Salford, Manchester. Nao ficou para assistir a depressao industrial, a Guerra da cidade com o governo Tatcher, que lhe custou anos de abandono politico. Leigh nao sabe as consequencias que tal teve para a sua ‘working class’. Mas e, no entanto, um 'realista' que procura filmar uma realidade que nao se confina a Dover e a uma Londres turistica…
Sendo um ‘realista’, foi com expectativa que fui ver ‘Vera Drake’, o ultimo filme de Leigh. Como seria Leigh capaz de abordar a tematica do aborto? Vera Drake e uma mulher da classe trabalhadora que, no pos Segunda Guerra Mundial, ganha a vida a limpar as casas ‘das senhoras’. No seu tempo livre, Drake faz abortos, sem pedir dinheiro algum as mulheres que recorrem aos seus servicos. A obsessao do realizador por enfatizar a divisao de classes resultou porque no que concerne a esta tematica, a divisao de classes permanence actual: as mulheres que Drake ajuda sao praticamente todas da classe trabalhadora mas Leigh subtilmente mostra-nos como fazem as mulheres da classe alta, que recorrem a clinicas especializadas. Drake, ao contrario dos medicos dessas clinicas, e apanhada pela policia e condenada a prisao. Durante o interrogatorio, quando o inspector lhe pergunta o que e que ela faz, Vera Drake responde que ‘ajuda as raparigas’. ‘Faz abortos, portanto?’, insiste o inspector. ‘Nao, voce chama abortos, eu nao. Eu ajudo as raparigas a mestruarem de novo’.
Leigh, um homem, conseguiu neste dialogo dizer muito mais do que muitas campanhas a favor da liberalizacao do aborto. Alias, o filme so poderia ser escrito e realizado por um homem. Uma mulher exploraria mais o lado da mulher que e submetida a interrupcao da gravidez. O seu sofrimento fisico e emocional, a sua culpa. No entanto, este enfoque dificilmente seria compreendido pela maioria dos homens que por vezes parecem nao entender que para uma mulher aborto para alem de significar perder um filho e quase como uma amputacao. Fisicamente todo o corpo da mulher se altera desde de um dia 1 de uma gravidez, e se prepara para algo que faz agora parte do seu organismo. No filme de Leigh, as mulheres que abortam nao sao as protagonistas. Com 52 anos, Leigh tem maturidade suficiente para perceber que se tentasse ir por essa via seria um desastre. A protagonista e Vera Drake, que na sua candura e simplicidade, acredita nao estar a fazer nada de mal. Acredita que esta simplesmente a ‘ajudar as raparigas’ que nao tem mais a quem recorrer. A Inglaterra de 1950 retratada em ‘Vera Drake’ poderia ser Portugal de 2005. Com uma diferenca: nem em Inglaterra de 1950 se condenavam a prisao as mulheres que interrompiam a gravidez…

terça-feira, janeiro 18, 2005

Máxima Sociologia

Mérito do habitual incumprimento de horários, uma espera de umas boas dezenas de minutos num consultório médico possibilita-nos, em face da inexistência de alternativas, dar uma vista de olhos pela literatura colocada ao dispor dos pacientes, designadamente às revistas ditas femininas, Máxima e Activa.
Foi aí que, entre páginas que alternam entre os anúncios de perfumes da Gucci, lingerie La Perla ou cremes anti-rugas da Vichy, com artigos versando os ciúmes, a fidelidade conjugal ou novas formas de sedução, pude constatar que não havia nestes artigos publicados um só que não apresentasse um ou mais sociólogos a debitarem completas vulgaridades sobre a temática mencionada.
Sabemos que a sociologia é uma disciplina recente em termos da sua institucionalização académica, e de ser alvo de um relativo desconhecimento acerca da utilidade do seu contributo em diversas áreas de actividade. Sintoma disso mesmo é a difícil inserção profissional no mercado de trabalho dos sociólogos.
Por outro lado, e não obstante o reconhecimento social e mediático de alguns sociólogos, também é verdade que a transmissão da descoberta científica e reflexividade produzida pela disciplina gira ainda muito no circuito inter-pares, frequentemente veiculada em discursos herméticos e dificilmente descodificáveis pelos leigos.
Diga-se ainda, em abono da verdade, que o trabalho do sociólogo nem sempre é visto com bons olhos por aqueles que receiam a capacidade de intervenção crítica de que muitas vezes a disciplina se faz valer para tentar aclarar determinado fenómeno social.
Agora o que eu duvido muito é que perante este estado de coisas e face ao colete de forças imposto por alguns poderes (político e económico) ao espaço de manobra da disciplina, a melhor forma que alguns sociólogos encontraram para tentar aumentar o reconhecimento social da disciplina seja aquela que ontem me pude aperceber estar a ser basto praticada...

segunda-feira, janeiro 17, 2005

Sobre 'sobre a argumentacao'

A questao nao e discutir eucaliptos ao inves the batatas ou cebolas. A questao e discutir-se apenas os eucaliptos. Em Inglaterra ha uma expressao que eu considero brilhante: 'one can't see the wood for the trees'. Parece-me que este e o caso da presente discussao. Estou aqui a discutir o facto do Harry ter usado a farda (ou o que seja) dos nazis numa festa alusiva a nativos e colonialistas quando, por exemplo, em Inglaterra, sob o Criminal Justice Act 2003, que regula a lei anti-terrorista, os cidadaos de origem Africana tem uma probablidade 8 vezes maior de serem parados em via publica e revistados pela policia sem motivo declarado. O 'Terrorism Act 2000' permite a policia tal tipo de conduta - suspeicao de 'stop & search' com base na origem etnica do cidadao. Portanto, querem falar de racismo, descriminacao etnica, falemos do aqui e agora. Os campos de concentracao nao estao na historia, estao nos campos de refugiados que grassam pela Europa a fora, estao no Sudao, no Ruanda de 1994 e no Ruanda de 2005 que procura ainda a reconciliacao de uma nacao abandonada a si mesma. A forma de lidar com o racismo, com o facismo se quiserem, nao e proibir suasticas e canconetas. Vai muito para alem disso. O Harry nao precisa de usar a suastica para que todos os dias os direitos das minorias em Inglaterra e por essa Europa a fora sejam violados. Acho de um cinismo atroz, num pais em que tais FACTOS se passam diariamente, se venha com pompa e circunstancia discutir um acto irreflectido de um jet-setezito sem qualquer importancia. O Harry corresponde a copa das arvores e o resto aos troncos / madeira. Podemos discutir as copas das arvores, mas de nada adianta se nao se chega aos troncos...

Sobre a estética

Em relação ao último grande momento estético do nosso blogue só posso aconselhar o sensato autor a transformar a brilhante ideia em rubrica semanal. Não sendo uma ruptura radical, aproximamo-nos do ideal estético de separação total da forma e do conteúdo. Estou a imaginar o judeu a entrar para a câmara de gás e perguntar ao simpático nazi – Senhor nazi, que belo fato, têm um costureiro próprio ou vão ao armazém espanhol? – Meu amigo judeu, nós aqui, no terceiro Reich, além de não gostarmos de judeus, também não vamos à bola com latinos e outras raças assim mais pró escuro. Herr Wolf, um génio do corte e costura, é quem faz os fatos, nada de espanholadas. – Senhor nazi, são realmente extraordinários, e as calças estão vincadas e tudo, e que bonita suástica, das melhores que tenho visto – É verdade, nós aqui temos um sentido estético elevado em todas as realizações humanas, é pena que você já não tenha tempo de apreciar um filmezinho da Leni Riefenstahl, senão iria ver como a nossa estética racista, antes de ser racista, já era modernista, olhe mas já que estamos aqui na câmara de gás você, amigo judeu, pode apreciar estas fantásticas linhas arquitectónicas, repare na relação das formas com a luz, e o modo racional como as entradas do gás estão colocadas para você e os seus amigos judeus morrerem democraticamente ao mesmo tempo, não é sublime? – É mesmo sublime senhor nazi.

Sobre a argumentação

Há inúmeras formas de argumentar. A um dos tipos de argumentação podemos chamar de argumentação eucalipto, porque seca tudo à volta. Com esta espécie de argumentação não fica nada de pé, não há ideia aproveitável, não há análise que se salve, não há acumulação de interpretações ou cooperação crítica, tudo fica reduzido a escombros. O especialista no argumento eucalipto utiliza várias técnicas. A mais extraordinária é a de acusar o outro de não se ter referido a algo que o próprio nunca tinha, na sua boa vontade, tencionado referir. Se falamos em batatas, devíamos ter falado de cebolas, se falamos de andorinhas, cai o Carmo e a Trindade, porque omitimos as gaivotas. O utilizador da argumentação eucalipto até pode estar de acordo com o argumento inicial, no entanto o seu objectivo é mostrar que nada daquilo faz sentido porque há sempre um facto qualquer mais relevante para a questão, um imperador romano, um facto histórico esquecido, uma criancinha que ficou por salvar. Alguém escreve alguma coisa sobre o sol e, às duas por três, já lhe foram colados uns quinze rótulos, os mais suaves dos quais balançam entre o colaboracionista e o ignorante. No fundo é divertido.



sábado, janeiro 15, 2005

O Principe Burro VII

Censure-se o ‘Alo, Alo’, que se crie a comissao de inquerito as anodotas, piadas corriqueiras e diarias, que se banam inclusive as cruzes das Igrejas, nao vao elas torcerem-se e deformarem-se em suasticas... So algumas outras ‘adendas’:

1) nao ha bons colonialistas e maus colonialistas: foram e sao todos maus;
2) em Inglaterra a monarquia nao tem qualquer responsabilidade para alem de (a) manter-se viva; (b) dar conteudo aos jornais e outros que tais; vulgo, nao joga nem da cartas;
3) a monarquia nao e contestada como sendo ma so porque o principe e burro. Perece-me a mim que se devera contestar o principio nao democratico da monarquia ou sera que se fossem os monarquicos uns iluminados entao ja a monarquia era boa?! Se a monarquia em Inglaterra nao foi minada o suficiente pelo movimento cartista, nao sera o desvaire de Harry que o fara;
4) os ingleses estao mais importados com a presenca da mae do Stalone na casa do BB dos famosos, lado a lado com a sua ex-nora Brigitte, do que propriamente com a indumentaria do principe. Esta parece preocupar mais os jornais ingleses e, pelos vistos, alguns portugueses....

A historia e isto: uma selecçao de factos que retrospectivamente nos chocam ou nos dizem algo. Factos que na sua contemporaneadade nada nos diziam. E infelizmente. Por isso mesmo e que os genocidios sao repeticoes historicas. Estamos nos ainda obcecados pelos soldados SS quando outros factos ja estao acontecendo, os quais nos tendemos a nao dar importancia... A farda do soldado SS nao e o que me faz confusao... Isso e o acessorio. O que me faz confusao e o ser humano. Isso e a essencia.

PS: Ha tempos foram publicadas fotos de soldados israelitas a jogar futebol com a cabeca de um prisioneiro palestiniano. Ao que parece, os soldados SS tinham por habito fazer exactamente o mesmo. Nao estou a ver os soldados israelitas a vestirem fardas dos SS para os bailes de mascaras e no entanto... Isto, meus senhores, e a essencia.

sexta-feira, janeiro 14, 2005

Adenda factual

Fidel Castro e Che Guevara podem ser acusados de muitas coisas. Ha um terreno grande de discussao que defensores e detractores podem percorrer. No entanto, nao e historicamente correcto considerar que fossem alguma vez assassinos em massa.

O Príncipe Burro VI

Pode um príncipe ir disfarçado de nazi a um baile de máscaras? A resposta parece-me óbvia: não. E em nenhuma circunstância. Nem no mais absurdo dos bailes de máscaras.
Consequência primeira da pressão e da imediaticidade comunicacional dos fenómenos políticos e sociais começa a surgir-nos um problema que se prende com a ausência de memória social, individual e colectiva. A maioria de nós cresceu neste ambiente de total desresponsabilização e de total alheamento da história sangrenta que é a história do continente europeu, por exemplo. Não conheceu outro regime que não este que lhes garante total e plena liberdade. Não conheceu a prisão política. Não conheceu o sofrimento atroz ou o campo de concentração. Não conheceu Hitler, Mussolini ou Estaline. Só isso justifica que um príncipe ache in ir disfarçado de nazi a uma festa ou que milhares de adolescentes enverguem orgulhosos t-shirts de assassinos de massas como Guevara, Fidel e outros distintos artistas adeptos da engenharia social e da manipulação de massas. Não está em causa quem pior fez; está em causa quem foram eles e o que fizeram. E bem foi coisa de certeza que nenhum deles fez.
Não é raro encontrar na Internet, nas salas de jogos por exemplo, gente que se esconde atrás de pseudónimos racistas e/ou nazis. A questão por isso parece-me estar na vivência, nas experiências que nós não tivemos; na ausência do contacto com a violência, com a arbitrariedade dos homens sobre outros homens (uma forma refinada de violência), com o dogmatismo, com o que seja que nos leva hoje a assumir como passado longínquo que nós teimamos em desrespeitar. Já não bastam as imagens. A distância de tudo isto, as coisas a preto-e-branco tornam tudo distante, irreal, impossível, inverosímil. Suave e leve engano. Não é à toa que muita gente que lutou para que acontecesse o 25 de Abril em Portugal se sente hoje defraudada com as novas gerações aparentemente indiferentes a tudo o que se passa.
Mas o problema, quanto a mim, não está no disfarce do príncipe: está na leviandade com que o mesmo príncipe escolheu tão ridícula, e perigosa, indumentária. Esse é que é o nosso verdadeiro problema. O mundo está cheio de Harrys para quem disfarçar-se de nazi é um assunto sem tabus e aparentemente motivo de chacota e diversão.Só que sem memória, não há respeito. E sem respeito pelo próximo, pela sua/nossa memória, não há civilização que resista nem alicerce que nos valha.
Nenhum adolescente pode pensar que é normal disfarçar-se de nazi. Não é só Harry: são todos.

O principe burro V

Talvez criar uma comissao de etica para avaliar mascaras e outras indumentarias festivas.
O politicamente correcto e realmente discriminatorio e so dispara para alguns lados. Verdade indiscutivel. No entanto, o que a utilizacao desse argumento - que em teoria esta correcto - acaba por provocar neste caso concreto e considerar-se normal que alguem com responsabilidade publicas e politicas - que sao obviamente avaliadas de acordo com o papel que monarquia desempenha, para o bem ou para o ma,l em Inglaterra - vista um fato de oficial das SS. Nao me parece muito produtivo fazer um ranking dos torcionarios e considerar que afinal o Harry ate podia se ter vestido de coisas muito piores. O contexto do nazismo e algo com uma importancia social extraordinaria, atinge pessoas que estao vivas, foi provocado por seres humanos que, temporal e socialmente, nos sao proximos. Alguem hoje responde pelas mortes provocadas por Nero ou por Caligula. Imaginemos o filho do Sampaio numa festa com mascaras. Podia vestir-se de Afonso Henriques, o nosso primeiro Rei que fartou-se de matar mouros pelo rectangulo abaixo, e ninguem se importaria. Mas se vestisse um fato da mocidade portuguesa, cujos membros, como membros, nao mataram ninguem, o caso fiava mais fino. E obviamente com toda a justificacao.

O Principe Burro IV

La esta, porque nao vestir-se a Edward VII, filho de Victoria? O lobby dos sobreviventes do massacre de Jallianwala Bagh na India em 1919 e capaz de nao se fazer ouvir tao alto... O problema do 'politicamente correcto': a parcialidade.

Axioma

Axioma: quanto mais avançamos para a esquerda no campo político mais feias e peludas são as gajas.
Excepções: Joana Amaral Dias e Ana Drago
Razões: dois enfeites muito úteis no Bloco de Esquerda que ajudam a cumprir as quotas.

Plágios

O líder da Juventude Popular da Madeira, Roberto Rodrigues, foi acusado de plágio por Vicente Jorge Silva e Vital Moreira. A polémica prende-se com um artigo escrito pelo primeiro no seu habitual espaço mensal de opinião no Diário de Notícias (também conhecido por Diário dos ingleses ou dos Blandys) onde Rodrigues supostamente “rouba” quase na íntegra alguns parágrafos e as ideias principais dos dois conceituados articulistas.
O plágio, como todos nós sabemos, não é bonito e não é correcto. Mas pior mesmo, só não pedir desculpa e não reconhecer o erro. Duas coisas que Rodrigues, perante a gravidade dos acontecimentos, muito humildemente, deveria ter feito.

O Principe burro III

E certo que os media raramente discutem o que importa. O caso Harry e mais um fait-divers para vender jornais. No entanto, apesar de a nossa posicao informada exigir que outros assuntos assumam a actualidade, o facto e que a questao passou para a agenda publica e tornou-se num acontecimento politico, uma optima oportunidade para largar mais umas ferroadas na digna instituicao monarquica. Neste sentido, saudo a oportunidade de O Principe Burro I.
Despindo o filtro sociologico que vive pegado ao meu corpo arrisco uma explicacao genetica. Os geneticistas, que todos os dias descobrem genes para tudo e mais alguma coisa - a homossexualidade, a violencia, a pedofilia, etc - deviam estudar o gene monarquico, o gene por excelencia, nao estivesse em contacto directo com o sagrado. O gene monarquico ingles, por exemplo, esta acometido pelo virus da patetice. E evidente neste sentido, que Harry sai ao pai. Outra persistencia mais preocupante no gene monarquico ingles sao as derivas nazis. O saudoso Eduardo VIII, tio-avo do Harry, conhecido por ter abdicado do trono pelo amor de uma plebeia americana, Wallis Simpson, tinha fortes simpatias pela causa do terceiro Reich razao pela qual, triste versao alternativa ao caso de amor, foi posto a andar.
Diga-se que o choque da foto de Harry reside no facto de o jovem principe nao surgir mascarado, no sentido ironico, ou divertido da mascara (uma caricatura de Hitler nao seria tao ofensiva), mas surgiu uniformizado, tal e qual, um oficial das SS. O rapaz tem vinte anos, nao tem oito nem doze, e descende directamente da rainha Victoria, a mulher que governou quase todo o mundo. E uma responsabilidade.



Metal rules

Uma suave educação sonora, mais ou menos distinta, afasta muitas pessoas dos sons produzidos pelas bandas que compõem o universo multifacetado do heavy metal. Numerosos ouvidos, cuja sensibilidade é socialmente produzida, reagem, opinam, protestam, quando confrontados com um conjunto de sons que reconhecem genericamente como fazendo parte deste universo musical. A cansativa frase “é só barulho” torna-se numa avaliação comum que irrita sobremaneira o militante do metal. Todo o amante de música, independentemente do estilo, se aborrece quando o apreciador não iniciado realiza generalizações abusivas e quase sempre ignorantes. Fortemente enraizado nas práticas culturais de classes sociais baixas, o heavy metal cresceu em grande medida fora dos grandes circuitos da indústria musical. A sua divulgação faz-se quase sempre através do contacto pessoal, por redes imensas através das quais se trocam cassetes, discos e outro material relativo às bandas. Pouco se sabe da grandeza deste universo. Os media passam-lhe ao lado, embora a sua dimensão não seja despicienda.
Na universidade, a cultura popular continua a ser um objecto pouco apreciado, que se encontra na base da pirâmide das hierarquias académicas. O heavy metal é indiscutivelmente substância de cultura popular e merecia um estudo urgente. Infelizmente, pelas regras da reprodução social, não há muitos amantes do género com poder de o estudar nos níveis de investigação mais altos da academia.
Deixo uma sugestão de não especialista que se dirige apenas, obviamente, a não iniciados: o intemporal primeiro álbum dos Metallica carinhosamente intitulado Kill ‘Em All. Uma obra-prima da cultura popular.

O Principe Burro II

Portanto, qual e exactamente a polemica aqui:

1) Haver um principe burro?
2) Gastar-se tanto dinheiro (dos impostos) com a educacao do principe e mesmo assim nao se conseguir fazer dele uma pessoa inteligente?
3) Ele ser principe?
4) Ele ter sido fotografado?

A polemica aberta por este caso, parece-me a mim ser completamente ridicula. Basta dizer que so se tornou importante depois de esgotadas as noticias do Tsunami. O The Sun ja havia anunciado ter a polemica foto, mas muita tinta havia ainda de correr pelo Tsunami do Oceano Indico e so entao se passaria a realeza. Tudo em nome de uma boa causa: nada sobre o Iraque, nada sobre o genocidio no Sudao. Que Harry nao deve nada a inteligencia isso e um facto do dominio publico que nao preocupa os Ingleses. E ate motivo de chacota. Mas o que e que isto quer dizer?

1) Que as figuras publicas nao deverao ir a bailes de mascaras?
2) Que ninguem devera ir a bailes de mascaras?
3) Que as mascaras deverao ser unicamente referentes a personagens biblicos (mas os bonzinhos e mesmo assim, digo-vos, daria pano para mangas)?
4) E o que fazer daqueles que se mascaram de Imperadores romanos, que mataram milhares e milhares de cristaos? Dos que se mascaram de Stalines? De Pinochets? De Afonsos de Albuquerques?

Resta acrescentar que o tema da festa era 'Nativos e colonialistas'. Harry escolheu vestir-se a colonialista Nazi. A menos que o termo 'colonialista' tenha adquirido, da noite para o dia, uma conotacao positiva, o acto em si ate nao abona muito a favor dos Nazis propriamente ditos.
Nao quero com isto tudo menosprezar a importancia e a barbarie do holocausto europeu, assim como tambem nao menosprezo outros holocaustos e genocidios (veja-se o caso do Ruanda em 1994) completamente ignorados pelos ‘politicamente correctos’ que agora se levantam aturdidos e ofendidos porque um adolescente de capacidades intelectuais limitadas se vestiu de soldado SS. Nao se preocupam eles com os UKIPs (UK Independence Party) que sao eleitos para o Parlamento Europeu, ou com o BNP (British National Party) que gradualmente ganha terreno eleitoral. Mais uma vez, la estamos nos preocupados com o acessorio ao inves do essencial…

O Príncipe Burro

É comum os monárquicos invocarem, com jactância, a precoce e exclusiva preparação dos monarcas para o desempenho do seu cargo, como a característica distintiva que os separa do comum dos restantes mortais. Desde pequeninos lhes é torcido o pepino, desde tenra idade são embebidos numa esmerada e polida educação, desde pequeninos são socializados tendo em vista o superior exercício das suas funções.
Tal argumento, quando historicamente verificado, revela-se francamente falacioso. Figuras reais, como o imberbe e tolinho D. Sebastião, o medroso e fugitivo D. João VI, o esbanjador D. João V, ou o aspirante a absolutista D. Miguel, só para dar alguns exemplos, deixaram muito a desejar no capítulo da preparação superior para o exercício das funções governativas que exerceram ou a que aspiraram..
Mas as falhas na preparação não são um exclusivo da realeza portuguesa. Famílias reais europeias mais famosas e mediáticas possuem entre os seus membros indivíduos ainda mais acéfalos. O melhor exemplo vem da família real inglesa, mais concretamente do Príncipe Harry.
O Princípe Harry, depois ter sido submetido durante uma vintena de anos a uma sublime preparação tendo em vista o desempenho potencial de monarca da Coroa Britânica, conseguiu cometer o feito, que apenas está ao alcance dos eleitos pelo divino, de acorrer a uma festa envergando um uniforme nazi e uma braçadeira com a respectiva cruz suástica...
Depois da droga, do álcool, o príncipe remata em grande, insultando de forma execrável, e sem perdão, milhões de súbditos que sofreram as agruras daqueles que envergaram a indumentária que o rapaz pelos vistos tanto aprecia. Imagine-se o que poderia fazer o rapaz se não tivesse sido bafejado por uma educação superior, apenas possível a um grande dignitário da Coroa.

quarta-feira, janeiro 12, 2005

A bem da saude publica!

Vivemos nas trevas. No breu! Voltamos a era dos fundamentalismos, moralismos, e outros ‘ismos’ que os mais optimistas julgavam ja ter sido erradicados pelos ventos da Historia. No meio disto tudo, todos os prazeres nos estao a ser negados. Sim, falo-vos dos prazeres. Chega da conversa dos direitos, que esses ja nos sabemos perdidos. Mas os prazeres, oh meus senhores! E e que depois, aqueles que do alto da sua moral se autorgam a condenar os prazeres nao se contentam com a auto-imolacao. Sao uns invejosos e, qual calvinista puritano, usurpam os outros das pequenas alegrias que uma vida quase ja sem direitos ainda nos tem para oferecer. Falo-vos do tabaco. Comecou nas sociedades Anglo-Saxonicas, onde tudo e todos e e sao passivel de processo legal. Vai dai, e depois de dispendiosas batalhas juridicas com as tabaqueiras, os governos decidiram proibir fumar em locais publicos, nomeadamente bares e restaurantes, a bem da saude publica. Voces desculpem! A bem da saude publica! A bem da saude publica e mundial os EUA deviam cessar a venda de automoveis e confiscar outros tantos. A bem da saude publica e mundial os EUA deveriam assinar o acordo de Kioto. A bem da saude publica, os MacDonalds deste mundo deveriam ser proibidos. A bem da saude publica as redes de distribuicao de agua dita potavel deveriam ser mais eficientemente vigiadas. A bem da saude publica deveriamos todos andar a pe ou de mascara nas trombas para nao inalar os gases dos autocarros e dos carros. A bem da saude publica as familias com lareirinha deveriam deixar de queimar os seus plasticos e restante lixo ao lume (as tantas os mesmos que se queixam da inceneradora no seu distrito…). A bem da saude publica as pessoas deveriam ter acesso a informacao referente ao que comem, bebem e inalam. Deveriam ser consumidores informadissimos. Nao conheco consumidores mais bem informados que os fumadores. Isto e, malta que se mata com o pleno conhecimento de que se esta a matar. Nao acorda um dia e esta a ser bombardeado. Por isso, olhem, gostei das declaracoes daquele gajo, o Luís Filipe Pereira, que, confesso, nao faco a minima idea de quem seja, para alem de que e o ministro da saude. Mas sera por ventura um bom fumador. Disse ele que nos locais onde as pessoas sabem o que as espera, a proibicao de fumar nao devera ser imposta. Ora, vai-se a um restaurante ou a um bar onde nenhum sinal indica ser um estabelecimento proibitivo de fumar, entra-se e mesmo que nao se seja fumador, leva-se com o fumo dos que, consciente e informadamente, optam por se matar, a bem da saude deles. Imaginem que um dia destes proibem-nos de beber. Ai entao e que vai ser! A malta vai a um bar fazer o que? Pelos deuses! Nao nos queiram fechar em casa a ver televisao: o BB ou a ‘Quinta’. A bem da saude publica!

terça-feira, janeiro 11, 2005

Emigrantes no diva...

Aqui ha uns anos atras li um artigo de um famoso filosofo Portugues que se intitulava ‘Portugal no diva’. Ate hoje este titulo persegue-me e continuo a considera-lo a melhor palavra de ordem para tal pais a beira Atlantico plantado.
Vinha eu no aviao da Portugalia, de regresso a terras Lusas para um fausto e tradicional Natal, quando algo na conversa das minhas duas companheiras de voo imediatamente sentadas ao meu lado me chamou a atencao. Chamemos-lhe a Y e a X, ambas nos seus vinte e muitos, trintas anos. A X, do Porto, sentada do lado da janela, comentava para a Y, sentada no lugar do meio de uma fila de tres, que antes de ir viver para Inglaterra tinha vivido na Alemanha e que, acredite-se ou nao, tinha gostado mais das terras Germanicas do que estava a gostar das Anglo-Saxonicas. Queixava-se da dificuldade do funcionamentro do sistema, da distancia das pessoas ou indiferenca, e tambem do clima. A Y, com pronuncia de Braga, lancou-se numa acerrima defesa da Inglaterra. No seu parco e deficiente vocabulario, oralizou e verbalizou uma ode. Entre outras coisas mencionou ser professora na universidade e afiancou a X que os alunos por la eram bem mais inteligentes do que por terras lusas. Terminou com a estilistica frase: ‘Em Portugal sao todos uns abortos, basta ver por este aviao. Sao vao abortos aqui’. Ora tendo eu ‘Portuguesa’ de nacionalidade escrito no passaporte, e porque quem nao se sente nao e filho de boa gente, gentilmente interpelei a senhora. Passo a reproduzir o nosso dialogo:

Eu – A senhora desculpe, mas eu nao posso deixar de me meter na conversa. E professora de que e onde?
Y – De biologia na universidade em Chester (?).
Eu – Ah, ok. E que eu tambem dou aulas, mas em Manchester, e posso garantir-lhe que o nivel dos alunos e de facto muito baixo comparativamente a Portugal. Nao o considero em nada superior a Portugal.
Y – Hum, entao deve ser por sermos mais inteligentes que somos menos desenvolvidos…
Eu – Mas menos desenvolvidos em que sentido? No aspecto social? Economico? Tem ideia do nivel de desigualdades socias em Inglaterra? Ja alguma vez foi a Withemshaw? Sabe como funciona o NHS? Estamos a comparar o que com o que?
Y – Oh! Olhe o que sei e que eu em pouco tempo em Inglaterra ja comprei uma casa e em Portugal isso seria impossivel. E cale-se! Cale-se que me esta a incomodar! [o Reino Unido e o expoente maximo da sociedade do credito. Comprar uma casa nao e um grande feito. Cumprir com as obrigacoes que se seguem e que podera ser…]
Eu – Pois olhe, desculpe, nao querendo incomodar, nem tao pouco ofender, deixe-me dizer-lhe que a senhora esta com um discurso de ‘ressaibiada’. Parece ate aqueles emigrantes Portugueses que foram para Franca nos anos 60 e que chegavam a Portugal no Verao a dizer ‘ah, la na France e que bom’.
Y – Ressaibiada! Olhe eu em Portugal so porque fiz um curso de Fisica nao me deram bolsa para fazer um doutoramento em Biologia Molecular. Portugal nunca me deu nada. E cale-se, ja disse, esta-me a incomodar. [Provavelmente nao deu porque a senhora nao preenchia as especificacoes. Sem querer elogiar a FCT, que ultimamente tem funcionado muito por compadrio, tenho a acrescentar que desde que se tenha dinheiro e possivel fazer qualquer curso em Inglaterra. A universidade e um negocio antes de ser uma instituicao de ensino. Desenganem-se os inocentes…]
Eu – E o que e que a senhora fez por Portugal? Faz alguma coisa para mudar? Nao. Entao nao se queixe! So lhe digo que ainda bem que pessoas como voce nao regressam mais.

O que e que se retira desta conversa. Que os Portugueses desde que tenham o sistema montado dao-se bem. Falta-lhes a criatividade, e se quiserem tomates, para organizar as coisas. Se vao para paises onde toda a estrutura ja esta montada, mas onde ao mesmo tempo, o espaco para a criatividade e menor, sentem-se bem. Pouco arriscam e nada tem a perder. Ha sempre alguem para os guiar... Sentem-se na coroa da lua so porque estao fora do seu pais, uma nacao continental que parece sofrer de uma insularidade maior do que as ilhas britanicas. Sera real esta insularidade? Nao. Digo-vos que nao. Esta na cabeca dos Portugueses que se sentem inferiores e incapazes em terras lusas. Ao inves de arregassarem mangas anunciam a derrota depois de longas elaboracoes teoricas. Sem se mexerem, sem sequer tentarem, ja estao a dizer que e dificil, muito dificil. E tudo muito, muito, muito dificil, ninguem compreende o quao dificil e… Na verdade querem e chegar a um local onde tudo e ‘ready-made’. Onde as coisas ja estao de tal maneira que eles sabem exactamente o que fazer: sabem exactamente que rebanho seguir. Nada mais facil que ser uma ovelha. Esta ovelha deveria fazer psicanalise. As ovelhas Portuguesas precisam de um diva. Definitivamente. Urgentemente. E agora a imagem do Mamede, aquele corredor que desistia sempre antes da meta, veio-me a cabeca... Porque sera?!

A alegria do povo

O futebol é cada vez mais uma actividade pensada a regra e esquadro. Isto é e não é verdade ao mesmo tempo. O erro da contratação de Trapattoni foi ninguém ter percebido que o “seu futebol”, pensado a regra e esquadro, não encaixa no mundo do Benfica. Mesmo que o italiano vencesse, não servia o Benfica. O Benfica cresceu a ganhar e a jogar para a frente. É assim que os adeptos o entendem e é assim que apreciam as exibições da equipa. Um tipo de jogo cobarde - alguns dirão pensado, racional - como o que o Benfica praticou em Alvalade, é insuportável para o adepto do clube. Absolutamente insuportável. Os adeptos do Benfica não vão perder um minuto a protestar contra as sucessivas simulações de Liedson porque a sua ira está voltada contra a cobardia do seu clube, contra aquele número inconcebível de passes laterais, contra os jogadores que abdicam de qualquer ousadia porque têm que defender, de respeitar a táctica do mestre italiano. Jogadores diminuídos, profissionais diminuídos que deviam fazer queixa ao sindicato. Era preferível perder por 7-1 do que fazer um jogo cobarde. É por isso que Camacho deixou saudades. Porque o clube até podia defender mal, cometer erros estúpidos, jogar contra o Inter em San Siro como se estivesse a jogar contra o Alverca na Luz, com os laterais loucos a subirem como extremos, mas ao menos jogava de cabeça erguida, para a frente e marcava golos e rematava e quase sempre foi melhor do que adversário e ainda teve tempo de ganhar ao Mourinho. E Camacho berrava, esbracejava e defendia os seus jogadores. O Sporting mereceu ganhar em Alvalade e devia ter sido por mais.
Trapattoni para perceber o Benfica devia interpretar a relação do adepto com Mantorras. Mantorras é, como indica a expressão que adjectivava o brasileiro Garrincha, a alegria do povo. Bastaram dez minutos e os milhões de benfiquistas estavam dispostos a perdoar todos os disparates anteriores, bastou o angolano, com o seu jeito gingão, o drible rápido, a cabeça dirigida à baliza, a perna pronta a rematar. Mas vá lá o italiano perceber isto.

Futebol Zen

A quem repete constantemente que Mourinho é o melhor treinador do mundo falta a sensibilidade para perscrutar a verdadeira revolução. Arrisco afirmar que Giovanni Trapattoni é o maior génio de futebol de todos os tempos. Ao contrário de Mourinho, que se limita a afinar uma lógica já centenária, o italiano propõe que se olhe o futebol de uma perspectiva completamente diferente. Copérnico pôs a terra a girar à volta do Sol, Marx virou Hegel de cabeça para baixo e Trapattoni inventou um novo futebol. E fê-lo com uma simples frase: “perder não é um mau resultado”. Parece ridículo, mas é extraordinário. Retirando a importância da vitória ao jogo, Trapattoni impõe uma nova lógica ao desporto-rei. Como perder não é um mau resultado deixam de existir maus resultados. É um verdadeiro ovo de Colombo: os adeptos ficam sempre contentes, os jogadores felizes por não serem pressionados, os árbitros deixam de interessar. Fiquem os adversários com as emoções, as tristezas, os vedetismos, os egoísmos. No fundo, é uma espécie de futebol Zen, tudo flui, perder é fixe, somos todos amigos, destrói o teu orgulho, dá cá um bacalhau, passe senhor avançado, atacar para quê, está-se bem, a vida é bela. O Benfica sempre na vanguarda.

Como o vinho do Porto...

Os R.E.M. tocaram em Lisboa, no Pavilhão Atlântico, na noite de 7 de Janeiro. Uma noite fria num reencontro quente com os fãs. De todas as idades. Vi desde crianças de 9 ou 10 anos até homens e mulheres na casa dos quarenta ou cinquenta anos. Os pais levaram os filhos. É lógico. Porque os R.E.M. são daquelas bandas universais e transversais. Agradam a quase toda a gente. Até os que não gostam dizem sempre que há um ou dois temas do seu vasto catálogo que lhes agradam.
O concerto foi bom, muito bom mesmo. Muito melhor do que o de há cinco anos e meio atrás. Mike Mills, Peter Buck e Michael Stipe (um verdadeiro animal de palco) continuam em grande forma e a mostrar o porquê da sua longevidade no sucesso. São como o vinho do Porto. E continuam fortemente empenhados em lutar por um mundo melhor, apesar dos esforços da administração Bush em sentido contrário.
No que à música diz respeito, há dez anos atrás, eu consumia avidamente tudo o que estes simpáticos rapazes de Athens, no estado da Geórgia, produziam. Hoje, mercê da passagem inexorável do tempo, sou um ouvinte mais maduro mas sempre atento. Mas a qualidade continua lá e não engana. Não sou crítico de música nem nunca tive ambição a tal. Sei apenas aquilo que gosto. E eu gostei muito.

quinta-feira, janeiro 06, 2005

Teté - Uma Mulher em Acção?

A propósito da recente tragédia ocorrida na Ásia, interrogava-me aqui há uns dias acerca do paradeiro das Tetés, Titis e Tótos deste país. Via os Médicos sem Fronteiras, a Cruz Vermelha, a AMI, etc, a voluntariarem-se para se deslocarem de imediato para os funestos locais atingidos e aí prestarem o seu auxílio descomprometido às populações, mas quanto aos mais ilustres defensores da vida humana nesta pátria, um manto cerrado de nuvens cobria a visibilidade da sua acção.
Ainda coloquei como hipótese que os media, no meio da voragem das sucessivas notícias, teriam, inadvertidamente, esquecido de dar cobertura às acções desenvolvidas por tais distintas personalidades em prol daquilo que mais gostam de se apregoar como paladinos, i.e, a vida humana.
Todavia, a julgar por um artigo inserto no “Público” de hoje, as Tétes, as Titis e as Tótos, “Mulheres em Acção” deste Portugal (acção só de nome, pelos vistos...), afinal sempre devem ter ficado cá pela terrinha, a escrever textos para os jornais.
E que textos redigem tão esclarecidas personalidades? Textos sobre a catástrofe natural, a condição humana, as vidas humanas perdidas? Não. Dissertam nacos de prosa maviosa sobre os “valores” em perigo no mundo ocidental, a saber, a família heterossexual monogâmica, a superioridade das religiões monoteístas, designadamente o cristianismo, o divino património judaico-cristão, e claro, a vida humana.
Ela vergasta “o recrudescimento agressivo do laicismo anticristão”, a "recusa da referência ao património cultural judaico-cristão no Preâmbulo do Tratado Constitucional”, “o triste episódio de raiva sectária contra Rocco Buttiglione que não augura nada de bom”, divaga sobre o ódio do PCP e do Bloco às “sociedades democráticas liberais de tipo ocidental”, asseverando que estes dois partidos “não gostam da pessoa humana tal como ela é - acham que o homem e a mulher estão mal feitos”, crítica quem defende “a sacralidade da mãe-terra e os "direitos" dos animais (de todos, menos um).”
Em síntese, a “Mulher em Acção” Alexandra Teté consegue fazer corar de inveja qualquer digno representante inquisitorial do século XVII, pelo rico obscurantismo que povoa aquela mente, pela intolerância fulminante que a caracteriza.
Tão grande é o chorilho de dislates históricos que inundam a escrita daquela moça castrada, que se algum dia quiserem atribuir um nome aos algozes da Modernidade, chamem-lhes Tetés, por elementar justiça.

Quinta das Celebridades

O PSD pensou em colocar como número dois da sua lista do Porto o advogado Pôncio Monteiro. O país conheceu esta personagem num programa de televisão sobre futebol. Neste programa, o amigo Pôncio defendia as suas causas através de argumentos impensáveis, que por serem tão idiotas proporcionavam ao telespectador incrédulo um riso desbragado. Estas características especiais, e o facto do senhor ser adepto do FC Porto, clube com o qual o PSD não está de boas relações, são suficientes para o partido considerar Pôncio Monteiro um homem ideal para servir os cidadãos portugueses e o país. O PSD, depois de muitas congeminações, considerou também que a escritora Margarida Rebelo Pinto daria uma boa deputada. Porventura seria tão boa como o Saramago ou o Lobo Antunes ou aqueles deputados dos grandes partidos que nunca põem os pés na Assembleia. Sabemos, porém, qual a razão que levou Santana a pensar nela. A Margarida rejeitou. Mas Santana que não fique triste, porque a cultura popular portuguesa made in TVI criou dezenas de possíveis parlamentares. Talvez o burro Pavarotti possa ele mesmo liderar uma lista qualquer ou aparecer numa fotografia ao lado do Cavaco.

terça-feira, janeiro 04, 2005

Distanciamentos

Um facto que acho interessante analisar neste período de pré-campanha é o modo como os principais partidos políticos se distanciaram da sociedade que os acolhe. No sentido inverso, os partidos aproximaram-se do mundo que gravita junto ao poder e que é composto pelas funções que organizam o Estado e o governo. Esta tendência é visível, por exemplo, em Portugal e pode ter várias razões:
1- O modo de financiamento dos partidos – os partidos sobrevivem através de subvenções atribuídas pelo Estado e que resultam de variáveis como o número de votos e o número de mandatos; mais votos mais dinheiro e vice-versa;
2- Por causa da primeira situação, e em nome de uma suposta transparência, os partidos políticos aceitam a ingerência do Estado no seu modo de funcionamento interno;
3- Os partidos de poder – PSD, PS e agora também em parte PP e talvez Bloco – dão cada vez mais prioridade à sua função de conseguirem para os seus militantes e quadros dirigentes cargos públicos que confiram real poder nem que para isso tenham de subverter a lógica eleitoral e promover coligações pós-eleitorais. A conquista de cargos é cada vez mais um fim em si mesmo disfarçada de estabilidade política. Ao afastarem-se da sociedade [os partidos políticos], afastam-se consequentemente dos cidadãos. Este afastamento sente-se mais no declínio da filiação e na presença de pessoas nos comícios, mais interessadas em ouvir o músico-pimba do que o político (às vezes também ele pimba).