quarta-feira, junho 30, 2004

ATENCAO

O post 'Interrogacao Pertinente' foi publicado no Gato Fedorento pelo RAP. Isto so para evitar acusacoes de plagio e por ai vai. Fica aqui a adenda.

Comentarios ao Blog

PEDI A UMA AMIGA QUE DESSE UMA ESPREITADELA AO BLOG. EIS A SUA OPINIAO NUM E-MAIL PARA MIM ENVIADO:

Date: Tue, 29 Jun 2004 16:51:52 +0000
Tenho muita pena, devo-me ter enganado no blog mas não vi nada de
interessante, apenas chorrilhos de textos de um tal Bruno a discorrer a
cartilha dos iluminados do PSD (leia-se cavaquistas), com a boca cheia
do "estado em que o PS nos deixou" - como se a Estratégia de Lisboa,
quando bem aplicada, não pudesse significar algum revés para o pais como um todo
económico e estatístico, em favor e beneficio das pessoas que o
constituem. Deixem-se de tretas, por mais prestigiante que seja o cargo, a verdade
é que o povo nas ruas, que contrafeito lá foi apertando o cinto, sente agora
sim a entregar o seu ouro aos bandidos, para quem os seus problemas não valem
mais que um prato de lentilhas num qualquer restaurante de Bruxelas.
Sobre a nossa vitória, muito pouco! Mas gostei da idéia da t-shirt:
"Foi voce que pediu um Santana?"

Interrogação pertinente

terça-feira, junho 29, 2004

15- Em ano de eleições (não nos podemos esquecer que ainda há regionais em Outubro), a actual situação só vem prejudicar o PSD nos dois arquipélagos. Se na Madeira a coisa não deve dar para aquecer lá muito (infelizmente o PS caracteriza-se por ser um saco de gatos – Vicente Jorge Silva dixit), nos Açores o caso muda de figura. A coligação pré-eleitoral sofre um duro revés de consequências imprevisíveis. Ainda por cima Vítor Cruz, o líder do PSD local, é um político que prima por uma excessiva colagem ao poder central o que no actual estado de coisas não deve trazer lá grandes dividendos. E mais uma vez neste arquipélago se vai provar que concorrer coligado com o PP subtrai votos.
14- Outra questão que se coloca tem a ver com a motivação individual de Durão Barroso. Devia ou não ter aceite o convite? Devia ou não manter-se nas suas actuais funções? Onde começa e onde acaba o egoísmo de Durão Barroso? Boas perguntas com difíceis respostas. É mais do que óbvio que Durão não deveria ter aceite o cargo nem que fosse pelo actual compromisso com os portugueses e porque era importante colocar o tal interesse nacional acima de tudo transmitindo um sinal de confiança. Mas perante os factos, a dura realidade dos factos, dificilmente se podia pedir que não aceitasse. Afinal, Durão Barroso vai ganhar um prestígio sem precedentes e vai ocupar um cargo que mantém intactas as suas aspirações políticas internas e externas e que pode efectivamente constituir uma mais-valia para o país e para os portugueses. Estranho é que, de um momento para outro, o cargo seja relativizado. Se fosse Vitorino já era importante? Porque é que Durão não passa de um medíocre de segunda escolha e Vitorino não? Porventura Vitorino era primeira escolha? É a tal superioridade moral da esquerda que tem sempre os melhores e tem sempre razão.
13- Outro problema de difícil solução prende-se com o rumo das principais políticas do actual governo. Com Santana, com qualquer outro primeiro-ministro, o caminho até agora traçado muda completamente em áreas tão cruciais como as Finanças, os Negócios Estrangeiros e relativamente à própria Europa. Em relação a este último aspecto nenhum dos protagonistas da pseudo nova aliança se compromete: quer Santana quer Portas não são conhecidos pelos seus amores europeus e nenhum deles abdica do discurso nacionalista serôdio que o caracteriza. Em tudo o resto, a tendência seria implementar políticas de facilitismo uma vez que a distância até às próximas eleições já é curta e precisa de medidas populares. As verdadeiras consequências? Mais tarde se verá.

Reflexões Políticas III

12- A ida de Santana para primeiro-ministro abre o caminho da Presidência da República a Cavaco Silva? Não, não abre. Fecha-o completamente porque Cavaco recusa-se, pura e simplesmente, a coabitar com Santana. Tal como Marcelo. O tabu é então, pelas piores razões, finalmente desfeito. Mais um problema que ao contrário do que se supõe não se resolve. A esquerda aplaude.

Na www.tsf.pt

'Esta terça-feira opositores à ida de Pedro Santana Lopes para São Bento voltam a manifestar-se em Belém. No mesmo local e à mesma hora (19:00) um grupo de apoiantes anónimos do autarca de Lisboa resolveu marcar uma concentração.'

DESCULPE!? Sao motards?

PS: no final da concentracao vai haver festa da espuma e consurso de Miss t-shirt molhada.

No futuro...

Imaginem um futuro longiquo. Imaginem as criancinhas desse futuro numa escola. Imaginem a professora a dizer-lhes: ‘entao e agora vamos estudar o seculo XXI’. Passados 15 minutos, imaginem a gargalhada total a ecoar pela sala de aula. A epoca em que vivemos e a epoca historica mais ridicula de todas. Nada se produz de bom: das artes a politica. Todos os campos estao totalmente dominados pela mediocridade. Quando a bitola mede pelo mediocre, o menos mau parece sempre o melhor… E como se a imaginacao da humanidade tivesse chegado ao fim. E a falencia total das ideias, dos ideais, das ideologias, das utopias. E isto nao e so em Portugal, embora muitos assim o pensem. A democracia ja deu mostras de que e falivel, e bem falivel. Ainda assim, dominada por mentecaptos, vai cambaleando sem que se questionem os seus fundamentos. Sem que se inove. Ja nao ha imaginacao para tal. Nao sera esta a epoca do final da Historia. Sera antes a epoca do final da Historia das ideias. Entraram em cena os Berlusconis, os Bushes, os Blairs, os Duroes. Como se tal nao fosse ja bater no fundo, ao que parece veem ai os Santanas. E ninguem se indigna, ninguem assalta as ruas. Pelo menos escrever numa t-shirt ‘Foi voce que pediu um Santana!?’. Nada! Mas sao os Homens que fazem a historia. Sao os Homens que fazem as democracias. Sao os Homens que entendem as democracias como reduzidas ao voto. Foram os Homens que afinal fizeram as democracias falhar. E imaginem que depois dos primeiros 15 minutos, o pranto total comeca a ecoar na sala de aula do futuro…

Entao e...

A Pomba-Gira a Ministra?

segunda-feira, junho 28, 2004

Albergues espanhóis

Os dois maiores partidos portugueses continuam a dar a imagem real da nossa democracia. Alguém lhes reconhece alguma ideia estruturante, algum princípio fundamental a não ser o da defesa das corporações, da manipulação do aparelho de Estado, do patrocínio de carreiras individuais. No PSD-PPD, os do PSD não gostam dos do PPD (de quem o PP é uma óbvia extensão). Como é que é possível que pessoas que se odeiam que, aparentemente, têm ideias diferentes, estejam juntas no mesmo partido? Valentins e Pachecos, Rios e Meneses, Santanas e Balsemões, etc. No PS, a direcção quer eleições antecipadas, mas muitos daqueles que olham aguçadamente a carcaça de Ferro Rodrigues, pensam duas vezes: sem congresso Ferro não cai, se Ferro vai a eleições provavelmente ganha e lá se vão as carreiras dos Sócrates e dos Lamegos.
11- Ninguém, à excepção do Bloco que adora a paródia, me parece preparado para eleições antecipadas uma vez que todo este processo resulta de um acontecimento inesperado e imprevisível e não de uma crise instalada ou mesmo anunciada, como defende a oposição. As eleições europeias valem o que valem e é preciso não esquecer que a grande maioria dos governos europeus foi fustigada pelos maus resultados. É bom que não se radicalize certos acontecimentos.

(Continua)
10- Outro sinal claro: o PS encontra-se mergulhado numa crise de identidade sem qualquer rumo. Basta ver a lista de putativos candidatos à sucessão para se assimilar o mar de equívocos que é o PS no actual momento, mesmo depois da tal “estrondosa” vitória que em vez de acalmar teve o efeito exactamente contrário. Depois do regresso ao Cavaquismo (pelo menos nos nomes) teríamos um novo regresso: o do guterrismo à política portuguesa e a essa tristonha política sem sal e de consequências e maleitas incalculáveis. Nem um nem outro deixam saudades. Mas na política portuguesa, nada se perde, tudo se transforma. As elites perpetuam-se e os movimentos políticos vivem num exercício cíclico que poucos entendem mas que resulta perfeitamente quando se trata de deixar tudo exactamente na mesma.
9- A decisão está tomada apesar de todo o melodrama que estão a querer montar. Durão Barroso vai aceitar. Já aceitou. De outra forma já teria posto fim ao já mais do que longo e injustificado boato. O PS perde aqui um pouco do espaço que poderia ganhar aos partidos pequenos numa espera com pouco sentido e de resultado duvidoso.
Novamente Ferro Rodrigues se vê ultrapassado pela maior acuidade dos partidos mais pequenos, que neste momento de facto lideram a oposição quer pela sua destreza quer pela sua arte política. Todos os dias o PS perde terreno. E isso é um sinal mais do que claro da sua incapacidade para governar.

Reflexões Políticas II

8- Parece-me óbvio outra coisa: Sampaio apoiou desde logo a ida de Durão Barroso para Presidente da Comissão. Ele próprio confessou que há coisas que não se podem recusar. Mas talvez não estivesse à espera que a escolha de Durão recaísse em Santana o que lhe mudou em parte os planos. Sampaio não faz tenção de convocar novas eleições porque sabe que corre um risco grande que põe em causa todo o seu prestígio, no plano interno, e que pode originar uma desconfiança insuportável, no plano externo. O Presidente é em primeiro lugar Presidente de todos os portugueses como eles muito bem se gostam de intitular (mas não se pode esquecer que Sampaio é socialista). Só que Sampaio viu-se quase de certeza ultrapassado: esperava Manuela Ferreira Leite ou Marcelo Rebelo de Sousa; saiu-lhe na rifa Santana Lopes e o mesmo Paulo Portas, que ele não suporta.

Ok...

Ah, pronto, percebi... Tem de se ter cabelo a proxeneta, comer muita gaja tia e ir a Capital... Pois, nao preencho os requesitos. Mas e o Zeze Camarinha, que tal?

entao e...

Eu! Pode ser?

entao e...

o Scolari a Primeiro, nao?

tenho uma idea...

Com o Santana a Ministro, podemos fazer de S. Bento a proxima casa do Big Brother e ganhar dinheiro com os direitos de transmissao. Aposto que vai ser a casa mais divertida de Portugal... Cruzes, ao que isto chegou! So de se pensar no nome desse tipo para Ministro da vontade de acreditar em Fatima e implorar-lhe por um marmoto...

Durao a UE...

Porque e que a UE quer o Durao? Porque no momento da vida politica em se se encontra este gigante burocratico quer-se e um gajo sem personalidade, fraco, sem carisma, influenciavel e incompetente q.b.. Nesse aspecto ate era bom que a UE se transformasse numa especie de buraco negro: em vez de mandarmos para la o lixo radioactivo, mandavamos para la os politicos de merda. Com certeza que em Portugal nao iriam ficar muitos...

Santana a primeiro!

Entao diz que o Santana Lopes vai ser o novo Primeiro-Ministro de Portugal. Bom, ja agora porque nao o Goucha, ou a Teresa Guilherme? E desta que eu vou a Haia pedir o estatuto de apatrida. Se precisarem de informacoes, madem que eu estou seriamente a estudar o assunto.
7- Para Paulo Portas joga-se o seu futuro imediato. Há dias escrevia aqui que ele faria tudo para se manter no poder, numa altura em que o seu partido é marginal no seio da sociedade portuguesa e que subtrai em vez de somar. Isso agora é mais do que visível na colagem a Santana Lopes e no seu “pedido expresso” por uma outra pasta com maior visibilidade mediática que evite levar tanta porrada na comunicação social (o feitiço que se virou contra o feiticeiro) e que lhe dê o ar de menino angelical. O acordo está selado? Talvez. Mas isso não significa que seja exequível e muito menos que o PSD o aprove.

(Continua)
6- A maior injustiça que pode trazer uma nova eleição tem a ver com o beneficiar do infractor. Ou seja, depois do regabofe e do estado lastimoso em que o PS deixou o país e as suas contas públicas, seria de todo injusto, numa altura em que se fala numa eventual retoma e de um maior equilíbrio financeiro da coisa, dar de bandeja ao adversário aquilo que tanto custou a endireitar. Nestas coisas sou da opinião que não se deve entregar o ouro ao bandido porque não tenhamos dúvidas: neste momento particularmente difícil, qualquer eleição antecipada seria maléfica para o PSD e catastrófica para o PP (caso concorresse sozinho). Defendo ainda que as legislaturas devem, em nome da estabilidade, ir até ao fim. O caso de Guterres foi diferente: foi o próprio PS que não quis indicar novo nome.
5- No PSD há um outro problema grave: as bases, os seus militantes de base, acolhem bem Santana Lopes porque gostam do estilo. Nas cúpulas poucos o suportam como se vê nas imediatas reacções internas de rejeição da solução encontrada. Santana não é internamente político de consensos. Mas as bases estão com ele. Quem assistiu ao último congresso do PSD em Oliveira de Azeméis sabe que o momento por que todos esperavam era o discurso de Santana. E quando ele se preparava para começar, acreditem, nem um único ruído se ouvia na sala. Impressionante. Mas na política, pelo menos no PSD, não há, ou não deve haver, sucessões dinásticas: é preciso ir a votos num congresso soberano que aplauda e que se reúna em torno de um novo líder. Não basta a legitimidade de um Conselho Nacional (até porque a lista de Durão Barroso neste órgão nem maioria tem e porque o nome de Santana pode não passar numa votação); é preciso mais. Muito mais. Encontrado um líder em congresso que se avance então com um nome para primeiro-ministro. Não se deve pôr o carro à frente dos bois, porque nestas coisas só devagar se pode ir ao longe. Assim sim, haveria alguma legitimidade política.
4- Pelos vistos, não há timings perfeitos em política. O problema de Barroso é muito mais profundo do que parece. Por causa dele, do seu abandono para um cargo de prestígio europeu que se compreende no plano pessoal e no plano político, o PSD pode abrir uma guerra interna problemática que pode deitar por terra muito do trabalho até aqui feito e que pode fazer o país entrar numa deriva populista – com Santana e Portas ao leme, se o Presidente aceitar a nova indigitação – ou no caos da esquerda – se forem necessárias novas eleições e o Sr. Louçã, mais os seus apaniguados, conjuntamente com os incompetentes que acompanham o Dr. Ferro, chegarem ao Governo. Como se vê nenhuma das soluções me parece agradável. Ou sequer recomendável.
2- Outro ponto interessante prende-se com as passadas eleições europeias: se o resultado da coligação tivesse sido estrondoso mas num outro sentido, será que alguém da oposição se atreveria sequer a exigir novas eleições? Parece-me obviamente que não, ainda para mais quando a Europa reconhece o ainda actual primeiro-ministro como o homem capaz de a liderar nos próximos cinco anos e que ainda recentemente reconheceu o trabalho da ministra das Finanças.
3- O principal problema da oposição é Santana Lopes. Se fosse Ferreira Leite as exéquias começavam hoje mesmo a ser preparadas. E compreende-se o medo do Dr. Louçã, do Dr. Carvalhas e o silêncio indigente do Dr. Ferro: Santana é um populista que sabe jogar como ninguém com a imagem, com o marketing, com as palavras, com os gestos e com as imagens, com o significado íntimo das coisas. Santana ataca ao coração das pessoas, diz-lhes o que elas querem ouvir, põe-as as chorar; Santana não tem princípios programáticos nem textos de base: tem ideias e tem causas, e luta abnegadamente por elas. Um pouco à semelhança do Bloco que faz das pequenas coisas o seu objecto político e a sua razão de ser na política. Só que Santana é pior porque pode chegar lá, pode tomar o poder. Daí o medo, genuíno, na oposição. O Dr. Louçã então, percebeu melhor que ninguém o perigo: para populista, populista e meio; “Quem com ferros mata com ferros morre”. E aqui reside, para ele, o cerne da questão. Pressente o perigo.
Em dois anos Santana pode revolucionar o país e dar-lhe uma nova alma e, pior, preparar com calma nova maioria para 2006 e um novo reinado. Na artificialidade das coisas, escusado será dizer que o povo irá na conversa como foi na conversa de Guterres demasiado tempo. E já ninguém se lembra.

Reflexões políticas

1- A crise política que se avizinha é um teste de fogo à democracia portuguesa porque está em cima da mesa a possibilidade de Santana Lopes ser primeiro-ministro de Portugal. Uma coisa é certa: as mesmas razões que supostamente impedem (no plano da legitimidade) Santana Lopes de assumir a governação do país são exactamente as mesmas em qualquer outro. Isto quer dizer que, tirando Durão Barroso que foi a eleições, que deu a cara pelo partido e que apresentou um projecto, mais ninguém dentro do PSD tem legitimidade perante os portugueses para assumir as suas actuais funções. Nem Ferreira Leite, nem Marques Mendes, nem Marcelo Rebelo de Sousa, nem Dias Loureiro: nenhum deles foi efectivamente a eleições.

sábado, junho 26, 2004

Eleições

Confirmando-se o abandono do cargo de primeiro-ministro por parte de Durão Barroso parece-me que não resta a Jorge Sampaio outra atitude que não seja a convocação de eleições antecipadas.

Mas nem tudo é mau

É verdade. É um prazer ler as crónicas que Luís Campos, treinador de futebol do Gil Vicente, escreve no Público. Tal como foi superior o modo como José Mourinho comentou o Portugal-Espanha. Das poucos coisas que nos fazem esquecer o António Fidalgo, os jornalistas que não conseguem fazer um resumo de um jogo sem aplicar no mesmo milhares de trocadilhos idiotas, quase sempre como umas imagens de umas gajas pelo meio, e umas transmissões que nunca dão as repetições completas (Alguém que explique aos realizadores da televisão que, por exemplo, para apreciar o último golo do Rui Costa no Portugal-Inglaterra é preciso ver a jogada desde o início e não apenas o remate final).

Futebol?

Dizem os críticos que o país está futebolizado. De certo ponto de vista a afirmação é verdadeira. Arrisco afirmar, no entanto, que de futebol vejo, escuto e leio muito pouco. Façamos um exercício. Contabilizemos as horas de televisão, os minutos de rádio, as páginas de jornais e revistas dedicados ao Euro 2004. Vejamos agora quanto tempo e espaço é dedicado ao futebol, ao jogo em si. Bastante pouco. Restam as intermináveis e estereotipadas perguntas de rua - o povo é uma mais-valia televisiva bastante barata - os programas de televisão em que figuras públicas, que de futebol nada percebem, fazem comentários imbecis, opinam, dão conselhos ao treinador, o acompanhar das viagens das equipas entre treinos, as ridículas conferências de imprensa, as reportagens com todos os familiares possíveis e imaginários dos jogadores e um sem número de banalidades milhões de vezes repetido. De futebol, muito pouco.

Qual a razão?

Por que raio é que as duas primeiras pessoas a comentar para a televisão estatal a vitória da selecção nacional de futebol foram Durão Barroso e Ferro Rodrigues? Deixem o futebol em paz, deixem-nos para os seus intérpretes, jogadores, treinadores, árbitros.

sexta-feira, junho 25, 2004

EURO 2004 Parte II

Desculpem, nao resisto, aqui vai mais uma 'partilha'...

> Date: Fri, 25 Jun 2004 12:09:37 +0000
>
> Do you realise what you have done? England will
> never be the same for you
> now, beware of the ethnic cleansing the British will
> unleash on you. Look
> over your shoulder for red-faced, red-necked, beer
> belly, half-sobbing
> zombies who are after you.
> Ha ha, congratulations! The only reason why I have a
> small, tiny interest in
> international competitions is because all countries
> have the opportunity to
> huble each other and sweep their delusions of
> grandure under the carpet,
> well, until next time. England needed to be dragged
> down a bit and I think
> you were the best candidate for this job. It is just
> that I am worried about
> your cities now.... hummmm
>
> See you lata

EURO 2004

Gostava de partilhar este e-mail que recebi hoje convosco:

> Subject: MERCI!
> Date: Fri, 25 Jun 2004 11:02:51 +0100
>
> Dear Bare-foot walking people, those speaking their
> language, and those
> living with them,
>
> On behalf of Europe, place where sophistication and
> savoir vivre is everyday
> bread, I would like to thank you for doing what
> needed to be done, that is
> England out of the competition.
>
> As a consequence, in few days you will see less and
> less crossed flags, less
> and less sport wears, but much more of a smile on my
> face.
>
> Vive l'Europe!!
>
> A+

quinta-feira, junho 24, 2004

Aos Pachecos deste mundo...

"In fact - what did I know about real societies? About, say, French society? I had sociology degrees, I read Le Monde every day, quite often the New York Times, and Time, and The Observer. But I had never set foot in a factory; I had never had to look for a job to make a living. I had never worked in a private firm either. From my sociological readings I knew many things about 'society'; but what I knew was, somehow, irrelevant to real societies. I began to become conscious of my ignorance".
Daniel Bertaux

Pacheco Pereira, o cinema e Cannes

Pacheco Pereira na sua incessante e risível cruzada na defesa da Guerra do Iraque, oferece-nos hoje na sua crónica do Público uma autêntica pérola de presunção sobre o cinema e o Festival de Cannes.
Diz ele que "o pensamento baixou ao nível do grande "cineasta" Michael Moore (o prémio de "cinema" que lhe foi atribuído chega para desclassificar de vez o festival e o jurí que o fez".
Sem nos elucidar se já viu o filme ou não, sem nos explicitar quem constituíu esse jurí tão desacreditado, sem nos dar a conhecer as razões que estão na base da desclassificação do Festival de Cannes, só podemos chegar à óbvia conclusão que, para Pacheco Pereira, o pensamento elevado é marca registada do próprio e dos, como ele classifica, "governos democráticos legítimos", mesmo que esses governos sejam liderados por presidentes que alcançam um milhão de votos a menos que os seus adversários da contenda eleitoral.
Todos aqueles que têm a veleidade e a desfaçatez de questionar o pensamento elevado de tais elites esclarecidas, mesmo que o façam através de mensagens veiculadas em campos artísticos e que mereçam o reconhecimento dos seus pares, são agora classificados como pertencentes a uma espécie inferior em capacidade intelectual e reflexiva, os Baixos Pensadores.

quarta-feira, junho 23, 2004

Rescaldo (retroactivo) das eleições europeias

Uma coisa que estas eleições europeias revelaram foi a súbita ânsia pela possibilidade de voltar ao poder, de conquistar o poder ou de sobreviver no poder, em alguns partidos e organizações políticas.
Estes efeitos sentiram-se particularmente no PS (possibilidade de voltar ao poder), no Bloco de Esquerda (de conquistar, finalmente, o poder) e no PP (desesperadamente sobreviver no poder).
O poder é o objectivo supremo de uma, de qualquer uma, organização política. Logo é legítimo que haja essa vontade expressa, ou não, de querer o poder para executar um plano, uma estratégia, um conjunto de princípios (o Bloco de Esquerda, tal como a grande maioria de organizações radicais de esquerda, prima pela originalidade de não ter nada disto, o que parece atrair, quanto a mim enigmaticamente, bastante juventude “esclarecida”!!!) ou uma ideia política.
Com base nesta premissa devemos todos meditar um pouco nas seguintes questões: merece o PS, depois do caos e do pântano, cujos efeitos ainda se sentem, nova oportunidade em tão curto espaço de tempo? Merece a burguesia intelectual e bem instalada na vida (e que é fruto e consequência de uma comunicação social conivente e vergonhosamente tendenciosa), que gosta imenso das ganzas, dos cachimbos, do circo mediático e da retórica bem falante, que no seu íntimo despreza e abomina o povo e tudo aquilo que ele representa, chegar ao poder para lá iniciar um conjunto de belas e confortáveis borlas impregnadas de demagogia e com consequências mais do que nefastas para estas e para as futuras gerações? Merece o Dr. Portas continuar, no futuro, como co-líder de uma coligação que não está a acrescentar há já algum tempo nada de novo ao país e muito menos ao PSD e que só prejudica a imagem deste partido? A qualquer uma destas perguntas a resposta só pode ser, quanto a mim, um rotundo não. É por isso que o momento político em Portugal merece alguma reflexão, muita atenção e extraordinário cuidado. E isto exige-se, mormente, ao único partido com capacidade de dirigir e de dar um rumo condigno ao país: isto exige-se ao PSD. E isto exige-se ao PSD porque dos outros nada de bom se pode esperar.

terça-feira, junho 22, 2004

Perguntas de algibeira



A qualificação portuguesa para os quartos-de-final de uma prova organizada por nós e no grupo mais fácil de todo o Europeu vale assim tanta euforia?
Porque será que continuamos a celebrar aquilo que deve ser uma obrigação?
Não era obrigatório que esta equipa, com estes técnicos, jogadores e dirigentes se qualificasse sem espinhas e sem grandes sofrimentos? Parece que não.

segunda-feira, junho 21, 2004

O outro derby de ontem

Nossa Senhora do Caravaggio-1 vs. Santiago de Compostela-0

quarta-feira, junho 16, 2004

O Zé do PS

É compreensível que nas hostes socialistas se sinta alguma euforia em razão dos resultados eleitorais do passado fim de semana.
Todavia, pensava eu que esse estado de espírito de satisfação não seria motivo para algumas personagens do partido perderem a noção dos sentidos e entrarem em delírio. Mas está a acontecer!...
O vislumbre da hipótese de reconquista do poder em breve está a provocar umas certas psicoses nalgumas mentes do PS, conduzindo-as a atitudes esquizofrénicas.
O mais recente ilustre representante desta tendência para a senilidade é a do ex-representante de Portugal no Governo Provisório do Iraque, Zé Lamego.
Ora não é que Zé Lamego, depois de nobres e elevados feitos praticados no Iraque, pretende agora candidatar-se a Secretário-Geral do PS?!
Justifica ele a candidatura com a "defesa de princípios e para a criação de espaços de protagonismos a novas gerações e a novos elementos". A julgar pelo seu recente passado político antecipa-se facilmente qual a índole e a elevação dos princípios que pretende defender...
Felizmente, ou muito me engano eu ou a sua candidatura não será mais do que mero fogo fátuo!


sábado, junho 12, 2004

Liners e Bandeirinhas

Num país pejado de bandeirinhas ad nauseum (não é só na Velha Albion, "amigo" Global...), esperemos, apesar de tudo, que a equipa portuguesa não fique logo à tarde em posição de fora de jogo (off-side)...

Em resposta ao nosso Bruno II

Os 3 ocupantes do pódio, em ordem aleatória: França, Itália, Holanda.
Os 3 melhores marcadores: Henry, Nistelroy, Larsson
A equipa revelação: Suécia

sexta-feira, junho 11, 2004

Orgulho nacional?

Deixem-me ver se percebo? As bandeiras desfraldadas por toda a cidade de Lisboa, e imagino por todo o país, mais em bairros populares do que em bairros burgueses,revelam a paixão por uma das nações mais sub-desenvolvidas da Europa, que trata os seus cidadãos abaixo de cão. A bem da Nação. Viva a selecção.

Em resposta ao nosso Bruno

Então cá vai: campeão República Checa; final: República Checa-Espanha (2-1); melhor marcador Morientes;

Xutos

Foi com enorme prazer que vi os cinco elementos dos Xutos e Pontapés serem condecorados pelo Presidente Sampaio. Numa lógica de atribuição de prémios eminentemente classista, que esquece quase todas as profissões e actividades distantes do campo do poder, é um óptimo sinal alguém se ter lembrado destes indiscutíveis baluartes da cultura popular portuguesa. Vivam os Xutos.

quarta-feira, junho 09, 2004

A campanha dos cartazes e placards em Viseu

Percorrendo as diversas artérias e rotundas da cidade de Viriato, constata-se, com surpresa, que, em matéria de afixação de material partidário, os espaços públicos viseenses são largamente dominados nestas eleições, pasme-se, pelo Bloco de Esquerda e pela CDU!...
Numa cidade e num concelho onde obtêm percentagens eleitorais marginais, não deixa de ser curiosa a aposta destas duas forças partidárias em polvilharem a cidade com adereços publicitários (cartazes, placards) das suas cores, a contrastar com uma presença muito mais discreta e quase invisível dos partidos que recolhem a maioria das preferências locais..., os quais, certamente, preferem dispender as verbas que estão guardadas nos seus cofres nas refregas eleitorais que se avizinham.
É apenas mais um sintoma da desvalorização que os principais partidos políticos fazem destas eleições, cristalino de se ver diariamente, quando estando nós perante uma eleições para o Parlamento Europeu, os discursos políticos nos intervalos dos insultos mútuos, se dedicam, sobretudo, a sondar e a ventilar para os media os nomes de putativos candidatos presidenciais...

segunda-feira, junho 07, 2004

Metal connection

No mesmo café do e-mail anterior, no dia anterior, reinaram os reis do Metal. À minha frente estavam dez jovens vestidos de preto, cerveja na mão, sotaque indiscutivelmente alentejano, a berrarem todos os clássicos da banda de Hetfielf, Hammet e Ulrich. O metal devia ser estudado, não digo essas novas bandas fabricados em estúdios de Los Angeles para adolescentes pseudo-rebeldes, mas do metal do underground que passa de cassete em cassete, ouvida em grupos, predominantemente masculinos, multiplicados por todo o país, nas grandes cidades e nos sítios mais recônditos. Embora o show dos Metallica seja muito produzido, muito profissional, no mau sentido destas expressões, o seu poder ainda se sente. Foi bom voltar a ouvir alguns hinos antigos. Mantendo uma posição de observador distanciado e reflexivo ainda abanei muitas vezes a cabeça.

A alegria do povo

Garrincha foi o mais conhecido extremo-direito brasileiro. Alguns consideram-no ainda melhor do que Pelé. Os seus dribles fenomenais, dançantes, inebriantes, encantavam o adepto do futebol. Garrincha, como ficou eternizado num dos mais importantes documentários do cinema novo brasileiro - obra da autoria de Joaquim Pedro de Andrade - era a alegria do povo. Não pude deixar de pensar nesta frase quando vi, num café de Sines chamado SMURSS (as quatro últimas letras não são um acaso) o concerto de Daniela Mercury no Rock in Rio lisboeta. Há qualquer coisa de profundamente honesto no concerto da Daniela. A produção é festivaleira, profissional, a música é muito fácil, mas prevalece uma ligação poderosa com o público, que dificilmente conseguimos observar nos McCartneys, nos Stings e dinossauros afins.

Apostas

As apostas para o Europeu começaram. Entre candidatos ao título e candidatos a candidatos ao título – onde se inclui a equipa portuguesa – as hipóteses de escolha são mais do que muitas: melhor marcador, conjunto dos apurados da primeira fase, equipa sensação, nome dos jogadores da selecção ideal, número total de golos marcados, número de pénaltis assinalados e convertidos, cartões amarelos e vermelhos, melhor seleccionador, etc. Entre todas estas opções só houve uma que realmente escapou: por quantos vai ganhar a abstenção em Portugal no próximo domingo? Aceitam-se palpites...

sexta-feira, junho 04, 2004

O dia D em Inglaterra e as eleicoes Europeias

Comeco por dizer que nao existem sociedades perfeitas. Ou, para ser mais correcto, formas de organizacao social perfeitas. Ha no entanto que reconhecer que certas ‘formas’ resultam melhor do que outras. Mas adiante que tambem esta discussao daria pano para mangas… Inglaterra e definitivamente uma ilha a deriva, mergulhada no isolacionismo solitario e numa busca desesperada por uma identidade nacional. Esta ultima, no passado, era fortemente baseada no mito do Imperio em cujo o sol nunca se punha. Ao contrario do (cruel) colonialismo envergonhado dos Portugueses, os Ingleses sempre se orgulharam do seu, nao menos cruel, colonialismo. Apos a segunda Guerra Mundial, a ilha da ponderosa armada assistiu, nao impavida, ao desmantelamento das suas possessoes ultramarinas. Foi o declinio, nao tanto economico, mas identitario. A Segunda Guerra mundial ficou assim a ser lembrada como o ultimo grande feito da nacao imperial, mas um feito que estranhamente teima a recontar a historia como opondo a ilha ao continente. As comemoracoes do dia D neste pais processam-se de uma forma extremamente chauvinista, comprovando o erro crasso do arquetipo dos Franceses como o expoente maximo do chauvinismo. Bandeiras da Uniao hasteam-se por todo o lado e esgueiram-se pelas janelas de muitas das casas. A BBC desdobra-se em entrevistas a ex-combatentes, aqueles que ainda nao desenvolveram qualquer Alzheimer ou Parkinson, em programas de feitos heroicos nos quais as praias da Normandia sao representadas como a porta de entrada para uma Europa vil e tomada pelo diabo que Churchil veio para exorcizar. Preocupante e o facto de tudo isto se processar em paralelo a campanha eleitoral para as eleicoes Europeias. O desconhecimento da Uniao Europeia enquanto instituicao revela-se atroz e tao aprisionado a preconceitos nacionalistas que fazem corar qualquer partido de direita por essa Europa fora. No pais cada vez mais, e abertamente, controlado pelos privados o medo da perda de independencia e identidade nacionais e ridiculo. Digamos que se discute o acessorio. Mas foi exactamente para isso que os Ingleses inventaram o 'politicamente correcto', que nao e mais do que a censura polite de certos e determinados temas.
Entretanto, por estes dias, os meus amigos Alemaes, dado ao nojento (tambem porque velado e polite) xenofobismo Ingles, vao dizendo que sao Holandeses. E eu penso o quao facil e ao ser humano transformar-se exactamente naquilo em que supostamente abomina...

terça-feira, junho 01, 2004

Saber da vida dos outros

Um hábito terrível que se sente nos madeirenses é o querer saber da vida dos outros. Sente-se à distância esse prazer mesquinho a que se dá particular ênfase se for alguém conhecido ou que tenha fama de ser conhecido, mesmo que não passe de um reles sem mérito nenhum e sem nada de interessante que valha o trabalho de narrar.
Sempre que estou num grupo de pessoas a fazer qualquer coisa simples, como por exemplo a jantar, há sempre alguém, ou há sempre um momento em que alguém, de sorriso deliciado e maquiavélico, desata a comentar a vida de quem muito bem lhe apetece. Inusitado será dizer que perco o meu apetite quase instantaneamente. O meu estômago não aguenta com tanta má-língua e com tanta hipocrisia ao serviço da espécie humana como se nós vivêssemos a vida dos outros e não a nossa vida. Por isso não é raro ouvir por aí, em qualquer lado, em qualquer ajuntamento com duas ou mais pessoas, que x dorme com y, que a enganou b, que c roubou a d e outras pérolas que só visto, ou neste caso, só ouvido.
Os sítios pequenos são todos assim, ao que me dizem (é mais fácil sempre acreditar em ideias feitas, mesmo que absurdas). Mal-educados, claro, e estupidamente altruístas (estou a ironizar, como é óbvio). Nós, herdeiros desta tradição de séculos (povo metido na vida dos outros), não podíamos ficar para trás renegando as nossas origens, o nosso código genético (claro, saber de tudo aquilo que não interessa). Neste aspecto, em nada aprendemos com os ingleses, nem com os seus hábitos bem mais de acordo com os hábitos de uma elite de cariz europeu e empreendedor do que com uma pequena burguesia, muita dela medíocre, em ascensão a partir do último quartel do século passado.
Que se tenha vivido assim ao longo dos tempos pela falta de notícias, pela proximidade das gentes, pelo favor pessoal e pela cunha instituída e mecanicamente processada, pela solidão, pelo mar, pela falta do que fazer, pelas centenas de Alziras bilhardeiras (a bilhardice é um termo nosso, acho eu), pela regência e predomínio inglês que parece não se preocupou lá muito em pôr na linha o tal do povo nem perdeu tempo a educá-lo, ainda aceitava. Mas quando vejo várias gerações inteiras, com formação superior e continental e que sabem bem a estigmatização que isto origina, continuarem pelo mesmo caminho, resta-me ironizar com tudo isto e chegar à triste conclusão que ninguém aprendeu nada.
Um dos males da ilha também é este: depois da nova clausura, rapidamente adoptamos os velhos, e dolorosos, hábitos. A ilha, pela falta de mobilidade, pela claustrofobia, estupidifica-nos e aprimora o que há de pior na coscuvilhice que é uma forma escamoteada e versátil de destruir a vida dos outros e o seu mérito muitas vezes.
Só que o mal dos novos é não terem sido ensinados para pensarem superiormente quando tiveram óptimas e inacreditáveis oportunidades para isso. Mais que as gerações que os precederam a quem a alegoria da caverna de Platão assentaria que nem uma luva. Hoje não têm justificação. Nem perdão.
Numa sociedade de aparências, o parecer sempre foi mais importante que o ser, mesmo que fosse um parecer estúpido, um parecer rico, um parecer esperto, um parecer que se vinha de boas famílias, um parecer que se era da burguesia há gerações e não novos-ricos. Sempre foi assim. Os que tinham dinheiro, mesmo muito dinheiro, passavam despercebidos, tentando sim, que não falassem deles; os outros, os que precisavam de dizer que tinham dinheiro (nem que fosse de garganta, nem que fosse se mostrar nas fotografias de qualquer publicação apresentando a intimidade sem piada) davam nas vistas, com o objectivo precisamente contrário. O que é certo é que vivemos numa terra de parecer que somos qualquer coisa que no fundo não somos, valorizando em demasia o aspecto exterior e não o conteúdo, o que é mau para a mobilidade e péssimo para a tão desejada meritocracia.
Por isso também, ganha particular importância o nome do pai, da mãe, as suas profissões, as suas propriedades; o que veste, com quem anda, que carro tem, que sítios frequenta, onde mora. Tudo isto ganha central importância na vida dos medíocres mais preocupados com a árvore genealógica do que em aprender com os erros do passado. Assim, não é raro renegar primos menos abastados, familiares deficientes ou antigos amigos que avivam a memória de infâncias miseráveis. Tudo vale em prol da aparência.
Só que tudo não passa de um pretensioso paradoxo: por um lado sabemos o como comentamos a vida dos outros e a forma, pouco simpática, como a pintamos; mas por outro, queremos é que os outros falem de nós, mesmo que seja para contar mentiras e falar de ilusões. Estranhos tempos estes. E sombrios.