terça-feira, fevereiro 28, 2006

Quem são as vítimas?

É relativamente divertido, mas também trágico, ver aqueles que defendem os poderes dominantes do mundo a fazerem-se de vítimas, pobres marginalizados sociais que vivem longe do conhecimento. Não, não resulta. Algumas posições aqui defendidas sobre África foram desumanas e partem de uma visão do mundo que olha de cima, típica de certa ciência política que é mais política que científica. Aliás toda a última resposta foi a tentativa de colocar qualquer opinião dentro de um enquadramento político, é o senhor Louçã para lá, o partido único para cá, etc. Não, não funciona. O mundo é mais complexo do que esse xadrez político. Quando falei da necessidade de utilizar argumentos sustentados não me estava a defender, nem a referir-me a mim próprio, mas apenas a apelar a uma discussão que não partisse precisamente de uma lógica “clubista”, cega da realidade e clara defensora de interesses ideológicos. Lamento, mas não fui eu que disse que defender o contrário da minha opinião era indefensável. Quem não quer ser lobo que não lhe vista a pele. Quando se toma “a democracia absoluta” por uma bitola de exigência, quando se apregoa o respeito pelo outro, tem que se estar aberto às críticas, porque se não, como infelizmente acontece, a democracia é muito bonita mas é só para alguns. É evidente que as pessoas ficam mais bem informadas através de indivíduos que conhecem o terreno e a história específica de certos países e regiões, (e ao referir-me a estas pessoas não me estou a incluir no grupo, mas sim a utilizá-las como fontes de informação para os meus argumentos, o que é diferente), do que por geo-estrategas junto de certos governos cujo modo cínico de encarar a vida provocou 100 vezes mais mortes do que qualquer ditador africano. É essencial referir, por outro lado, que não se trata, como foi tentado passar, de um debate entre uma arrogância bem informada e alguém vítima do desconhecimento. Os argumentos utilizados para defender aqui certas opiniões não são nada originais nem ignorantes. A vitimação não resulta. Essas opiniões são defendidas em Portugal por pessoas bem instaladas nos meios de comunicação social, poderosos, alguém que tem forte poder de influência; encontramo-los na pena de José Manuel Fernandes, Luís Delgado, Helena Matos, Vasco Rato, Rui Ramos, etc; Pobres ignorantes? Não me parece.

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

Gisberto

Pouco depois do conhecimento público do homicídio de um sem abrigo, no Porto, perpetrado por adolescentes, os media concederam-lhe prontamente um reforçado enfoque narrativo, colocando uma acentuada tónica na caracterização dos autores do crime que, invariavelmente, deslizava para a condição familiar e económica dos mesmos, herança maldita que os rapazes partilhavam desde o berço.
Nados em famílias “desestruturadas”, desprovidos por isso de referências parentais centrais para a sua conduta e sem modelos de conduta relacional, sobre os adolescentes procurava-se traçar essencialmente um quadro de contextualização sócio-económico que supostamente teria facilitado o desfecho ocorrido.
Manifestamente, era uma linha claramente redutora e que mitigava outras variáveis de relevo para se compreender o móbil do crime. Muitos outros rapazes têm dificuldades económicas, não estão enraízados num núcleo familiar tradicional e não é por isso que cometem tais actos criminosos. A pobreza é uma condição já suficientemente maldita e difícil de superar, para não se fazer recair o estigma duplamente nessa condição. Havia necessariamente que alargar o âmbito de abordagem noticiosa e investigar outros vectores de entendimento da situação, em suma, advogar uma reflexividade mais alargada do que as propaladas condições materiais de existência, tão centrais nas narrativas jornalísticas.
Entretanto, no fim de semana, uma estação televisiva exibiu uma reportagem efectuada a propósito de uma competição futebolística internacional entre padres. A certa altura, aquando da apresentação dos “craques”, a reportagem visitou um jornal minhoto de inspiração católica, onde a certa altura foi dada voz ao editor do mesmo a dirigir informalmente uma questão a um jornalista do jornal a propósito do “casamento daquelas duas fulanas de Lisboa”…
Matéria jornalística de interesse, não pela aspiração em si, mas pelo carácter de novidade da mesma, envolta por isso ainda em questões jurídicas de jurisprudência, a interrogação do editor do diário minhoto, afinal, não tinha como fito a obtenção de mais elementos informativos com vista à sua inclusão nas páginas do órgão escrito, porque, como se aprestou o editor a revelar, os critérios jornalísticos não tinham eleito esse acontecimento como digno de ser alvo de tratamento noticioso no jornal.
Todavia, aquela “caixa jornalística” momentânea constituiu um momento esclarecedor de como a instituição católica continua a lidar com as orientações sexuais minoritárias. De repente, a “pessoa humana”, tão fulcral nas alegações católicas a respeito de outros assuntos na ordem do dia, transformou-se em “fulana”, expressão provida de uma consideração social menor.
As duas mulheres, por afrontarem valores historicamente estabelecidos a respeito do entendimento da chamada instituição do casamento e por denotarem comportamentos distintivos em relação à moral defendida eclesiaticamente, já não eram duas pessoas, mas sim duas fulanas.
Se dissermos que os rapazes do Porto estavam há muito internados na Oficina de S. José, instituição da diocese do Porto, e que a vítima do crime e das perseguições era um transexual, começamos a ponderar que a aclaração da deficiente socialização primária a que os rapazes foram sujeitos não se deverá única e exclusivamente à sua condição sócio-económica. Analise-se também a actual instituição de integração social dos rapazes e verifique-se em conformidade quais os valores e os pensamentos que ela transmite aos seus internados sobre o "outro". Se calhar alguma da luz para a explicação do sucedido está aí…

Comentanto o "em jeito de comentário"

1- Descontextualizar expressões colocando-as com um sentido que não era o original faz parte de uma velha táctica. É um método simples que geralmente produz bons resultados quando os outros estão desatentos. Mas é um método que esconde algo de essencial: a inexistência de um argumento sólido. Este caso em particular tem contudo uma variante, que foi utilizada, por exemplo, há um ano atrás pelo guardião da moral e dos bons costumes portugueses. Vi então este mesmo argumento em Louçã, armado em Savonarola como correctamente o apelidaram, num debate com Portas em que este foi condenado ao ostracismo e ao silêncio na questão do aborto porque não sabia o que era gerar vida. Para além de cínico, é deselegante. E claro de muita má-fé. A arrogância e a mania de superioridade em todo o seu esplendor.

2- Por isso, o mais preocupante é precisamente o argumento do “incluem-se parte importante de estudos e trabalhos feitos por pessoas que em vez de papaguearem cartilhas ideológicas, estudaram, foram para o terreno, para os arquivos e procuraram, o que não os torna imunes à crítica, chegar a algumas conclusões. Quem é que informa melhor?” Toda a citação resume bem o pensamento do autor. Eu sei porque vi, porque estudei, porque pesquisei. Logo, tu que não viste, que não estudaste, que não pesquisaste não sabes nada do assunto nem podes ter qualquer opinião formada e digna de ser, sequer, comentada. Por isso, cala-te porque não podes “informar”. Faltou apenas acrescentar “sou [a tal] uma autoridade moral avalizada pelas pesquisas académicas que fiz e que diariamente faço”.

3- Eu não percebo nada de átomos (aliás, nunca vi nenhum), mas sei que eles existem. Sou até capaz de explicar, pasme-se, a sua composição (que heresia). Sou capaz também de falar sobre a Revolução Industrial, mas de repente não sei se devo porque não vivi na época. Estou consequentemente e também por isso condenado a não poder falar da China, ou da Inglaterra ou mesmo da Austrália pelo simples facto de nunca os ter visitado. Ou de Angola e Moçambique porque nunca vi de perto a sua pobreza e o desespero das suas populações. Estou proibido ainda de falar sobre a fome e a miséria porque nunca passei fome nem fui miserável. Ou sobre a toxicodependência por razões semelhantes. Continuo assim a procurar sentido para a existência de livros, revistas, filmes, jornais. E de bibliotecas, e livrarias, e museus, e arquivos. E da televisão, da rádio, da internet, etc. Triste mundo este se nos limitássemos a falar apenas sobre as nossas profissões ou sobre o nosso clube de futebol.

4- No meu partido (apesar de discordar com muitas das suas orientações e estratégias) há gente contra e a favor do aborto. Contra e a favor da eutanásia. Contra e a favor da regionalização. Contra e a favor do casamento entre homossexuais. Contra e a favor das privatizações. Contra e a favor da integração europeia. Contra e a favor da intervenção militar no Iraque. Contra e a favor do código do trabalho. Contra e a favor de uma maior liberalização do mercado. Contra e a favor da publicação dos cartoons. Etc. etc. Poucos partidos existem em Portugal com tanta diversidade de opinião. Dogmáticos e transmissores de “cartilhas” são aqueles que impõem uma única, e apenas uma, possibilidade de escolha. Aos seus e ao mundo.

sábado, fevereiro 25, 2006

Para que fique registado

O Benfica, na última terça-feira, ganhou ao campeão europeu. Para quem ia envergonhar o país não está nada mau.

Em jeito de comentário

Sobre África. Não vou repetir os argumentos que utilizei porque continuo a acreditar neles. Seja como for, é de assinalar que do lado dos pretensos defensores das liberdades e democracias continue a surgir argumentos democráticos como "Tudo o resto, é defender o indefensável". A prova de que as sociedades ocidentais ainda não se livraram de todos as expressões autoritárias. Neste "tudo o resto" incluem-se parte importante de estudos e trabalhos feitos por pessoas que em vez de papaguearem cartilhas ideológicas, estudaram, foram para o terreno, para os arquivos e procuraram, o que não os torna imunes à crítica, chegar a algumas conclusões. Quem é que informa melhor?
Sobre o comunicado do PCP, partido do qual não sou emissário, acho-o, no essencial do seu conteúdo, bastante razoável e certeiro. Demonstrando, aliás, um elementar bom senso que escapou a muito outros. Diga-se que, no meio disto tudo, pesando as circunstâncias, o ministro dos Negócios Estrangeiros foi também bastante razoável, embora a forma como o fez seja algo discutível.

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

A realidade existe

O Comité Central do PCP, de acordo com uma notícia saída ontem no Público, entende que no caso das caricaturas de Maomé o que está em causa “não é a liberdade de imprensa e de expressão, mas acções provocatórias de carácter racista e xenófobo que insultando e identificando o islão com o terrorismo procuram atiçar a tensão, alimentar e explorar acções radicais que possam servir de pretexto para o prosseguimento da estratégia de agressão e guerra imperialista contra países soberanos e a criminalização das forças e povos que lhe resistem”. Mas como delirar não paga imposto e a asneira (liberdade de expressão) é livre, o Comité Central vê ainda “motivações” e uma “ofensiva mais geral do grande capital e do imperialismo”, interessado em propagar e em semear o ódio e a violência. A táctica não é nova. Aliás, está putrefacta de tanto ser utilizada. Daqui a pouco, o camarada Jerónimo dirá que o Presidente americano, himself, é o autor moral dos desenhos porque está interessado no petróleo e na instabilidade na região e que foi ele próprio que financiou o concurso. Pelo meio, os sionistas também entrarão em cena com uma série de métodos pouco ortodoxos e tenebrosos. No fim, surgirá como complemento a globalização predadora. O camarada Jerónimo, como se vê, é mais um caso perdido. Com o fim do comunismo (prática política), o discurso marxista (teoria) virou-se para o cinismo e para a má-fé, numa clara acção de desespero demonstrativa da sua impotência política. No seu discurso seráfico, e saudosista, o Camarada Jerónimo não vê que lá fora a realidade existe.

terça-feira, fevereiro 21, 2006

África

Quando se fala na pobreza em África é importante desmontar duas ideias, ou fantasias, falaciosas: o colonialismo acabou, mas continua responsável por aquilo que acontece em África (primeira ideia); a liberalização do comércio aumentou as desigualdades e, consequentemente, a pobreza em África (segunda ideia).
Entre 1960 e 1997 o continente africano recebeu qualquer coisa como o equivalente a seis planos Marshall. Resultado: um enorme e indescritível desastre. África está hoje muito pior do que estava, há quarenta anos atrás. Um exemplo particular: a esperança de vida no Zimbabwe passou de 56 para 33 anos. Vários outros exemplos gerais: metade da sua população vive com menos de um dólar; a fome mata anualmente milhões; a esperança de vida está nos 46 anos; uma em cada seis crianças morre antes de atingir os 5 anos; há 25 milhões de infectados (projecções simpáticas) com o HIV sendo que dois milhões sucumbiram à pandemia apenas em 2005. Problema central: o mundo perante a catástrofe evidente, alicerçado num forte sentimento de culpa (ocidental, sobretudo), decidiu doar rios de dinheiro que mais não serviram do que para encher os bolsos ou de políticos corruptos ou de senhores da guerra. Em qualquer das hipóteses, tratou-se sempre de gente pouco recomendável, que na maioria larga dos casos dedicou-se afincadamente à destruição física, e maciça, dos recursos disponíveis. Como lamento, a grande massa dos europeus convenceu-se de que doar dinheiro apagava o desconforto das imagens que corriam mundo e eliminava, da sua consciência, os dramas e as tragédias individuais e colectivas que entravam, via televisão, casa adentro. Por isso, nada como puxar do livro de cheques e comprar alguma leveza de consciência. Erro crasso, claro está. A maioria dos fundos disponibilizados acabou em parte incerta. Aliás, 80 cêntimos de cada dólar, para ser mais exacto. E claro que a caridade não desenvolveu as estruturas económicas nem deu azo ao desenvolvimento efectivo de uma classe média empreendedora capaz de solidificar alguma coisa de concreto que pudesse avalizar um qualquer futuro. O dinheiro mandou. Logo, o dinheiro comprou, por exemplo, as armas necessárias para amansar o povo e eliminar os adversários, principalmente os incómodos, em troca do forjar de algo levemente parecido com eleições.
Depois da Guerra Fria, situação complexa que não pode ser avaliada fora do contexto específico da época e dos blocos divididos por um muro, restou um único culpado: a América imperial, mais os falcões da sua administração (do passado e do presente, com especial ressonância na administração Reagan, afinal aquela que fez o muro ruir gerando um ódio evidente), responsáveis pelo arrastar das situações devido à sua política geoestratégica expansionista e predatória dos recursos terrestres ou mesmo devido à falta de interesse da região em questão. Outro grave, e roliço, engano. E explicação demasiado simplista para ser levada a sério. Os primeiros responsáveis da grave situação africana são os seus governantes, mesmo que educados nas melhores universidades americanas, inglesas, russas ou francesas e sob influência do “ocidente”. É preciso dizer as coisas como elas são. Usar o colonialismo, ou mesmo o pós-colonialismo, como justificação e desculpabilização pelo terror instituído e diversificado, não ajuda a resolver a situação porque, é preciso que se diga, boa parte dos líderes africanos são déspotas da pior espécie e, em alguns casos, notórios serial killers. Tudo o resto, é defender o indefensável e ser conivente com quem diariamente trai o seu povo, não criando uma única infra-estrutura que possa fazer crescer um país.
Quanto ao argumento da liberalização do comércio é preciso dizer que este é, e quanto a mim, um não argumento. Porque sucede precisamente o contrário: o problema africano resulta do excessivo proteccionismo de alguns mercados e não da liberalização do comércio ou da globalização em si. Basta ver a vergonha da União Europeia e das suas políticas agrícolas, o proteccionismo alfandegário e aduaneiro de blocos comerciais antagónicos e o recente falhanço da Organização Mundial de Comércio. O problema é estar, e continuar, à margem da globalização. Não é estar na globalização. O problema é que gostamos demasiado do nosso bem-estar e aceitamos que líderes africanos continuem impunes. O problema é que passar o raio do cheque é bem mais fácil. E dá menos chatices.

B. Macedo

domingo, fevereiro 19, 2006

O futebol de domingo

Costumo dizer que o futebol em Portugal é demasiado mau. Na verdade, quanto a mim, esta é uma evidência sem necessidade de grande comprovação. Ainda há pouco, o líder da prova entrou em campo com um tal de Ivanildo, um desastroso Alan, um inexistente Adriano, um ridículo Bosingwa e com um central mais conhecido na luta livre do que no futebol. Pelo meio, jogou ainda esse extraordinário Jorginho, candidato a pior jogador da liga das apostas. E o Marítimo, claro, ajudando à festa, conseguiu perder um jogo parecido com um filme de terror: mau demais para ser verdade. Há alguns anos atrás, uma equipa destas seria impossível num clube que lutasse pelo título. Hoje é uma prática recorrente e a fazer escola. Ao contrário do que muitos pensaram (eu inclusive) os holandeses que aterraram em Portugal no último defeso não trouxeram consigo nada de novo ou sequer de inovador. Trouxeram absurdos inexplicáveis disfarçados de tácticas e ilusões escondidas na suposta notoriedade dos seus currículos. Porto e Benfica são consequentemente erros de casting profundos que sobrevivem mais pelo peso das suas camisolas do que propriamente pela qualidade do seu futebol de todo inexistente. O futebol em Portugal piora a olhos vistos. Só não vê quem não quer. Mas continua-se a acreditar em milagres.

B. Macedo

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Berthelot

Caro(a)s Sócio(a)s
Entramos em contacto convosco para, infelizmente, vos transmitirmos a notícia, recebida da AISLF, do falecimento de Jean-Michel Berthelot. Desejamos deixar aqui expresso também o nosso pesar por esta perda significativa tanto para os sociólogos em geral como para os colegas que com ele privaram. Em baixo enviamos a notícia recebida da AISLF e um resumo biográfico de Jean-Michel Berthelot (obtido através da página electrónica do Centred’Études Sociologiques de La Sorbonne).
AtentamenteAssociação Portuguesa de Sociologia
A Direcção

Mensagem recebida hoje às 12h15

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

Alguma coisa sobre África

Retirar ao ocidente as graves responsabilidades que tem na actual situação africana, para insistir apenas nas teorias dos choques tribais e dos chefes corruptos é produzir esquecimento histórico. Infelizmente, com a civilização, o ocidente trouxe a barbárie. Sim, é certo que já existiam práticas esclavagistas, sim, existiriam guerras tribais, sim, as relações sociais reproduziam fortes desigualdades. Mas todas estas características foram aumentadas incomensuravelmente com o colonialismo. As políticas de governação indirecta, a cooptação de líderes tribais e o reforço das hierarquias anteriores criaram um quadro político de violência e de injustiça generalizado. A marcação étnica foi reforçada pelo poder europeu: armas poderosas e eficazes, políticas generalizadas de trabalho forçado. Nasceram assim as sementes de um ódio étnico nunca antes visto. Em certo sentido, foram os sistemas de dominação colonial que "criaram" as bases das divisões étnicas tais quais hoje as conhecemos. À parte disto, como se sabe, as sociedades coloniais eram racialmente organizadas. Foi dessas injustiças que nasceu o ódio. A independências dos países africanos foi encontrar o mundo em plena guerra-fria. Com a frieza típica do geo-estratega, encarnado hoje pela figura de alguns cientistas políticos, foram efectuadas políticas de aliança, para um lado ou para o outro. Os Estados Unidos, sob a direcção política de homens como Chester Crocket, secretário de Estado da administração Reagan, suportaram política e militarmente homens como Mobutu no Zaire (hoje República Democrática do Congo), Samuel Doe e Charles Taylor na Liberia, Siad Barre na Somália, o governo do Apartheid na África do Sul, a Unita em Angola, a Renamo em Moçambique, o governo árabe do Norte do Sudão, que passaram a combater depois do fim da guerra-fria (o mesmo que fizeram com Saddam no Iraque, ou com os Mudjahedeens no Afeganistão), a administração Clinton bloqueou a intervenção da ONU no sentido de evitar o genocídio no Ruanda, etc, etc, etc, etc. Parte dos líderes africanos são mestres e doutores por universidades inglesas e americanas. As mortes causadas pelos conflitos étnicos foram sobretudo o resultado de uma diplomacia absolutamente irresponsável que em nome do "mundo livre" armou tiranos e déspotas que transformaram os ódios raciais firmados durante o colonialismos em genocídios em série. Não estou a negar a existência de líderes corruptos e assassínos ou a tirar-lhe as imensas responsabilidades que têm. Mas vamos perceber as condições da sua emergência e a natureza dos seus métodos. Um conselho de leitura para os interessados: The Graves are not yet full, race, tribe and power in the heart of Africa, de Bill Berkeley, editorialista desse perigoso jornal vermelho chamado New York Times; e já agora, claro Joseph Conrad, Heart of Darkness, cuja história, originalmente africana, inspirou o Apocalipse Now de Coppola

Sobre os posts longos...

Há duas coisas que me espantam em tudo isto: não perceberem que Hitler, por exemplo, copiou o estado totalitário de Estaline, logo que a prática política era igual (tal como era igual a política expansionista ou a política de extermínio ou dos campos de concentração); e dizer que o fascismo provocou mais mortos do que o comunismo, como se isto se resumisse a um qualquer campeonato de primeiras e segundas categorias. Mau grado a contabilidade dos mortos, apenas para relembrar que na China foram apenas 70 milhões de mortos sob a égide desse grande timoneiro Mao Tse-tung em nome da Revolução Cultural e do grande passo em frente. Na URSS dos camaradas soviéticos, avança-se com números (por baixo) perto dos 20 milhões. Deixemo-nos de verdades dissimuladas que não nos levam a lado nenhum. Por respeito pelas vítimas.
Queria acrescentar que na realidade vejo uma grande diferença entre fascismo e comunismo, mas que esta nem está no plano doutrinário nem na extraordinária teoria da inclusão/exclusão (tristes tempos estes, em que um totalitarismo é justificado pela sua capacidade ou não de inclusão). E passo a explicar: enquanto que o fascismo teve criminosos com rosto, uma vez que foi derrotado militarmente por uma associação de Estados a quem isso convinha, que acabaram julgados e condenados (pelo menos, os que sobreviveram) pelos horríveis crimes que cometeram, o comunismo, por seu turno, teve a original ousadia de originar crimes sem criminosos, como a história actual nos diz, num branqueamento atroz que lesa a memória, que jamais deveria ser esquecida, das suas vítimas. É por isso que um crime perpetrado por um ditador fascista é um crime; mas um crime perpetrado por um ditador comunista, não é crime: é um passo em frente ou apenas um infeliz acontecimento, um desvio, que nada tem a ver com o comunismo ou com a ideologia. É por isso que Estaline representa um desvio. Tal como todos os outros tipos simpáticos, responsáveis por outros tantos desvios de circunstância. É esta a razão que leva o marxismo a passear-se impune pelo mundo e por muitas cabeças. Como na do camarada Jerónimo que hoje mesmo afirma, em entrevista ao Público, a extraordinária verdade “Quem sou eu para dizer que a minha democracia é melhor do que a deles?”. Isto como resposta à pergunta “Acha que há democracia em Cuba?” Quem sou eu, para dizer o contrário? Quem sou eu para tentar explicar que não há totalitarismos bons e maus? Não acham que está tudo explicado?

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

A minha caricatura de Maomé

Realmente não se pode transigir com um novo totalitarismo

É bom saber que deixámos a espuma da liberdade de impressa e chegámos rapidamente ao cerne da questão. Há dois erros que não cometo. O primeiro é ser apanhado nesse maniqueísmo bipolar e ser tido como defensor de estados teocráticos que alimentam as mais crúeis injustiças. Prefiro, sem dúvida, o modelo secular. Mas reparem que denomino esses países de estados teocráticos, onde há responsáveis políticos e religiosos pela situação social que ai se vive. Os maiores desses responsáveis, acrescente-se, nem são locais. As situação actual têm por base processos históricos que convém conhecer. Isto é totalmente diferente de colocar o debate a nível da cultura, o que acaba por ser uma forma de racismo mascarado. Ninguém olha para a história, a política deixa de existir, a economia devanece-se, restando a cultura e a religião. O outro erro que não partilho é essa nova visão do mundo que um novo totalitarismo quer passar para as mundividências dos cidadãos do ocidente. O que se deseja é substituir a União Soviética como forma de acartelar as tropas, neste caso as opiniões públicas. Como foi aqui dito, é essencial combater todos os totalitarismos, e não há outro mais forte, pelo seu poder militar e económico, do que o que à força tenta dividir o mundo em dois. Falou-se de diversidade política, diversidade económica, diversidade cultural. Onde é que está essa diversidade se dividimos o mundo em dois. Lamento mas nesse plural cego, "nós isto", "nós aquilo" grande parte do mundo ocidental não entra. Basta pensar nas manifestações contra a guerra que varreram a Europa, um conflito que violou as regras mais básicas do direito internacional. Não é o cumprimento da lei uma característica das sociedades seculares? Parece que não. Porque antes dessa lei cultural que tanto apregoam, está a lei da economia e da política, esses sim os factores que dominam o mundo. Se o petróleo que existe no golfo pérsico estivesse na Bolívia o ocidente estava em guerra com a civilização índia. Totalitarismo é o modo como me obrigam a participar nesse "nós", um "nós" onde não há patrões nem empregados, homens nem mulheres, negros nem brancos, onde nem existem culturas diferentes, onde não existem sistemas económicos. Salvem-me deste totalitarismo. Não sei quem é digno de ser convidado para jantar, mas porventura não serão aqueles que torturam prisioneiros violando convenções internacionais, que já mataram dezenas de milhares de civis no Iraque, que começam uma guerra com uma mentira absolutamente descarada. A cartilha liberal, não menos descaradamente, diz que foram lá para derrubar um ditador. Mas quem é que apoiou esse ditador durante dezenas de anos? Nessa altura, os líderes da nossa civilização não tinham percebido que o homem, como muitos outros que foram vergonhosamente apoiados pelo ocidente, é um déspota sanguinário. Por que é que esta nossa superioridade não obriga o ocidente a cessar os acordos económicos com países como a Arábia Saudita? Onde é que estão as sanções que essas culturas tão atrasadas merecem? Hipocrisia de uma ponta à outra. Isto para dizer que a "pena" do ocidente não se fica pelas cruzadas, nem pela inquisição, nem tão pouco pelo holocausto. Essa "pena" é contemporânea. É tragicamente contemporânea. Esse "nós" coloca-me a mim ao lado dos maiores bandidos, e o nome é leve, que existem actualmente. Não entro nesse "nós" nem à custa de truques baixos sobre a liberdade de imprensa. O mundo islâmico não ameaça em nada a liberdade de imprensa no ocidente. O que a ameça verdadeiramente é a concentração dos media, é o controlo governamental sobre os media, que se nota, por exemplo, nos Estados Unidos. É verdade que sou um ocidental, mas não me ponham ao lado dessa gente. A esse "nós" não pertenço. Em relação às questões que foram levantadas sobre África, a resposta segue para a semana, já que o que foi dito é um branqueamento que necessita de ser desmascarado.

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Não se pode transigir com o novo totalitarismo

O totalitarismo tem de ser combatido sem medos e sem cedências. De qualquer espécie. Não se negoceia com quem defende valores opostos aos da liberdade. Se por comparação (num exercício meramente prático) quisermos analisar o valor da liberdade na nossa sociedade em comparação com outras, não podemos ter qualquer dúvida: a nossa sociedade é superior (é preciso dizer as coisas como elas são) porque é a liberdade que nos garante esta nossa enorme diversidade política, cultural, económica e social. É a liberdade, por exemplo, que nos permite alimentar esta nossa polémica nas páginas de internet do nosso blogue. Isso valoriza-nos.
Quem massacra à pedrada, pratica excisões em crianças, apedreja a mulher adúltera, nega o holocausto ou se deixa explodir num mercado cheio de crianças não é gente recomendável nem gente que eu convide para ir ao café ou para comer em minha casa. Eu sei que são afirmações perigosas, mas perigosos são também os tempos. Nenhum de nós gosta de fascistas.
A história, infelizmente, não nos deixa outro remédio que não seja o não transigir perante a chantagem, o terror ou a intolerância de gente que não quer ou que não sabe ver ou aceitar o que está verdadeiramente em causa: o nosso estilo de vida, a nossa liberdade, a nossa pluralidade. Devemos por isso resistir em nome de todos aqueles que sofreram na pele as arbitrariedades de doutrinas totalitárias, como o fascismo e o comunismo, e à luta que muitos outros travaram para impedir que nós não sofrêssemos hoje na pele a arbitrariedade total do homem sobre o homem, hasteada em nome da utopia e da sociedade perfeita, gritada em nome do sonho tornado pesadelo, num mundo onde a única pergunta - o porquê? - nunca teve uma única ou singular resposta. Recordar Primo Levi e Soljenitsin deve ser suficiente.
Algures por aqui se falou na instrumentalização de imagens desenterradas quatro meses depois com intuitos dúbios. Algures foi afirmado que existiriam interesses obscuros por parte da extrema-direita interessada em fazer renascer esta polémica (que muito sinceramente não é polémica coisíssima nenhuma) com objectivos, quiçá pró-americanos, devido à situação explosiva que se vive no Médio Oriente. Sinceramente, o argumento de tanto usado está gasto. É o mesmo que justifica a guerra no Iraque com o petróleo e exactamente o mesmo que afirma que o Katrina é consequência da globalização predadora. Mas ainda assim poderíamos colocar a questão ao contrário: porquê só agora? Que obscuros interesses estarão por trás das agendas políticas dos fundamentalistas? Sim: porque não colocar a questão ao contrário? Porque é que apenas um lado é capaz de ser conspirativo? Por acaso não haverá islâmicos com vontade própria?
Outra coisa que não podemos estar constantemente a utilizar é o maldito sentimento de culpa pelo passado. Fizemos muitas asneiras, fizemos muitas matanças, e em nome de valores e dos nossos deuses e de outros santos promovemos uma sangrenta Inquisição. Tudo isto foi feito pelo Ocidente apostado em demonstrar, então, a sua superioridade militar, cultural, económica e social. Com resultados desastrosos, diga-se em abono da verdade. Mas isso não pode desculpar nem permitir que outros se aproveitem desse sentimento de culpa para explorar a nossa permanente boa vontade, alicerçada na tentação do diálogo e na busca de soluções de compromisso. Sintomática a situação africana (tantas vezes aqui referida), continuamente injectada com donativos que se limitam a encher chorudas contas bancárias em bancos suíços enquanto os seus dirigentes se sucedem por golpe de Estado ou por conivência política, deixando populações inteiras na miséria e na fome, enquanto assobiamos para o lado ou para o ar. Mas por mais concertos que se façam, com Geldoff e Bono à frente da trupe, a situação não se vai alterar nunca se não houver a coragem de colocar um travão a este nefasto vício que não ajuda os povos que necessitam: apenas apela a um dos nossos sentimentos menos nobres, o da compaixão, traduzida na nossa consciência tranquila de dever cumprido, como a esmola que damos aos mendigos que encontramos nas ruas das nossas cidades.
Mas o problema destes países e destas regiões não é também a globalização (ou o suposto novo império), como muita gente maravilhada e hipnotizada por Chomsky e Negri por aí arenga. O problema é precisamente o contrário: o problema é estar fora e à margem dessa globalização (que ao contrário do que muitos julgam tem regras) porque tudo lhes passa ao lado. Literalmente ao lado. Isto pouca gente quer entender. Ou confortavelmente prefere não entender. Olhem para o exemplo indiano e também para o chinês, e vejam o seu crescimento. Mas como povos de potências “neocoloniais”, que exploraram os mais fracos e que disso se aproveitaram para enriquecer, parece que mais uma geração inteira de europeus terá que pagar as facturas (em atraso?) do passado, como forma de ultrapassar os incómodos do presente. Tudo em nome daquilo que outros, noutros tempos fizeram e projectaram. Desculpem, mas não carrego cruzes de outros, nem aceito que se viva com estes fantasmas. Nem tolero, ainda, que me imponham um sentimento de compaixão que acho repugnante porque essa é a forma mais fácil de cruzar os braços e de não encontrar solução cabal para as coisas. Definitivamente.
Acredito que este conflito, infelizmente, não terminará tão cedo. É latente e parece apenas precisar de um ligeiro rastilho para deflagrar em maior escala (se é que já não deflagrou). Só que ceder em caricaturas ou em simples desenhos, é meio caminho andado para ceder em tudo o resto: na literatura, na pintura, na fotografia, na roupa, na linguagem, nos usos e nos costumes porque podemos ofender a dignidade do profeta ou de outro qualquer ser. Dispensa-se uma nova Idade Média.
Derrotamos há seis décadas o fascismo. Mais recentemente derrotamos o comunismo embora este sobreviva por todo o lado, sem legitimidade política face ao desastre dos resultados, implantado nas nossas universidades e nos meios de comunicação social que deliram com imaginativas teorias e com um conjunto de teses que se pautam, mais pela irresponsabilidade e facilitismo do que propriamente por uma análise séria das coisas. Agora, devemos derrotar este novo totalitarismo (o islamismo radical) que não gosta de nós, do nosso modo de viver e que está disposto a massacrar o que for preciso para impor uma sociedade sem liberdade, ancorada no medo, na escuridão e em dogmas religiosos. Passados estes anos todos, pensei que o totalitarismo fosse coisa sem argumentação ou justificação possíveis. Enganei-me redondamente.
Finalmente, outro aspecto que quanto a mim também é perceptível é que quem promove o choque civilizacional são aqueles que não toleram que outros, nos seus países, tenham liberdade de expressão, queimando, agredindo e matando em nome dessa intolerância. Uma coisa é o direito à indignação (legítima); outra, totalmente diferente, é usar como escudo essa indignação para espalhar e semear a violência gratuita, pilhando, violentando e matando e instrumentalizando (sim, porque os manifestantes nem sabem a cor das caricaturas) ódios com fins políticos. Não pode haver benevolência nem branqueamento de semelhantes comportamentos. Contemporizar, ou deferir, neste particular é voltar atrás. E é um verdadeiro retrocesso civilizacional. Não só da nossa civilização como também de todas as outras que primam pela tolerância e pelo direito à liberdade e à diferença e que procuram um mundo equilibrado onde seja possível haver, apesar das nossas diferenças culturais evidentes, uma só raça de homens: a dos homens livres.

Tolerância

Obviamente que não é o sentido de humor que esta em questão, é a tolerância. A tolerância que permitiu que o António do preservativo do Papa não fosse perseguido, nem decapitado, a tolerância que permitiu que o programa do Herman continua-se a ser transmitido. A chave é a tolerância.
É obvio que nem sempre o fomos, nós, o “Ocidente”, mas tivemos a capacidade de mudar, de separar o estado da religião, e isso, curiosamente aconteceu por alguma razão (Nota: investigar se o factor religioso, ou melhor, se o cristianismo teve alguma coisa a ver com o assunto). Não aconteceu no Oriente, não aconteceu em Africa, não aconteceu nos países Islâmicos. Essa é a nossa vantagem, não quer dizer que sejamos perfeitos, nem de longe o somos, nós, o “Ocidente”. Mas julgo ser consensual que nenhum dos que aqui tem “postado” gostaria de viver num pais muçulmano, e não é tanto pela questão económica é pelo facto de não querermos abdicar da nossa liberdade (por mais manipulada e ilusória que ela seja, não deixa de ser “mais” liberdade do que a que existe nas sociedades maioritariamente islâmicas…) E eu sei que nem sempre foi assim, existe uma dinâmica civilizacional, durante vários séculos o mundo islâmico foi o expoente máximo da civilização (entende-se como os dinamizadores do conhecimento e do “progresso”) mas depois deixaram de o ser.
O Islão tem, de facto, um problema religioso para resolver. E não são só os radicais islâmicos que são um problema, são todas as sociedades que seguem uma matriz religiosa islâmica e que não conseguem superar a dicotomia Estado / Religião, Liberdade Individual / Ditames Religiosos.
Mas, às tantas, a moirama é que tem razão (tal como os grupos de fundamentalistas religiosos cristãos). Qual secularização, qual ciência, o ser humano não precisa dessas coisas para viver em paz consigo próprio. Precisa é de Deus, de ter a consciência tranquila, de viver segundo os mandamentos divinos. E como tal, acho que nos devemos converter e deixar esta vida de pecado e estas discussões que não levam a lado nenhum. Quem não o fizer merece ser apedrejado.

É apostar, é apostar!


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Nao sao pedras senhor, sao rosas...

Oi… Eu acho esta discussao muito interessante. Devo dizer que concordo com o Nuno num ponto: de facto nao devera julgar-se o todo pelo seu sentido de humor. Mas continuo a nao perceber porque e que as coisas sao colocadas em termos de civilizacao. A meu ver nos estamos antes a falar de religiao. E quanto a esta ultima, eu nao tenho de carregar as culpas do que aconteceu durante a inquisicao (alias, consta no registo de Cinfaes o nome de uns quantos ascendentes directos meus que foram queimados no pau de vara), nem da segunda Guerra Mundial. Como membro de uma determinada ‘civilizacao’, se assim me quiserem catalogar, nao tenho de fazer nenhuma admissao de culpa. Como ser humano sim. Isso significa que temos todos: catolicos, protestantes, judeus, muculmanos, agnosticos, ateus… A natureza do ser humano - desta raca complexa, vulneravel, e auto-destrutiva – nao difere de acordo com a nossa localizacao geografica no mapa mundi, nem de acordo com o livro sagrado que empunhamos. Ontem a inquisicao, hoje Israel, hoje o Sudao. Tres religioes diferentes a procederem da mesma forma. Uma so raca.

Venham as pedras

A frase que mereceu a resposta foi esta: "Ora pois bem, não consigo respeitar uma civilização sem sentido de humor e sem a capacidade de rir de si própria."

1) Tu não fazes a mínima ideia se aquela civilização, seja lá isso o que for, tem ou não sentido de humor ou capacidade de se rir de si própria. Eu aposto que tem, embora assuma que existam assuntos muito sensíveis a partir dos quais seja quase impossível fazer humor. Mas como é que reagiu a "nossa civilização" ao cartoon do António com o preservativo no nariz do Papa, ou à Última Ceia do Herman José? Somos assim uma civilização tão tolerante. Há trinta e cinco anos podias neste país fazer o humor que fazes hoje? A questão é de civilização ou talvez a política tenha alguma importância? Não foi a nossa civilização, de matriz judaico-cristã, que queimou pessoas no Terreiro do Paço por pensarem de forma diferente do que nos dizia a Santa Madre Igreja? Não foi a nossa civilização que metodicamente meteu milhões de judeus nas câmaras de gás? Não foi a nossa civilização que, até meados do século XX, usou o esclavagismo mais primário para colonizar África? Não será um pouco abusivo falar em nome de civilizações contra outras civilizações. Será tão difícil perceber que a liberdade de imprensa está a servir as balelas do "choque de civilizações", por mais acrobacias argumentativas que tentem considerar a questão da liberdade de imprensa uma discussão autónoma. Gostei especialmente daquele argumento usado neste blogue das "pessoas que estão à minha volta pensam todas como eu" ... e acrescento que devem ouvir a mesma música e ler os mesmo livros e partilhar a mesma boa educação ... mas porventura não trabalharam na fábrica ... e talvez não leiam tablóides racistas ... e talvez não vejam reality shows ... .


2) Usar o pretenso sentido de humor para avaliar uma civilização, isto é, todos os milhões de seres humanos que vivem em determinado espaço, é relativamente bizarro. Mas concedo que é divertido. Talvez valesse a pena, digo eu, utilizar outros critérios de avaliação.


3) Resta considerar, se pensarmos, em tese, que o relativismo e a capacidade de evitar o preconceito são elementos próprios da nossa civilização, que estamos em processo rápido de decadência.

Só podes estar a brincar...

Informa-se que o João Baião, o Nicolau Breyner e aquele baixinho irritante que apresenta um concurso qualquer, também são considerados humoristas... Mas daí até terem piada...

Quanto à antologia de humor islâmico (de 1941) levava para ai uns 14 anos para ler o livro, 20 para o compreender e uns 30 para encontrar uma piada de jeito... Dando uma vista de olhos ao índice, tresanda a piadas da ultima página da celebre "Família Cristã"...

Eu estava a me referir a uma boa piada de cariz religioso...
Ora Sr. Cientista mostre lá uma piada islâmica sobre as barbas do Maomé, ou sobre o comportamento sexual da nora Fátima escrita por um muçulmano, a viver num pais islâmico e que tenha sobrevivido à piadola, que eu conto 10 anedotas sobre Cristo e 10 sobre a Fátima da Cova de Iria.
Assim podemos ver se são tolerantes ou não...

O Sr. Abu Abed... : )
Tou em crer que não há relativismo cultural que aguente humor islâmico.

E quanto a Africa, acho os pretinhos e as pretinhas gente com muita piada.
Os orientais acho que não são muito humorados.

E agora, podem me apedrejar!

terça-feira, fevereiro 07, 2006

E não é que eles também riem ...

Seguem alguns sites de humor árabe. Mais abaixo há a indicação de uma antologia de humor árabe. Quem estiver interessado pode mandar vir o livro pela Amazon. E não é que eles têm humor ... e que gozam com eles próprios ... é extraordinário .. estou estupefacto ... pensava que só os povos de matriz cultural judaico-cristã, seja lá isso o que for, é que tinham comediantes ... qualquer dia ainda me dizem que os orientais também têm comediantes ... não, isso é impossível ..., Deus nos valha, essa gente não ri ... será que em África também se faz humor... não, não é possível ... eles são tão atrasados ...


http://www.abuabed.net/about.htm

www.arabicjoke.com

http://www.arabiano.com/entertainment/humor.shtml

www.sabda.org/humor/isi.php?id=246

Subject Book: An Anthology of Arab Humor In Arab LiteratureAuthor: Ali MrouehLanguage: ArabicPublisher: Riad El-Rayyes Books Ltd, LondonYear Published: First Printing 1947, Second Printing 1991Number of Pages: 8 volumes; Volume 1 – 182 pages The eight volumes that make up the Anthology of Humor and Arab Literature are: 1) The Peculiarities of Poets and Literary Writers2) The Peculiarities of Egyptians3) The Peculiarities of Driven Away Personalities4) The peculiarities of Judges5) The Peculiarities of Women and Concubines6) The Peculiarities of Geniuses and Fools7) The Peculiarities of Administrators/ Workers8) The Peculiarities of Odd People.

A recensão a este artigo segue em:

http://yementimes.com/article.shtml?i=878&p=culture&a=2

E...

E entao o Papa Pokemon?

Ofensivo? A censurar?

Qual é o problema?

O título do post foi muito em cima do joelho! (Sim, eu agora trabalho!). Mais rigorosamente deveria ter sido: Qual é o problema? ou, E depois? O que tem retratarem o "Profeta"? Como diz o Marçal: Onde está sentido de humor?

Em relação à mudança de aspecto do blog, confesso a minha falta em não ter questionado os restantes membros...Mas, este preto é lixado para os olhos!!!!

Do Steve Bell, um dos meus 'cartoonistas' preferidos

Solving female circumcision complications


Como mulher tenho a dizer que esta imagem publicada no site da Arab-European League, com o titulo 'solving female circumcision complications' nao me agrada nem um pouco. Choque de civilazacoes? Guerra dos sexos? Ou problemas hormonais?
Incomoda-me que seja publicada? Nao. Incomoda-me a existencia de sociedades patriarcais, da discriminacao feminina, e de outras formas politicas e sociais que submetem as mulheres a condicoes humilhantes, traumaticas e violentas. Estas existencias continuarao a existir, mesmo se silenciadas nas paginas dos jornais. Ou seja, pode proibir-se o acessorio. Mas isso nao bastara para se chegar ao essencial.

Extremismo

O que me alegra nisto tudo, é que finalmente este blog ganhou vida. Nem que seja por isso, gostei dos cartoons…

Humor

O que me chateia nisto, o que demonstra intolerância, é que nas sociedades de base cultural/religiosa cristãs, existe um leque enorme de pessoas que fazem, ou fizeram, humor com factos religiosos e lá por isso não veio desgraça maior ao mundo. No Judaísmo o Woody Allen e o Mel Brooks (ambos judeus) fartam-se de caricaturar os Judeus, sem que dai advenha uma catástrofe. No Islamismo existe um gajo que escreve um livrinho sem muita graça sobre o profeta e se não foge matam-no. Ora pois bem, não consigo respeitar uma civilização sem sentido de humor e sem a capacidade de rir de si própria.

Coisas soltas

Cesar,

Entao voltamos ao preto e nao ha mais negociacao?! Volto a expressar a minha opiniao: preferia o anterior porque a meu ver era mais 'reader friendly'. Submeto-me no entanto a vontade das maiorias desde que seja uma pessoa um voto...

Nuno,

Mantenho: para mim, nao se trata de nenhum 'choque de civilizacoes'. A ideia so se banaliza se as pessoas assim o pensarem/interiorizarem. A Fatima talvez pense assim, o Rato igualmente. Isso sera de facto infeliz. As pessoas com quem eu falo nao pensam assim: pensam em termos de defesa de um estado laico e da liberdade de imprensa. Sao as mesmas pessoas que aqui em Inglaterra tem lutado contra a legislacao do 'religious hatred' que e apoiada pelos conservadores anglicanistas desta civilizacao.

Quanto ao secularismo das sociedades do medio oriente, ha entao que ir mais longe: as cruzadas iniciaram um processo de radicalizacao no medio oriente. Na altura os 'ocidentais' nao 'seculares' contribuiram para a radicalizacao dos grupos religiosos das sociedades invadidas.

Antes de sair de casa

Rute

Concordo totalmente contigo na questão da liberdade de imprensa e também acerca das "vantagens do securalismo". Mas o que o estou a dizer desde o princípio é que, neste caso particular, essa questão está a servir outros fins. E que esses fins se relacionam com a banalização entre as populações ocidentais da ideia peregrina do "choque das civilizações". É apenas aqui que discordamos. Já agora quando me referi à travagem dos processos de secularização falava do que sucedeu após a descolonização e não ao tempo das cruzadas.

De facto

Agradecia que esta constante alteracao de visual do blog parasse. Pessoalmente prefiro a anterior (de fundo verde). Isto porque como esta agora, apesar de nada contra em termos esteticos, torna mais dificil a leitura.

Liberdade de imprensa sim

Nuno,

Ofende-me que aches que eu confundo a parte com o todo. Ja devias saber que a sensibilidade e o bom senso nao estam apenas e so do teu lado. Adiante.
Eu nao discordo do teu discurso. Para mim, simplesmente nao e isso que esta aqui em questao. Ou melhor isso estara sempre em questao mas neste momento especifico nao e isso que me preocupa. Preocupa-me que em nome de sensibilidades religiosas fundamentalistas que nao representam a maioria nem aqui nem na China, se facam concessoes a liberdade de imprensa e sobretudo a preservacao de estados laicos.
Por exemplo, irrita-me ver constantemente padres na televisao publica portuguesa (RTP). Ja por variadas vezes escrevi para essa instituicao demonstrando o meu desagrado. Seja a cantar canticos ou rezar pais nossos, a meu ver, os padres deverao limitar-e aos adros. A censura da ‘Ultima Ceia’ do Herman e obvio que tambem me perturba, assim como me perturba a ingerencia da Igreja catolica nos assuntos do estado portugues, nomeadamente na questao do aborto. Ora, por coerencia, irrita-me que devido a uns quantos cartoons, que sao por definicao caricaturas da realidade, exageros, se venha instituir uma censura comandada por um lado por sensibilidades religiosas fundamentalistas e por outro pelo complexo ‘ocidental’ de intelectuais que confudem alhos com bugalhos. Eu nao defendo nem nunca defendi nenhuma intervencao militar em pais algum do mundo. Isso nao invalida que no pais onde escolhi residir eu lute todos os dias pela preservacao de direitos que considero adquiridos assim como acho legitimo que noutros paises as pessoas o facam ainda que esses direitos pelos quais elas lutam estejam intimamente relacionados com a instauracao e perpetuacao de um estado religioso.
Quanto a historia do Ocidente ter travado o processo de secularizacao no medio oriente isso tambem eu o sei. E incrivel, mas ha outras pessoas que leem se calhar os mesmos livros… Mas continuo a nao perceber como e que algo que infelizmente se passou no tempo das cruzadas me obriga agora a nao defender o direito da liberdade de imprensa e da secularizacao do estado onde resido?!
A organizacao 'Islam-Dutch' que opera na Belgica e na Holanda publicou um cartoon da Anne Frank na cama com o Hitler. Por acaso, mais engracado que os de Maome. Ora aqui esta uma boa forma de lancar o debate acerca dos limites da liberdade de expressao/imprensa. Nao quero com isto dizer que eu rejeite as manifestacoes de rua. E pena que depreendas isso. As pessoas sao livres de se manifestarem. Agora, seria bem melhor que essas manifestacoes fossem livres de propaganda racista. Melhor ainda seria que os manifestantes se lembrassem que podem sim senhor recorrer aos tribunais. Afinal e atraves dos tribunais que se produz jurisprudencia aplicavel a casos futuros. E, mais importante, e um direito que assiste aos ofendidos ainda que estes ofendidos sejam uma minoria...

Rato, o Ocidental

Vasco Rato, para defender ontem a liberdade de imprensa, foi tão longe que esteve prestes a proibir o Sheik Munir de ter uma opinião contrária aos cartoons. - Mas você não tem nada que estar contra, você não tem o direito de impor os seus valores; - Mas eu não estou a impor, estou apenas a dizer que não gosto; - Mas vocês não podem achar que dominam as civilizações ocidentais; - Mas eu só estou a dizer que não gosto dos Cartoons e que posso protestar contra eles; - Mas vocês fazem-no violentamente; - Mas quem é que somos nós, eu estou a dizer-lhe que não concordo; - Lá está não concorda; - Mas não está no meu direito não concordar. Uma curiosa inversão de papéis. Munir foi o oposto de tudo o Fátima colocou nas imagens, um homem de "intocável razoabilidade ocidental" que rapidamente fez o professor de ciência política parecer um perigoso bombista. Mas Vasco Rato fez mais: sugeriu que os muçulmanos eram inerentemente violentos, disse que eram responsáveis por quase todos os actos terroristas, disse que as manifestações em Londres e a situação violenta em Beirute e Damasco eram a prova que todos os muçulmanos pensavam assim, e claro, que eram uma ameaça à nossa civilização. Um democrata ocidental em toda a sua excelência. Ao contrário de Fátima, Vasco Rato não é ignorante, apenas mal intencionado. O lamentável é que o seu pensamento primário, ao estilo de George Bush, a sua visão unilateral, reducionista, cobarde e extremamente perigosa, sempre em nome da liberdade de imprensa, conseguiu sacar uns aplausos da plateia. Confesso que quando vejo algumas pessoas informadas a ter opiniões tão primárias, suspeito que haja alguma coisa de errado naquilo tudo. Já se sabe, são as teorias (C)onspirativas (I)nternacionais (A)bundantes.

A Fátima

Conhecerá Fátima Campos Ferreira os limites do papel de um moderador. Não perceberá que se o moderador toma descaradamente um partido em certa discussão, parte importante do públicos toma a sua opinião como se a de um juíz se tratasse. Não haverá ninguém na RTP que lhe explique isso, que lhe diga que certas funções não são compatíveis com a ignorância. Não a acho mal intencionada, apenas ignorante. Um exemplo: quando um dos convidados do programa de ontem, o Sheik Munir, bastante civilizadamente afirmou que se deveria, sim senhor, discutir a situação da mulher nos países muçulmanos, Fátima virou-se para a plateia, colocou um daqueles sorrisos auto-confiantes, e disse: sim, sim mas sabe, nenhumas das mulheres desta plateia gostariam de viver num país muçulmano. Porventura isso é verdade. Mas ninguém foi capaz de dizer à Fátima que se tomassemos os resultados dos estudos sobre violência doméstica em Portugal, uma em cada três mulheres daquela plateia já tinha sido alvo de maus tratos, ou para ser mais gráfico, de murros, de pontapés, de violações dentro do casamento. É um assunto que não mereceu ainda um programa. Andará Fátima a dormir? Será que Fátima ainda não percebeu que sua religião, a quem, em outros programas, já prestou fretes que punham em fúria qualquer secularista moderado, não concede os mesmos direitos às mulheres que concede aos homens. Fátima, acorda.

Liberdade de imprensa? II

O programa da RTP Prós e Contras do dia de ontem, sobre os cartoons e a liberdade de imprensa, pago pelo dinheiro dos contribuintes portugueses, foi uma prova cabal que a questão dos cartoons não é fundamentalmente uma questão de liberdade de imprensa. A condução e elaboração do programa foi xenófoba do princípio ao fim. A apresentadora, Fátimas Campos Ferreira, passou o programa a tratar os "muçulmanos" por "eles", "eles fazem", "eles matam", "eles esfolam", "eles não querem", "como é que nós os fazemos mudar", "como é que nós podemos manter os nossos valores se até os Estados Unidos e a Grã-Bretanha cederam e não publicaram os cartoons"; chegou a tratar Maomé por "o Maomé", o gajo. Fátima diria "o Jesus"? Mas a coisa não se ficou pelos apartes idiotas que nem a evidente ignorância da senhora perdoam. As únicas imagem que o programa passou retratavam seres enfurecidos a queimar, a pilhar, a destruir; ou a rezar em grupo como máquinas irracionais. Fátima nunca foi a Fátima? As imagens passaram várias vezes em fundo como ilustrações do que se ia dizendo. Foi absolutamente vergonhoso. Os convidados, exceptuando o inenarrável Vasco Rato, foram bastante mais razoáveis. O público, tristemente, lá aplaudiu algumas tiradas xenófobas, em nome da liberdade de imprensa.

Liberdade de imprensa?

Rute
Lamento insisitir mas a questão da liberdade de imprensa está a ser usada para alcançar objectivos políticos. E é precisamente por isso, basta ter alguma atenção, que o debate já se tornou num debate civilizacional. Não vou repetir argumentos porque se torna cansativo. Mas rebato algumas afirmações. Os países ocidentais não foram apenas complacentes, foram cúmplices e muitas vezes responsáveis directos pela subida de déspotas ao poder. Foi assim no Médio Oriente, foi assim em África, foi assim na América do Sul: Saddam, Mobutu, Pinochet. Apenas 3 nomes. Há pelo menos 30 que podiam ser adiantados. No caso do Médio Oriente os países ocidentais foram absolutamente responsáveis pela forma como processos de secularização que estavam em curso foram travados e revertidos. Note-se o caso evidente de Nasser no Egipto. Não acredito que estejas a confundir o mundo islâmico com a meia-dúzia de pessoas que se manifestou em Londres. Isso é a conversa do Daily Mail. Por outro lado, custa-me ainda mais acreditar nessa perigosa deriva jurídica que parece rejeitar manifestações de rua. As conspirações políticas e os obscuros interesses económicos realmente não existem. Tens razão. A intervenção no Iraque foi feita em nome da defesa dos valores dos países seculares, para derrubar um ditador que os países seculares puseram lá. Faz todo o sentido.

Então?

Gostava de pedir às pessoas que constantemente mudam o aspecto do blogue, sem consultarem os respectivos parceiros, que o parem de fazer. Existe um e-mail colectivo 0nde democraticamente se pode discutir a questão.

Problema de comunicacao

Desculpa la Nuno, mas vou ter de pessoalizar a questao. Parece-me que ha aqui um problema de comunicacao que urge resolver:

  1. tu estas a colocar as coisas em termos de ocidentais/nao ocidentais eu nao. Eu coloco as coisas em termos de defesa de um estado secular/defesa de um estado religoso;
  2. se os estados seculares produzem despotas fundamentalistas e obvio que eu nao estou de acordo mas isso nao me impede de defender um estado secular. Nao existe ate a data nenhuma correlacao directa entre estado secular/despota;
  3. os despotas fundamentalistas chegam ao poder tantas vezes devido a complacencia de quem assiste a sua ascensao: foi assim com o Hitler, ignorado, na sua ascensao pelos restantes ‘ocidentais’ e pelos ‘seus’ proprios ‘ocidentais’. E assim com a ‘dinastia’ na Arabia Saudita ignorada pelos ‘ocidentais’ e outros que tais;
  4. o ponto 3 tambem nao abala um milimetro a minha defesa por um estado secular;
  5. a minha defesa pelo estado secular nada tem a ver com racismo portanto nao entendo o teu argumento. Logo de maneira politicamente correcta e evitando um comentario menos ‘polite’, direi que nao faco comentarios;
  6. os limites da imprensa deverao ser contidos em sede propria, nomeadamente nos tribunais e nao nas ruas com cartazes onde se pode ler ‘cortem a cabeca a quem ofender o profeta’ ou gritando slogans como ‘freedom go to hell’;
  7. mais do que o choque de civilizacoes, conspiracoes politicas e obscuros interesses economicos (que se tao obscuros tao pouco estariam ao alcance dos mais iluminados), as manifestacoes estao populadas de fundamentalistas e jovens descontentes com a sua integracao na sociedade, ocidental ou outra;
  8. portanto, quanto a mim a discussao passaria sim pela afirmacao da liberdade de expressao e defesa de um estado secular (sera que eu tenho o direito de exigir tal do pais em que vivo, seja no ocidente ou no oriente?) e pela problematica da integracao social nomeadamente dos mais jovens. Estes, quando desapontados pelo estado, no ocidente, oriente ou quica em Marte, poderao mais facilmente se recrutados para movimentos fundamentalistas que nao traduzem de todo a opiniao da maioria;
  9. terminando, a meu ver a questao e muito mais complexa que a simples dictomia ocidente/medio oriente e ultrapassa os limites macrossociais de uma conspiracao a escala mundial baseada em interesses economicos que existem e que todos nos sabemos existir.

Estreou em Portugal ...


... ou aconteceu-lhe o mesmo que a Última Ceia do Herman José?

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

Monty Python

O que eu queria mesmo era " A vida de Mustafá" pelos Monty Python... A ver o que acontecia...

Agendas políticas de quem?$$$$$$$$$$$$$$$$$

Comecei um post anterior da seguinte forma: "Fazer da questão da liberdade de imprensa, o foco principal dos cartoons do profeta Maomé é cair num erro." Não querendo impor ao leitor uma insterpretação única daquilo que escrevo, duvido que possam existir muitas formas de ler a frase. Assim de repente, apelando ao bom senso, não me parece ter afirmado a inexistência de um problema de liberdade de imprensa, mas apenas que, no contexto específico das relações entre essa coisa a que chamam "ocidente" e os países muçulmanos, os cartoons servem, fundamentalmente, outros propósitos. Um desses propósitos é a brutal redução das sociedades do Médio Oriente a um conjunto de estereótipos ignorantes, base das teorias do choque das civilizações. A situação nessas sociedades foi alimentada pelo apoio dos líderes das brilhantes sociedades seculares a toda a espécie de déspotas fundamentalistas, em nome de uma religião de Estado chamada nacionalismo, cujo interesse mais básico é a defesa de interesses económicos. Aliás, foi essencialmente para proteger esses interesses que os Estados Unidos condenou os cartoons. Resta lembrar que há limites, na minha opinião razoáveis, à liberdade de imprensa. A Constituição Portuguesa, por exemplo, proíbe propaganda racista. No contexto de um jornal de extrema-direita, não é totalmente claro que, junto com determinados textos de opinião xenófoba, não se possa considerar alguns dos cartoons perto de um patamar de intolerância que sei ser difícil definir. Considero-me um ocidental. Mas há muitas espécies de ocidentais, embora quase todos de sociedades seculares: os responsáveis pelo holocausto, os que colonizaram e escravizaram África, os que atiraram bombas atómicas, etc. O brilhante ocidente tem memória curta. Era bom que os seus cidadãos olhassem os fenómenos como questões complexas, em vez de os abordarem através de histerismos inconsequentes.

O Jorginho do Sporting

Como vejo o Sporting demasiadas vezes a jogar com menos um, já tenho uma certeza inabalável: o Deivid é o Jorginho do Sporting.

Intenções e capacidades

A questão actual do Irão é complexa. E delicada. Mas é importante perceber que, actualmente, as relações entre Estados se devem moldar e projectar de acordo com as suas capacidades reais e potenciais e não baseadas nas suas intenções declaradas (boas ou más). Por duas singelas razões. Porque as intenções podem mudar com o tempo (primeira razão); e porque as más intenções se disfarçam por vezes de altruístas intenções, como a experiência comunista tão bem demonstrou (segunda razão). E, como diz o outro, de boas intenções...

Agendas políticas de quem?!

A questão dos cartoons trate-se de facto de uma questão de liberdade de imprensa. Parece-me a mim que o que está a acontecer com o islamismo corresponde exactamente ao mesmo que sucedeu com o judaísmo. Actualmente, por exemplo, quem toma partido dos palestinianos é constantemente acusado de anti-semitismo.
O empolamento da questão dos cartoons não radica em nenhuma conspiração cristãos/homens/de direita/ocidentais associados aos médias. Outras questões ligadas ao fundamentalismo religioso/liberdade de expressão foram no passado empoladas: uma peça de teatro em Inglaterra que teve de ser cancelada porque a comunidade Sikh se sentiu ofendida, ou a retirada da grelha de programação da BBC do ‘Jerry Springer show’ que a comunidade cristã considerou uma blasfémia. Isto para não mencionar tantos outros casos como o de Salmon Rushdie. Portanto, achar que só este facto foi agora empolado porque se vive numa era em que a divisão de civilizações passou a ser teorizada nos discursos políticos é ter memória curta. Por outro lado, esta questão não deverá ser reduzida a essa tal oposição de civilizações. Os EUA emitiram um comunicado oficial dizendo que os cartoons eram ofensivos e que achavam deplorável que se manipulasse e utilizasse de tal forma imagens e símbolos religiosos. Este é um momento que define a fronteira que separa os que querem viver em estados seculares e os outros – fundamentalistas muçulmanos, católicos, protestantes, budistas, o que for – que pretendem o regresso à promiscuidade entre estado e religião. Exemplo disso é a declaração de um alto responsável da comunidade muçulmana em Inglaterra que disse que pelas leis do Corão não se deve usar a imagem do profeta. Ora aí é que está o busílis: eu não me rejo pelo Corão, assim como não gostaria de me reger pela bíblia. Eu rejo-me por uma constituição que não me impede de usar a imagem de Maomé.
O que se passou nestes últimos dias está sim senhor ligado à questão da liberdade de expressão, à preservação de uma liberdade que não branqueie a história ou fundamente preconceitos apoiados em ideologias religiosas impostas sem escrutínio dos indivíduos que a elas estão sujeitos. E acreditem, há muito muçulmano que não saltou às ruas em protesto mas que olhou com apreensão a possibilidade de a imprensa fazer concessões às facções mais fundamentalistas.

Gozar com Deus I

domingo, fevereiro 05, 2006

Agendas políticas de quem?

Fazer da questão da liberdade de imprensa, o foco principal dos cartoons do profeta Maomé é cair num erro. Independentemente do bom ou mau gosto dos cartoons, não havia razão para censura, embora, como alguém sugeriu, e de forma indirecta, possam ser considerados uma manifestação de xenofobia, realizada através de uma perigosa generalização: "todo o muçulmano é terrorista." Outra perigosa generalização é tomar o mundo islâmico pelas pessoas que se manifestaram violentamente nas ruas de Beirute e de Damasco. Foi assim, porém, que as televisões retrataram o acontecimento, reificando a famosa bipolarização entre "nós", o mundo ocidental, e eles, os muçulmanos. Noutra formulação, os racionais e os irracionais. A agenda extremista do ódio parece ter ganho mais uma batalha. Gostava de perceber, no entanto, o percurso que mediou a publicação de uma dúzia de cartoons num pequeno jornal da extrema-direita dinamarquesa e o incendiar da situação em alguns países muçulmanos. A quem interessa que as opiniões extremistas, que partem de uma ignorante bipolaridade, sejam banalizadas entre as populações dos dois pretensos blocos? A ocidente, a situação beneficia quem sabe ter perdido a opinião pública a propósito da importante questão da guerra. No mundo islâmico, serve o crescimento das bases do fundamentalismo. O extremismo, dos dois lados, tenta ganhar o centro político e a opinião pública. Receio que tenhamos caído na esparrela.

Fomos roubados ...


.... pelos deuses deste desporto infâme chamado futebol.

sábado, fevereiro 04, 2006

O quê?

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

VPV e o orgasmo

A chegada de VPV provocou celeuma (e pelos vistos um monumental orgasmo em muita gente) na blogosfera que, fiquei a saber, não é democrática. Desconfio que esta súbita resistência – à entrada de VPV, que pelos vistos agora só assina banalidades e que foi escrita algures na parede deste blogue – tenha que ver com um texto escrito por VPV há uns tempos, deliciosamente chamado “Crescer com o Álvaro”, que muitos impropérios, protestos e indignações gerou junto da comunidade marxista-leninista deste país. Mas isto sou só eu a desconfiar.

Ah, é verdade: estou de volta.

Direito Criativo

Pode discutir-se o sentido do casamento. Mas isso, por enquanto, é discussão de café. Dito isto, não vejo por que raio o Estado, ou a Santa Madre Igreja, tem que meter o bedelho nas opções privadas das pessoas, dando direitos a uns e tirando direitos a outros. Vai ser muito interessante ver os constitucionalistas cujas opções ideológicas e religiosas são contra uniões entre pessoas do mesmo sexo a tentarem reinterpretar originalmente pressupostos constitucionais que não oferecem muitas dúvidas a um leigo. Já conhecíamos o interessante fenómeno da contabilidade criativa, mas sem dúvida que há poucas áreas como o direito, em que a criatividade atinge níveis tão altos.