sexta-feira, janeiro 30, 2004

O Povo Escolhido IV

O nosso Presidente, não é o Vieira é o outro do cabelo cenoura, num momento de grande reflexão, considerou que os portugueses achavam que todos os políticos eram uns bandalhos. A TVI, como a ciência avança pela confirmação empírica das teorias, foi para os cafés do país perceber se era ou não verdade a afirmação do Presidente.

- Então diga-me lá minha senhora, o Presidente Sampaio disse que achava que os portugueses achavam que os políticos são todos uns bandalhos. Acha que é verdade?

- São sim senhor, essa é que é essa, tem toda a razão, ó se são, bandalhos, filhos-da-puta, vigaristas, pilha-galinhas, pedófilos.

- Então e o senhor?

- Eu acho que o Porto vai ganhar 2-1. Deco na primeira parte e o Maciel na segunda.

O Povo Escolhido III

Este post é sobre o Dias da Cunha, the one, the only.

O Povo Escolhido II

Durão Barroso afirmou hoje no parlamento, que Portugal só apoiou a invasão do Iraque porque os serviços secretos britânicos, a inteligence, explicou Durão aos deputados, lhe juraram pela alma da sua mãezinha que Saddam tinha um terrível arsenal de armas de destruição maciça. Ele, rapaz crédulo, chegado há pouco tempo da província para governar o rectângulo, com a boina, a malinha de cartão, e o termo com o caldo verde, acreditou. O mundo, realmente, está cheio de pessoas más, investidas de toda a perversidade para enganar honestos primeiros ministros que não querem outra coisa senão o bem das pessoas, especialmente se não forem funcionários públicos. A culpa foi da inteligência.

O Povo Escolhido

Apesar de as eleições primárias que visam eleger o candidato democrata às presidenciais americanas se encontrarem ainda no início já se sabe que o vencedor será John Kerry. Sabe-se também que, depois de eleito pelo seu partido, Kerry irá destronar o W. Bush, bombardear um país qualquer e surfar até Marte. A anunciada vitória não se deve ao currículo do candidato, ao seu programa eleitoral, aos milhões gastos na campanha, nem a uma previsão da taróloga (e o ateu do computador a insistir que a palavra taróloga não existe. Que besta) Maya, mas à feliz circunstância de o candidato democrata ter sido abençoado com uma esposa representante do povo escolhido. É verdade. John Kerry já é conhecido no mundo por aquele simpático senhor grisalho que agora não me lembra o nome mas que é casado com a Teresinha. Depois de termos ganho um Oscar com uma obra desse torrejano chamado Sam Mendes, provámos mais uma vez que somos um povo escolhido.

Vasco Pulido Valente

O regresso que muitos aguardavam no DN de hoje.

quinta-feira, janeiro 29, 2004

Repercussões de um artigo anterior II

Olha, no meio desta confusao toda so tenho um comentario: os jornais em Portugal estao completamente desfazados da realidade. Desdobrando o comentario, leia-se:

a) onde ja se viu numa cronica de opinao de um jornal generalista de tiragem nacional haver um tipo que cita teses de outros tipos que ja se finaram faz tempo…

b) estou a ver xore Antonio, a citar Durk-qualquer coisa na tasca ao lado de casa…

c) …e a mulher do xore Antonio a pensar que o Durk-qualquer coisa e o novo suspeito em cena. Um dia destes ha-de haver uma qualquer senhora que se adianta e vai para a porta da presidiaria com um cartaz a dizer: ‘Soltem o Durk-qualquer coisa!’…

d) esta cena dos blogs andarem por ai a escorrer na tinta dos jornais e outro hilariante facto… Toda a gente tem net e sabe o que e um blog… Esta tudo super-deeentro dessas discussoes...

e) a Rita Ferro Rodrigues escreve mal que se farta!

O jornal O PUBLICO e cada vez mais um site-post de intelectuais a quem ninguem liga pevas em casa e que entao resolvem fazer a sua terapia escrevendo uma vez por outra ou regularmente no dito pasquim. A malta vai comprando porque: tem um certo estilo – andar de jornal debaixo do braco; tem informacao sobre os cinemas e farmacias; faz jeito para forrar armarios e para quando ha obras em casa; as vezes oferece uns brindes…

De facto, no processo Casa Pia tudo o que esta a ser discutido interessa muiiiiiiito a opiniao publica. Passou-se do dramalhao novelesco (do testemunho em directo das criancinhas) para o mais alto nivel da discussao intelectual: teorias da conspiracao enformadas por teses usadas ‘deformadamente’… Proximas cronicas: ‘Como Tomas de Aquino veria o processo Casa Pia’, ou ainda; ‘Concepcao Weberiana do Processo’; o ‘Processo casa Pia a luz das teorias economicas institutionalistas’; ‘Quem sao os lobos e quem sao as raposas na Casa Pia: um olhar pareteano’; e por ai vai…

PS: Marcal, queres-nos dizer algo?

E vai mais um

Soube agora. Desta vez foi uma senhora na Calheta. Até hoje, só no mês de Janeiro, já são 10 suicídios. A média anual, continuo a lembrar, são de 7. Estranho, muito estranho.

Repercussões de um artigo anterior

Parece que a última crónica de Eduardo Cintra Torres no Público pegou lume e deixou muita gente indisposta.

quarta-feira, janeiro 28, 2004

Marte

O homem. bicho da Terra tão pequeno
chateia-se na Terra
lugar de muita miséria e pouca diversão,
faz um foguete, uma cápsula, um módulo
toca para a Lua
desce cauteloso na Lua
pisa na Lua
planta bandeirola na Lua
experimenta a Lua
civiliza a Lua
humaniza a Lua

Lua humanidade: tão igual à Terra.
O homem chateia-se na Lua.
Vamos para Marte - ordena a suas maquinas.
Elas obedecem, o homem desce em Marte
pisa em Marte
experimenta
coloniza
civiliza
humaniza Marte com engenho e arte.

Marte humanizado, que lugar quadrado.
Vamos a outra parte?
Claro — diz o engenho
sofisticado e dócil.
Vamos a Vênus.
O homem põe o pé em Vênus,
vê o visto — é isto?
idem
idem
idem.

O homem funde a cuca se não for a Júpiter
proclamar justiça junto com injustiça
repetir a fossa
repetir o inquieto
repetitório.

Outros planetas restam para outras colônias.
O espaço todo vira Terra-a-terra.
O homem chega ao Sol ou dá uma volta
só pra te ver?
Não vê que ele inventa
roupa insiderável de viver no Sol.
Põe o pé e:
mas que chato que é o Sol, falso touro
espanhol domado.

Restam outros sistema fora
do solar a col-
onizar.
Ao acabarem todos
só resta ao homem
(estará equipado?)
a dificílima dangerosíssima viagem
de si a si mesmo:
pôr o pé no chão
do seu coração
experimentar
colonizar
civilizar
humanizar
o homem
descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
a perene, insuspeitada alegria
de conviver.

Carlos Drummond de Andrade


Governo de tiro nos pés

Mensagem de última hora do Governo aos portugueses: “Façam o que eu digo. Não o que eu faço.”

Circo

E hoje há circo no Parlamento Europeu. Pelo menos, na sala da conferência/debate sobre “O tráfico de crianças, tendo em vista a exploração sexual, numa Europa Alargada” será possível ouvir uma senhora vinda do país do Avô que corre pelos montes atrás da neta Heidi, de nome Cláudia Neves, Presidente da Associação “Inocência em Perigo discorrer sobre as supostas redes de pedofilia existentes na Madeira.
Parece que a ditosa senhora tem provas inequívocas da existência deste fenómeno e dessas coisas obscuras que fazem desaparecer crianças por obra do Espírito Santo e sem deixar rasto lá para os lados de Câmara de Lobos. Parece que sabe qualquer coisa desse assunto tão secreto que quase mete FBI e Ficheiros Secretos ao barulho.
Mas sendo assim, há que perguntar porque não as apresenta à Polícia ou a quem de direito para as investigar? Onde estão essas tão importantes e redutoras provas? Se ela sabe que há sofrimento infantil (comércio, tráfico, prostituição) porque é que não o denuncia junto das autoridades competentes? É preciso tanto show-off? Ou será antes problema de vaidade? Ou de procura de protagonismo pessoal? Não se percebe onde anda o altruísmo da senhora.
Eu não acredito em coincidências e deixa-me muito intrigado o timing destas denúncias, ainda para mais quando não consigo perceber as motivações inerentes a tudo isto.
De quem se quer desviar atenções, por exemplo, poderia ser uma pergunta interessante a colocar. Mas calculo que a tal da D. Cláudia não tenha provas suficientes para me responder. E eu já não tenho pachorra para me chatear.

terça-feira, janeiro 27, 2004

Suicídio

Em média (nos últimos 10 anos) morrem por suicídio 7 individuos, por ano, na Madeira. Neste corrente mês de Janeiro de 2004 (até hoje), suicídaram-se 9 individuos (isto, segundo um artigo saído no Público no dia 23 de Janeiro). O que dizia Durkheim? Acho que falava de suicídio anómico...

segunda-feira, janeiro 26, 2004

Olho Vivo

Uma crónica muito interessante de Eduardo Cintra Torres a ler na edição de hoje do Público.

Comentário infeliz

Percebe-se que a situação não fosse a melhor e o estado de espírito o mais clarividente pelas razões trágicas em que ocorreram. Mas é preciso lamentar o comentário infeliz do Sr. Rui Santos que, extemporaneamente na SIC Notícias, veio logo falar em remorsos de alguns que fizeram supostamente a vida negra a Féher, numa clara alusão ao FC Porto e a Pinto da Costa e ao ainda (até quando?) caso que se arrasta (a partir de agora desnecessariamente, quanto a mim) no tribunal e que opõe o actual e o antigo clube do infortunado jogador.
Só a emoção pode justificar um comentário tão infeliz. E tão precipitado. As palavras em momentos destes, carregados de enorme consternação e de grande comoção, devem ser muito bem ponderadas e cuidadas; e a clubite e os ódios de estimação, naturalmente, deixados de lado.
O mais importante ali era a vida que se perdia; não o Sr. Pinto da Costa ou outros adereços.

Féher



Um futebolista na flor da idade e da carreira morreu devido a uma complicação cardíaca surgida num relvado de um dos novos estádios. O drama, vivido em directo, foi das coisas mais impressionantes que vi enquanto, naqueles longos momentos, Féher não dava nenhum sinal de vida. O desespero era claro naqueles que de perto assistiam à situação. O horror, a incredulidade, o choro, tudo fez parte de um instante que, desejamos todos, nunca mais se volte a repetir em lado nenhum e em tempo algum.
Não sei se era possível fazer mais, em termos médicos, por Féher; não sei se a ambulância podia e devia ter sido mais rápida; não sei se existiam todos os aparelhos necessários para evitar as consequências de situações deste género. Não sei porque não sou perito nem estava lá para avaliar. Mas sei que morreu um futebolista de 24 anos de um ataque fulminante que pelos vistos não é detectado por exames regulares e completos. E isso dá-nos que pensar.

quinta-feira, janeiro 22, 2004

ilhas

De facto, consigo tracar paralelos entre a Madeira e o Reino Unido... Deve ser da insularidade pois entao! Perdoem-me por nao ser insular mas ou era no continente ou no oceano, vai dai, olhem...

Simpsons

Podendo considerar-se que a nova "Dois" constitui um passo evolutivo no sentido convergente com as obrigações de um canal televisivo de serviço público, ainda assim a reestruturação que foi feita deixou pelo caminho, incompreensivelmente, um dos ex-libris televisivos mais importantes da última década: Os Simpsons!!!
Estranho e algo bizarro, como um dos programas que constavam há mais tempo na programação do segundo canal da RTP, ainda que durante bastante tempo através da exibição de episódios repetidos (curiosamente, 2 semanas antes da aparição da "Dois" foram estreados novos episódios ...), e que tinha uma presença constante no topo de audiências do canal, foi varrido da pantalha da "Dois"...
Se havia algo de intemporal na programação anterior e que devia atravessar as ondas da reestruturação daquele canal, seriam sempre os Simpsons!

quarta-feira, janeiro 21, 2004

Madeira Região Europeia 2004



A Madeira é Região Europeia 2004 e como tal, ao longo deste ano, pretende promover pelo menos um grande acontecimento cultural por mês. Depois de Josep Carreras em Janeiro, seguir-se-á, com esta orientação, Dulce Pontes em Fevereiro, Diana Krall em Março e Joaquín Córtes em Abril. Falta ainda programar oito iniciativas correspondentes aos oito meses que restam, mas pelo cartaz acima descrito, nada nos custa arriscar, que a Madeira terá qualidade garantida ao longo de um ano inteiro e razão para se sentir orgulhosa pelo sucesso da iniciativa.
Nos sítios mais pequenos, marcados pela interioridade ou pela insularidade (como é o caso da Madeira), estes acontecimentos são marcantes e verdadeiramente revolucionários no modo como se encara a cultura e na influência que podem gerar, nomeadamente, junto das elites.
A Madeira dá, assim, exemplos de que há pequenas grandes coisas que se podem ir promovendo que dão os seus frutos, atingem os seus objectivos e transmitem a sensação de dever cumprido sem grandes megalomanias, como é exemplo, não me canso de referir, o Euro2004. Mas como sempre, e novamente, é tudo uma questão de prioridades e de opções: de prioridades de desenvolvimento e de opções políticas, como é óbvio. Tudo o resto passa ao lado.

terça-feira, janeiro 20, 2004

"Amiguinhos do Saber"

Definição do conceito de Lei, ontem proferida por um advogado "amiguinho do saber" da Lusíada: "Uma Lei é o resultado daquilo que a sociedade considera como normal!"
Pelos vistos já não é o poder legislativo que concebe as leis, é a "sociedade"...
Acontece que o poder legislativo emana da sociedade, mas não representa nem vincula obrigatoriamente a sociedade como um todo como se depreende daquela definição.
Por isso é que as leis são mutáveis ao longo dos tempos, conforme a vontade do legislador, o qual, inclusivamente, pode ou não ser legítimo em termos democráticos.
Pela lógica da definição enunciada, por exemplo, a proibição do divórcio durante o regime do Estado Novo, devia-se não à vontade do legislador, mas à defesa desse preceito pela "sociedade", uma vez que o divórcio não seria normal!...
Não hajam dúvidas de que a fama que precede os "amiguinhos do saber" é completamente desprovida de razão de ser...


segunda-feira, janeiro 19, 2004

Um desviozito de 22300%

De acordo com as estatísticas do INE, o número de vítimas mortais, em Portugal, devidas à vaga de calor do passado Verão cifrou-se em 2007.
Este valor representa um acréscimo de 1998 vítimas em relação ao número afiançado pelo "antigo" gestor do Banco Mello, actualmente Ministro da Saúde, ou seja, entre os números do INE e os números do Ministro, houve um pequeno desvio de apenas 22300%!...
Eis mais uma prova cabal da excelência dos gestores portugueses, já por diversas vezes reconhecida e elogiada pelos seus congéneres europeus...
Além disso, é sempre reconfortante sabermos que temos ministros assim tão credíveis e rigorosos na informação que prestam aos cidadãos!

sexta-feira, janeiro 16, 2004

Queremos a JSD de volta

Ao que isto chegou. A agenda política da JSD parece uma cópia mal amanhada do programa mediático do BE. Há quem jure que já não é a primeira reunião da direcção da Juventude Social Democrata que acaba ao som da Guantanamera entre uma cuba livre e um passa num charro. O que é que vamos ter a seguir, camisolas de gola alta, t-shirts do Zé Mário Branco, poesia de vanguarda. Deus nos livre. Queremos os laranjinhas de volta.

Novo Dicionário

O Governo português alertou ontem a Academia de Ciências de Lisboa para alguns erros que vêm inscritos na definição de alguns vocábulos do dicionário elaborado pela Academia. Nomeadamente, em relação aos vocábulos coerência, paridade, e congruência, o Governo avança com a seguinte definição para estes vocábulos:

Eis os novos significados:
Coerência, paridade e congruência:

s.f., Acto pelo qual "O Governo propõe o congelamento dos salários da Função Pública superiores a mil euros, enquanto para os restantes é proposto uma actualização de dois por cento.
No texto enviado aos sindicatos, o Governo justifica a contenção proposta com a tese de que as actualizações salariais devem ser ditadas pela política orçamental em vigor
".

ou :
Acto pelo qual "O Governo decidiu aumentar para mais do dobro o valor-limite para compra de viaturas para gestores hospitalares, passando de 20 mil euros para 45 mil.
Segundo noticia hoje o «Correio da Manhã», o Executivo tinha já decidido aumentar os salários dos responsáveis pelos hospitais SA, lembra o jornal, segundo o qual as vantagens abrangem ainda os «plafonds» dos cartões de crédito, que serão igualmente aumentados
".

quinta-feira, janeiro 15, 2004

A minha 'Desgraca' e a do Bruno...

Finalmente tive tempo para ler a ‘Desgraça’ de Coetzee. Hoje regressei aos comentários do Bruno sobre o mesmo livro e confirmei que a matemática nestas coisas da ‘cultura’ simplesmente não funciona. A arte sente-se, não se analisa como se submetida a um rigoroso processo de experimentação laboratorial. Só assim se compreende que as interpretações sobre uma mesma obra difiram quase tanto quanto o numero daqueles que se dispõem a senti-la. E o modo como eu senti o livro não me leva a pensar que o mesmo seja primordialmente acerca de África de Sul. O país é secundário à mensagem, constitui apenas o cenário com o qual Coetzee certamente se encontra mais familiarizado mas não o determinante da crueldade ao qual o livro violentamente nos expõe. Sem cores, branco ou preto, Coetzee atira-nos propositadamente para uma narrativa, quase introspectiva, sobre a natureza humana. Todos os personagens são, acima de tudo, humanos. E o desespero do leitor reside precisamente aqui. Coetzee puxa-nos o tapete, deixa-nos sem rede: não nos empresta uma alma intrinsecamente boa ou humana, não nos concede um herói, branco ou preto, no qual possamos depositar todas as nossas esperanças de um final feliz. O autor constrói assim a essência do ‘humano’ como a antítese do humano enquanto conceito e tal como este é universalmente entendido enquanto adjectivo qualificativo. David personifica esse ser ‘humano’, egocêntrico, auto-centrado, convencido da sua superioridade enquanto ser. Uma superioridade adquirida através da aprendizagem da manipulação ‘correcta’ de determinados códigos sociais e culturais. Tudo (e todos) o que sai fora deste seu mundo choca-o. A própria beleza, outra que não aquela conforme aos seus padrões, causa-lhe asco. No entanto a forma cruel como descreve esteticamente Bev não o impede de dormir com ela simplesmente para satisfazer as suas necessidades físicas ainda que a vergonha do acto o persiga até final. Uma vergonha que David não sente em relação ao seu episódio com Mel, um episódio onde David foi por sua vez o violador numa violação, esta sim, ‘branca’ ou quase transparente, silenciosa a que Coetzee alude ironicamente em jeito de provocação ao próprio leitor [“Não é uma violação, nada disso; contudo é indesejável, indesejável até ao âmago. Por isso, decide manter-se inerte, morrer dentro dela mesma durante o acto”]. Será que esta violação passará despercebida? Durante todo o processo jurídico, ao qual David foi submetido na sequência daquilo que ele pensa ter sido apenas a materialização de um desejo sexual legítimo e privado (e que por isso se recusa a falar sobre), David é múltiplas vezes confrontado com a questão chave: saberá ele em que consiste o fundamento da acusação de Mel? David não sabe. Nem quer saber. Para ele Mel foi pressionada a inventar uma qualquer história pelo seu namorado ou pela sua prima feia e encalhada. Para ele o encontro sexual entre ambos simbolizara apenas libertação do mais puro dos desejos, sobretudo do seu desejo. Para ele a passividade de Mel derivara da sua inexperiência. Só.
Lucy, a filha, que é brutalmente violada por três assaltantes, será talvez a personagem que ao longo da narrativa nos deixa mais incrédulos. Talvez porque Lucy não demonstra capacidade para odiar, assim como David não demonstra para amar. Mas a incapacidade de David parece não irritar tanto quanto a de Lucy, que não se comporta como a vítima ou prisioneira. Dela não conseguimos fazer heroina! Mas na verdade Lucy é a única personagem que conscientemente procura libertar-se da sua condição humana à lá Coetzee: renunciando à facilidade do ódio (que depressa a faria mergulhar numa infinita espiral).
Coetzee entrecorta toda a história com requintadas descrições sobre a relação de David com os cães claramente demonstrando que David, incapaz de amar verdadeiramente alguém para além de si mesmo, vai desenvolvendo uma relação quase de amor pelos seres caninos, aos quais devota o maior cuidado sobretudo depois de mortos... David somos todos nós. Coetzee concentra neste personagem toda a essência do ser ‘humano’, distribuindo pelos outros, à excepção de Lucy, dimensões dessa mesma essência. Ao vermos a nossa imagem reflectida o livro oferece-nos como cruel e quanto a Lucy, por vezes condenamo-la e criticamo-la pelo seu não ódio e tarde nos apercebemos que a crueldade que existe emana de todos os outros menos dela própria. Lucy é deveras a ficção em “Desgraça”. Todos os outros personagens, qualquer semelhança com qualquer animal da espécie humana será pura coincidência...

PS: do mesmo autor uma obra ainda mais brilhante, Waiting for the Brabarians.

Angola

O governo Angola desmentiu, esta quarta-feira, as acusações lançadas pela «Human Rights Watch», considerando «não terem qualquer base de sustentação», para além de serem fruto da «fantasia e imaginação».

Os governantes angolanos puseram ainda à disposição da HRW os extractos bancários das suas contas na Suiça, mostraram a "pobre" factura do casamento da Tchizé, filha do Presidente, e ainda as estatísticas referentes ao índice de desenvolvimento humano angolano, onde é possível ver o progresso do país nos últimos anos, para desmentirem as "fantasias" da HRW...

quarta-feira, janeiro 14, 2004

Super Coelho

O ex-ministro Jorge Coelho afirmou que o PS não deve fazer nenhuma coligação com o PCP pois terá sido por acção deste último partido que Edite Estrela foi condenada em tribunal. Como foi provado em tribunal que a autarca, realmente, infringiu a lei, não percebo muito bem a concepção de justiça do Dr. Coelho. Talvez na Coreia no Norte.

de novo o Brasil

Brasil e um pais de contrastes. Com todos os pontos negativos, que passam por um dos mais elevados niveis de desigualdade social no mundo e por uma elite economica por vezes completamente alienada da realidade social sul Americana, o Brasil tem demonstrado que depois de uma negra historia de colonialismo jamais se voltara a por de joelhos! Nao so tera sido um dos primeiros (como se calhar um dos unicos) paises a usufruir do direito de reciprocidade para submeter os cidadaos norte-americanos, em solo Brasileiro, ao mesmo tratamento criterioso a que serao submetidos tantos outros cidadaos de varios outros paises nos aeroportos norte-americanos; como tem liderado a oposicao sul-americana a tentativa de dominacao por parte dos Estados Unidos, sob a bandeira do comercio livre. O acordo referente Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) sofreu assim um grave reves. Na politica externa como no futebol: forca Brasil! Continua a marcar golos!

terça-feira, janeiro 13, 2004

Campanhas de difamação

Cuidado com as recentes campanhas lançadas contra o mais antigo destino turístico do país. Para além de não se perceber muito bem onde se desenterrou a notícia e quem é a tal da Cláudia Neves mais a Associação a que preside, bizarro é a própria polícia e o DIAP desconhecerem a existência da tal rede de pedofilia e dos supostos pedófilos que fazem filmes e exportam crianças para o mercado sexual europeu. Mas como o Público nem tem um ódio de estimação à Madeira evidente e latente (expresso em todas as notícias que publica sobre a Madeira onde nada de positivo se faz e ocorre), nada como fazer dois dias de intensa reportagem onde se limita a ouvir crianças de rua (quantas? Como as aliciaram para falar? Qual a credibilidade do seu testemunho? Fizeram-no na presença de um psicólogo? De alguém responsável pelo menor? Etc), ex-abusados, polícias, o ex-Padre Edgar para além de umas pessoas que passavam nas redondezas. Tudo isto rematado com um editorial do sempre sério Zé Manel Fernandes, um homem que sabe de tudo, género Saraiva do Expresso ou Prado Coelho do Público.
Não quero falar sequer sobre as motivações que levaram, em ano de eleições regionais, a desenterrar um tema usado amiúde por indivíduos estranhos ao serviço, mas é sintomático que ninguém do Público se tenha lembrado de perguntar o que tem feito a Segurança Social e a Câmara Municipal em prol das populações mais desfavorecidas de Câmara de Lobos (que ninguém nega existirem). Perante isto das duas uma: ou não passam de pormenores irrelevantes, logo negligenciáveis, ou agiram de nítida má-fé. Resta-nos riscar o que não interessa. Ou será o contrário?

Cuba no seu melhor

Eu já estou como o outro: é muito bom viver numa democracia mas lendo com atenção a notícia bom mesmo, é viver numa democracia, sem Internet.
Não há dúvida de que o regime começa a dar sinais de abertura. De espírito, claro está e de banda larga também.

Há dois anos a fazer que faz

Confesso que o meu "espanto" não nasceu com este slogan.
Já anteriormente o "departamento de Marketing" do Bloco de Esquerda me tinha deixado aturdido com algumas das frases chamariz que eram afixadas nos seus cartazes eleitorais. Frases rebuscadas, complexas e de difícil compreensão para quem quer que seja, em suma, slogans desprovidos de um mínimo de inteligibilidade, têm povoado historicamente os cartazes do Bloco.
Por isso mesmo é que este "Há dois anos a fazer que faz", afixado nos espaços públicos lisboetas não me surpreende, uma vez que vem na linha das mensagens dúbias anteriores...
Pretensamente dirigido ao Presidente da C. M de Lisboa, a opção pelo trocadilho do "fazer que faz" mais não faz do criar uma cortina espessa na identificação do suposto destinatário da mensagem e de confundir o sentido específico da advertência que o Bloco pretende transmitir, preferindo antes o uso desnecessário do trocadilho pretensioso.
O que é realmente espantoso é que parece que ainda ninguém no Bloco se tenha apercebido disto, para mais quando o dinheiro que possuem para iniciativas publicitárias não deve ser tão abundante quanto isso...
Eu sei que a base social de apoio eleitoral do Bloco gosta de primar por uma certa "distinção" nos seus gostos culturais, mas a verdade é que também há limites para a vontade de sublinhar a diferença...

quinta-feira, janeiro 08, 2004

Os Segurados e os Coitadinhos

A notícia que faz hoje manchete no Público, referente à pretensão do Centro Hospitalar do Alto Minho (CHAM), que compreende os hospitais de Viana do Castelo e Ponte de Lima, arrancar com um serviço de consulta e tratamento "célere e personalizado" para sinistrados em acidentes de viação e de trabalho que sejam beneficiários de seguradoras ou de outros sub-sistemas de saúde que não o do Serviço Nacional de Saúde (SNS), revela à saciedade o caminho que se está a visar implementar no sector público da Saúde.
É o caminho da progressiva privatização dos hospitais públicos (erguidos e pagos com o impostos dos contribuintes), desembocando na criação de procedimentos discriminatórios de tratamento dos utentes a partir dos dotes financeiros que possuem, é o caminho, em suma, da “feudalização” da prestação pública dos cuidados de saúde.
Os segurados usufruírão de “um atendimento mais atempado, célere, e personalizado”, não serão “atirados para lista de espera”, porque "há que responder às exigências de quem nos paga", refere o Adiministrador do Hospital!
Depreende-se que aos não-segurados, os utentes do SNS, que pagaram com o dinheiro dos seus impostos a construção dos hospitais e que mensalmente aplacam os salários do pessoal médico e dos pobres administradores, estará reservado o tratamento oposto, ou seja, um atendimento menos atempado, lento e despersonalizado, sendo atirados para listas de espera, porque não pagam ou não pagam aquilo que eles querem!
Tudo isto, imagine-se, não em instalações financiadas pelas seguradoras, mas, descaramento dos descaramentos, no interior dos próprios hospitais da rede do Serviço Nacional de Saúde!!!
O Ministro da Saúde, quadro emprestado por um dos principais interessados na empresarialização dos hospitais, o Grupo Mello, diz de forma "surpreendente" que “é um caminho a seguir”!..
Por aqui se vê que a máscara da empresarialização da gestão hospitalar mais não era, realmente, do que um manto esfarrapado para esconder a vontade particularística de apropriação do serviço nacional de saúde e da sua extinção progressiva, feita com a conivência e o beneplácito deste Governo!


quarta-feira, janeiro 07, 2004

Funchal, primeira década do século XX



Notícias auspiciosas

Habituados a viver mergulhados na depressão e nas más notícias - mas saturados do caso Casa pia - e acostumados a pintar tudo com as cores mais negras, talvez valha a pena chamar a atenção para algumas boas notícias - ou, pelo menos, notícias auspiciosas.” Assim começa o editorial de José Manuel Fernandes na edição de hoje do Público.
Eu não sei se o mesmo editorial tinha algum intuito cómico, mas acreditem que nenhuma das “notícias auspiciosas” a que o José Manuel Fernandes faz referência tem directa ou indirectamente a ver com a felicidade, com o futuro dos portugueses ou com a tão propalada recuperação económica. Isto deve estar mesmo mau. Para fazer da Líbia e do Afeganistão “notícia auspiciosa” isto deve andar mesmo muito mau cá pela pátria... Nada como um Zé Manel para animar a malta.

A Democracia vista pelos olhos da Maioria

A "Democracia" vista pelos olhos da coligação governamental.

A falta de sentido democrático da Oposição:
O PSD e CDS/PP acusam o PS de querer ser o «dono da Constituição», por recusar discutir o projecto de revisão constitucional alargada.
O deputado social-democrata Marques Guedes acusou os socialistas de terem uma posição «anti-democrática» e «de arrogância». «O PS acha que é o dono da Constituição e que só altera aquilo que quer», lamentou o deputado, que falava esta terça-feira na primeira reunião de trabalho da Comissão Eventual para a Revisão Constitucional


O elevado sentido democrático da Maioria:
PSD e PP rejeitaram o pedido do PCP para que Paulo Portas informasse a Comissão de Defesa sobre as principais linhas do Conceito.
O ministro da Defesa apresentou o Conceito Estratégico Militar (CEM) apenas ao PS, alegando que a lei tem carácter reservado e que não fazia sentido partilhar a informação com partidos que estão em
oposição à política traçada para a Defesa nacional.





terça-feira, janeiro 06, 2004

SOS

Não sei o que fazer. Há dois dias que um valoroso operário que trabalha numa obra no prédio ao lado do meu, alterna vigorosas marteladas na parede, a partir das 8 da manhã, com gritos lancinantes de prazer: spooooooorting. Estou deseperado.

Casa Pia ou mergulhar na lama

Uma coisa é certa: o actual clima de suspeição só protege os verdadeiros culpados e enterra cada vez mais inocentes. A credibilidade de todo o processo está por um fio e chegou-se ao cúmulo de disparar nomes à toa, baseados em cartas anónimas rapidamente desmentidas ou desvalorizadas. Realmente, nada como baralhar e dar de novo para ver se as coisas ainda vão ao lugar.
Os pirómanos de serviço, ao serviço não sabemos é de quem, devem estar felizes por atingirem os seus objectivos: deixar tudo na mesma, tudo igual, porque nada pode mudar submergido em tanto asco. Daqui por alguns meses, quando muita gente sair em liberdade, relembraremos a enorme lição de todo este processo. A culpa afinal é do sistema, é dos políticos, é da sociedade, é do capitalismo, é do dinheiro que tudo pode. A culpa não é certamente das corporações, dos interesses, do populismo e do descrédito em que o país se transformou. Nada disso. A culpa é sempre dos outros e vai morrer evidentemente solteira, como boa portuguesa que vai ser.
A comunicação social fez de tudo isto um circo mediático e os advogados dos arguidos, pagos a peso de ouro para se auto-promoverem nos telejornais e demais programas televisivos, aproveitaram a deixa para mostrar como a justiça joga baixo e como tudo vale para salvar a pele do seu cliente ou de quem verdadeiramente lhes paga o serviço. Primeiras páginas de ouro e aberturas de telejornais quanto valem?
Neste momento, só consigo sentir vergonha. Vergonha de não haver um político que seja - afinal a classe política é a única sujeita a sufrágio e a julgamento popular - com tomates para colocar fim nisto de uma vez por todas. Enquanto for assim, juízes, advogados e jornalistas andarão de mãos dadas a fazerem o que muito bem lhes apetece num total descontrolo julgado na comunicação social e segundo um jogo que é dúbio e que tem princípios que não são claros nem iguais para todos.
Ainda ninguém percebeu que é preciso mudar as regras do jogo? Colocar imediatamente na cadeia quem as violar? Como é possível que se continue a publicar nos jornais em primeira página notícias sem fundamento e que se encontram à venda? E a abrir telejornais com notícias não confirmadas e com entrevistas induzidas? E por que razão se dá tempo de antena ao Sr. Namora, ao Sr. Granja e aos advogados dos arguidos que só lançam ainda mais confusão?
Chegou-se a um ponto que não se informa, confunde-se; não se esclarece, atira-se com areia. E faz-se tudo isto com a cumplicidade de todos nós e para gáudio da sublime pátria que se derrete com os escândalos de paróquia que metam meninos e gente conhecida. Os verdadeiros criminosos certamente agradecem.
No fundo, já não há inocentes, é bem certo. Somos todos culpados. Culpados pelo ponto a que isto chegou. Culpados pela abjecta decadência em que mergulhamos e da qual tão cedo não sairemos.
Afinal, continuamos iguais porque nós gostamos de viver assim. Na lama.

sexta-feira, janeiro 02, 2004

O Pato?! Não conheço nem nunca me foi apresentado

4º Episódio de 5

Segundo o nosso segurança existiram até hoje 3 grandes fases na forma assumida pelas leis do fora de jogo, as quais não convivem entre si, uma vez que não se afiguram consecutivas.
Elas são, respectivamente, a fase do Liner, a fase do Bandeirinha e a fase do Assistente.
No entanto, a opinião deste expert não colhe unanimidade noutros ex-libris do Pato. Um claro exemplo de discordância chega-nos de um outro ex-libris do Pato, conhecido como o Taveira da Luz.
Em primeiro lugar, cumpre desde já esclarecer, para evitar mal-entendidos, que a alcunha Taveira da Luz deriva do facto do indivíduo a que ela remete, combinar, com bastante frequência, uma indumentária provinda da inspiração dos trabalhos arquitectónicos daquela famosa personalidade dos work-made vídeos, nomeadamente ao nível das cores.
Feito o parêntesis, como dizíamos, o Taveira da Luz assevera, quer quando está sóbrio quer quando está ébrio, que mais do que a periodização histórica das leis do fora-de-jogo, aquilo que está causa desde o 25 de Abril é a perversão da boa índole das leis do fora-de-jogo em prol da sua instrumentalização por uma “modesta” agremiação nortenha.
Face a estas duas posições teóricas podemos claramente antever aqui uma certa cizânia na conceptualização das leis do fora-de-jogo. No intuito de superar estas duas visões, um outro ex-libris do Pato, associa a delimitação temporal do primeiro teórico, com a perversão defendida pelo segundo.
Para este ex-libris, a assunção da periodização histórica das leis do fora-de-jogo deve ser feita em complementaridade com a perversão do seu carácter, não a partir do 25 de Abril, mas sim dos tempos do Estado Novo. Na sua opinião a imoralidade na aplicação do fora-de-jogo enraíza-se na concessão de benefícios prolongados ao longo de várias décadas aos principais clubes da outrora capital do império que ia do Minho a Timor.

Continua dentro em breve...

A Bola de Cristal do Esbirro

Luís Delgado prevê um ano de 2004 "muito bom para Portugal!".

Era o que eu temia!
Se o director da Lusa antevê um futuro maravilhoso para 2004, então é certinho que vamos ter um ano de 2004 deveras medonho!...