quinta-feira, junho 30, 2005
O Adeus de mais um Resistente
Emídio Guerreiro
A aquisição
quarta-feira, junho 29, 2005
Bem prega Frei Tomás...
Mais papista que o Papa
No Parlamento Regional, um deputado do PS pavoneia-se em loas às famigeradas medidas apresentadas por Sócrates para combater o défice e colocar na ordem as contas do país. A sua intervenção incide essencialmente no fim de algumas regalias, há muito instituídas, dos funcionários públicos e no anúncio da austeridade e de uma espécie de nova ditadura que transforma tudo em números., em índices e em estatísticas. No caso em particular, Ricardo Freitas, o deputado em questão, referia-se ao congelamento das progressões automáticas nas carreiras e à passagem da reforma para os 65 anos, entre outras coisas (como o extraordinário aumento do IVA) que têm o objectivo supremo e ignóbil de culpar os suspeitos do costume.
Tudo muito bem. Nada que não se esperasse de um parlamentar da bancada que tem a mesma cor partidária do governo da República e que faz do seu discurso uma tentativa, vã e efémera, de legitimação da actual acção política de um executivo há demasiado tempo à deriva.
Mas o extraordinário nisto tudo, e espantem-se, é que o referido deputado é, para além de deputado pelo Partido Socialista, presidente do Sindicato Democrático da Função Pública na Madeira. Isso mesmo, leram bem: presidente do Sindicato da Função Pública na Madeira. Ora, neste cenário absurdo, não estaremos perante um caso gritante de incompatibilidade política? Como se sentirão os associados deste sindicato ao verem um presidente que não os defende e que não é com eles solidário? É para isto que servem os sindicatos? Bem fez Roberto Almada, deputado pelo Bloco de Esquerda, ao anunciar no hemiciclo que ia cessar imediatamente a sua inscrição neste sindicato e distribuir cópias do referido discurso pelos trabalhadores do mesmo. Se eu fosse sindicalizado, faria o mesmo.
segunda-feira, junho 27, 2005
A Ritinha e as amigas
Se o blog é insuportável, ao menos poupa-nos a visão da criatura. Já na televisão constatei o que seria se esperar. Uma menina muito Fashion como convêm, que vive em Madrid, e de vez em quando vem ao Portugal dos pequeninos visitar a família. Sim porque Portugal é chato, demasiado cinzento, machista, pequenino para a criatividade e inteligência da ritinha. Pela minha parte mandava as Ritas, as Martas, as Margaridas, e todas as “betinhas” que se acham escritoras para um gulag na Sibéria. Já é difícil fazer programas sobre livros. Já é complicado ler certas coisas. Agora aturar esta gente é impossível.
P.S – Não esquecer o papel muito “pedagógico” da editora Oficina do Livro, que pública a grande maioria das alarvidades que estas senhoras escrevem.
O regresso de Mohammed Saeed al-Sahaf

Ele fez história. E deixou seguidores:
Kumba Ialá garante que não perdeu as eleições.
A dupla Daniel Oliveira/Ana Drago garante que não houve arrastão e que os assaltos na praia de Carcavelos foram provocados pelo pânico de uma carga policial.
Saddam Hussein garante que ainda é presidente do Iraque.
Eu, perante o delírio, não garanto nada.
domingo, junho 26, 2005
Os populistas também se abatem
O Dr. Carrilho medita por isso profundamente. E medita profundamente à procura de algo que evite o naufrágio que as sondagens prometem. Por um lado, pode fugir (desistindo); e por outro, pode deixar-se ir de fantasia em fantasia até à estocada final (candidatando-se). Dê por onde der, um e outro caminho adivinham o fim do mito e são a prova provada que os intelectuais populistas também se abatem.
Um projecto
quarta-feira, junho 22, 2005
Sempre a abrir
O mundo do futebol é mesmo extraordinário. Depois de ter sido dado como certo em cinco ou dez clubes (incluindo o Inter e o Real Madrid), eis que afinal Luisão vai ficar no Benfica até 2011.
Em termos de surrealismo ninguém bate os jornais desportivos. E, arrisco, no ridículo também não.
Football Club United of Manchester
Tornado o clube mais rico do planeta na década de 90, e historicamente expoente máximo da globalização da indústria futebolística, o United tornou-se recentemente alvo de atracção por parte daquele multimilionário norte-americano, o que não sendo uma novidade nos dias de hoje, distancia-se ainda assim de casos semelhantes, como o Chelsea, por ter sido accionado por parte de um indivíduo garantidamente sem qualquer vínculo emocional ao jogo ou ao clube. Creio ter sido a partir daqui que boa parte da revolta se instalou entre os adeptos dissidentes.
Ao invés do que sucedeu com o Chelsea de Abrahamovic, por exemplo, um clube de bairro, habitualmente arredado de feitos de relevo alcançados nos relvados, que não desperta grande fervor na velha Albion, o United é um clube com expressão por toda a ilha, recheado de proezas futebolísticas ao longo do seu tempo de vida e detentor de um rico historial de atletas célebres, alguns deles a quem a vida foi tragicamente ceifada nos céus de Munique.
A sua eclosão primordial deve-se à vontade de um grupo de trabalhadores dos caminhos de ferro, operários ferroviários, que no século 19 viam no jogo uma forma não violenta de enfrentar de igual para igual a agremiação das elites locais, o City. A marca genética do clube em termos do perfil social dos seus adeptos de base manteve-se com o correr dos anos, não obstante as necessárias nuances introduzidas pela crescente popularidade nacional e internacional do mesmo.
Sabiam os adeptos que o clube era comandado por dirigentes que, apesar da pretensão de progressiva mercantilização da marca e obtenção de lucros, o United continuava a ter à sua frente indivíduos, se não todos, pelo menos alguns, que além de deterem uma visão estratégica do clube como instrumento de receitas globais, possuíam simultaneamente uma adesão emocional incondicional ao clube.
A circunstância de Glazer ser originário de um país que não possui uma tradição histórica no jogo, de nunca ter partilhado a memória colectiva de vitórias, derrotas e tragédias que formatou muitos dos fãs do United, e de provavelmente subestimar esse passado em prol exclusivamente da rentabilidade financeira do seu investimento, terá sido uma gota de água muito grande para a imagem dos ideais de agremiação clubística que seriam intocáveis aos 2600 antigos adeptos do United.
A ver vamos se em breve serão seguidos por outros adeptos, numa tentativa de recuperação da pureza perdida do jogo.
terça-feira, junho 21, 2005
Novos axiomas
“Os institutos de sondagens tornaram-se, nos dias de hoje, os adivinhos dos tempos antigos que lêem os inquéritos de opinião com a gravidade com que os seus predecessores interpretavam as entranhas das galinhas.”
Fareed Zakaria, “O Futuro da Liberdade”, Gradiva
Professores
Os professores esquecem-se, claro, que Portugal é dos países que mais gasta em educação per capita (e dos que piores resultados tem) e que os professores, comparativamente à Europa desenvolvida, são das classes que melhor recebem. Tudo isto parecem pormenores irrelevantes. Aliás, calmamente ignorados por todos.
Do alto da sua sapiência, e da mais abjecta demonstração corporativa, demagógica e de duvidosa ética, os professores ameaçaram e ameaçam faltar aos exames, testes e outros derivados. O Ministério está numa posição de força e não quer ceder perante a chantagem e outros nomes feios. Pelo meio lixa-se o mexilhão, que é como quem diz lixam-se os alunos, que só por acaso são a parte mais interessada no assunto, factor convenientemente apagado pelos doutos cultos que ensinam as nossas criancinhas.
Fica a lição desta gente ilustre e mais este gentil ensinamento às gerações futuras: não podes vencê-los? Podes sempre lixar a vida de outros que nada têm a ver com o assunto. Nem mais.
sábado, junho 18, 2005
Cunhal, o Álvaro, Cunhal o homem
De Cunhal como ser humano, no total pouco sei. Bateria na mulher, como se diz de Einstein, assumido pacifista? Não faço a mínima ideia. Se estivesse em Lisboa teria ido ao seu funeral. Não por ser Cunhal, o Álvaro, mas o homem, como tantos outros, complexo. Iria pois celebrar uma vida de luta contra um regime opressor, uma tenacidade de sobrevivência em nome da liberdade, qualquer que fossem os moldes em que Cunhal, agora o Álvaro, pensou essa liberdade. Sair à rua no seu funeral é celebrar não uma vida, mas tantas outras anónimas, que nos permitem hoje usufruirmos do impensável há 30 anos atrás. E é precisamente na celebração de tantas outras vidas anónimas de tantos outros seres humanos de excepção, que reside o meu contentamento de ver tantos e tantas a seguirem, de cravo na mão, a carreta funerária de Álvaro. Muitos daqueles que foram entrevistados pelas televisões tinham também eles histórias para contar. Estas histórias fazem a História, e esta deverá narrar o colectivo. Celebravam-se pois a si próprios, às suas vidas. Celebrei também eu nesse dia a vida de Fernandes, meu bisavó, que organizou a primeira greve em Portugal de estivadores no Porto de Leixões e que por isso foi bater com os costados ao Aljube, agravando assim a pobreza da sua vasta prol que sempre o apoiou e compreendeu a sua permanente indignação. Assim o seguiu, uma vida também tantas vezes na clandestinidade, por esse Portugal a fora, de onde sempre se recusou a sair. ‘Prendem-te o corpo mas nunca o pensamento’, dizia.
O funeral de Cunhal foi para mim a não celebração do mito, mas do homem que como outros, e de uma vida, que como tantas e tantas outras, também elas de excepção, lutaram pela libertação da liberdade enclausurada pela ditadura. A ser símbolo, que esse dia seja o símbolo do colectivo, de bravas gentes que eu quero acreditar que ainda existem. Que não seja mito. Os mitos elevam-se à condição de sombras nas cavernas, das sombras geram-se dogmas, e os dogmas sim, não aprisionam os corpos (quando não...) mas quase sempre o pensamento...
sexta-feira, junho 17, 2005
Títulos e manchetes
Selecção do “lê-se” da parte desportiva do Diário de Notícias do Funchal de 17 de Junho de 2005
“Benfica recusa 7 milhões da Juventus por Miguel” – O Jogo
“Não peçam a lua por mim” – Miguel em declarações à imprensa italiana, citadas por O Jogo
“Quero experimentar outro campeonato” – Miguel (Record)
“Sporting não vende Enak ao Dínamo por seis milhões” – O Jogo
“Empresário diz que jogador ficou furioso” – Idem
"Enakarhire não deseja jogar no Sporting" - A Bola
“O presidente disse bobagens sobre mim” – Luís Fabiano sobre Pinto da Costa (O Jogo)
“Koeman quer matulões” – Record
“Benfica vota contra sorteio dos árbitros” – Record
“Vai ser craque” – Ronaldinho Gaúcho sobre Anderson (A Bola)
O mundo do futebol é cada vez mais surreal.
O trolha de Portugal
Na televisão pode-se tudo. Há muito que batemos no fundo.
quinta-feira, junho 16, 2005
Descarril(h)amentos
Pode-se naturalmente mostrar a família. Pode-se até mostrar a casa, a cama, o escritório onde se trabalha ou os pratos onde se come. Pode-se inclusivamente mostrar a bela mulher (que rende muitos votos, de certeza absoluta) e o petiz (a dizer papá ou qualquer coisa do género). Mas coisa completamente diferente é encenar tudo isto disfarçado de normalidade como se fosse um qualquer folhetim de propaganda rasca ou de revista cor-de-rosa (aliás palco habitual do casalinho, como já foi referido).
Carrilho, também conhecido por Jack Lang português (nunca percebi muito bem porquê), devia por isso ter mais juízo e saber, que chatice, que não há assim tantos parvos e que há gente, outra chatice, que não pensa como ele. É um problema de forma. E também de conteúdo.
Luisão [afinal] quer ficar no Benfica
Sejamos sérios: a quem é que interessará (se é que alguma vez interessou) um central de categoria duvidosa, demasiado lento e descoordenado, que se fartou de meter água a época toda? Ao Inter? Ao Real Madrid? Ao Milão? A outros colossos europeus? Os absurdos são tantos que só podem ter mesmo por justificação a venda de jornais e as fábulas e mitos frequentes que diariamente se criam. Esta história do Luisão faz-me lembrar uma outra que saía nos jornais e era garante de manchetes e primeiras páginas (e consequentemente de receitas): a ida de Beto para o Real Madrid. Durante muitos anos, o Beto, outro central de categoria duvidosa, era figura assídua nestas peças de teatro divididas em muitos actos como convém. Mas até hoje, o mais perto que Beto esteve de Madrid foi quando, muito provavelmente, lá foi passear com a esposa.
Muitos outros exemplos irreais podiam ser dados. Arrisco avançar que boa parte das primeiras páginas desportivas portuguesas nunca se concretizam, principalmente quando não há campeonato. Isto é o mesmo que dizer que são falsas, manipuladas ou exageradas.
A quem serve este tipo de jornalismo? Porque será que até no jornalismo o futebol parece viver num regime de excepção? Será que ninguém percebe o ridículo de certas notícias? Será que não há uma alta autoridade que chame a atenção para estas poucas-vergonhas? Não estão os jornais fartos de enganar incautos? De enganar fanáticos? O Luisão no Inter? O Luisão no Real Madrid? Por favor: acabem com o ridículo.
Salvar o barco
Realisticamente alguns países europeus começam a concordar com a necessidade de parar para reflectir sobre o futuro da Europa e do seu tratado. A orquestra parou de tocar. Vamos lá ver se ainda conseguimos salvar o barco.
terça-feira, junho 14, 2005
Sobre Álvaro Cunhal
Personalidade controversa, não imune a muitas críticas sobre determinados posicionamentos políticos, que, do meu ponto de vista são justas e precisas, entendo que não deve ser na sua morte que se deve vedar a capacidade crítica dos outros se pronunciarem sobre a sua pessoa.
Mas a condição individual de se poder exercer o direito à palavra, em frente a um microfone, num ecrã televisivo ou nas páginas de um jornal, para se apontar o dedo a alguém, atribuindo-lhe acções nefastas e perversas para um determinado processo, deveria pressupor duas obrigações éticas:
- a primeira, pressupõe que cada indivíduo, antes de verberar outro indivíduo, fizesse um juízo pessoal de auto-consciência acerca do seu papel pessoal na situação que critica;
- a segunda, que se tivesse presente na memória toda a cronologia desse alguém, de molde a erradicar selectivivades temporais e comportamentais.
São estes dois preceitos que algumas pessoas não têm tido presente quando se abalançam a tecer comentários acintosos sobre a figura de Álvaro Cunhal. Quando elas invocam unicamente a predisposição do histórico líder comunista no período do PREC para a abolição dos direitos, liberdades e garantias do povo português, devem elas julgar-se a si próprias sobre o comportamento por que se pautaram no passado, porque muitas delas já eram bem crescidinhas no Antigo Regime, e portanto conheciam a "massa" de que este era feito.
Se há julgamento maniqueísta que pode ser feito com à vontade, certamente que deve ser sobre a posição, a atitude e o comportamento individual exercido durante a mais longa ditadura da história nas sociedades ocidentais.
Aí, Cunhal, tem as costas muito largas, como muitos anónimos neste país. Lutou e combateu incansavelmente um regime predador, como nenhum outro na história deste país, dos tais direitos, liberdades e garantias. Arriscou a vida inúmeras vezes e pagou um preço muito caro durante mais de uma década, em que esteve aprisionado.
Ao invés, a História não reconhece aos Ribeiros e Castros e às Marias Josés Nogueira Pintos, a miníma atitude contestária ao regime fascista português. Se a ele se opuseram alguma vez, fizeram-no sentados de poltrona, certamente...
A análise histórica dos acontecimentos, dos factos ou das pessoas postula uma observação diacrónica e total, para não ferir de morte a legitimidade de quem a produz. Relevar no passado apenas aquilo que mais nos convém, ao sabor das conveniências pessoais, além de intelectualmente desonesto, contraria o velho ditado de atribuir a "César o que é de César". E a Álvaro Cunhal não devem ser colados apenas os aspectos mais justamente criticáveis, mas igualmente o papel ímpar e incontornável para que hoje os indispensáveis direitos, liberdades e garantias, estejam constitucionalmente consignados em Portugal.
Felizmente, a maioria dos portugueses, sendo comunista ou não, reconhece justiça a quem a merece.
quinta-feira, junho 09, 2005
Da ofensa
quarta-feira, junho 08, 2005
As mulheres dos socialistas II
O regresso

Lomu está de volta. Para gáudio de todos os que adoram este extraordinário desporto, eis um exemplo de um super-homem ou pequeno deus. Bem-vindo.
Chega!
terça-feira, junho 07, 2005
A Psicologia da Segunda Circular III
A psicologia da Segunda Circular II
Quem decidiu primeiro constituir uma Sociedade Anónima Desportiva para o futebol do seu clube? Quem o imitou?
Quem decidiu primeiro construir um novo estádio, ainda antes de se saber que haveria um Campeonato da Europa em Portugal? Quem o imitou?
Quem decidiu primeiro construir um Centro de Estágio para a equipa principal e para as camadas jovens do seu clube? Quem o imitou? (Esta premissa até está a mais, visto que uma 1ª pedra não pode rivalizar com uma obra já construída e inaugurada há três anos. As minhas desculpas.)
Após onze anos de míngua, quiçá já perdido num recanto obscuro da memória o local onde se comemoravam os títulos, onde se comemorou o título 2004/05? No local de comemoração por excelência do clube rival. Sob o olhar do majestoso leão do Marquês.
Conclusão: Afinal parece não ser tão inimaginável assim que também para os lados do Colombo, se perca até mais do que um minuto em considerações sobre o que se faz do outro lado da rua...
segunda-feira, junho 06, 2005
A psicologia da Segunda Circular
domingo, junho 05, 2005
As mulheres dos socialistas
Descriminações
sexta-feira, junho 03, 2005
Já à venda... numa loja perto de si.
quinta-feira, junho 02, 2005
Dias Mundiais
Inspirado pelo suplemento satírico "Inimigo Público", este partido pretende implementar doravante a comemoração institucional de mais algumas efemérides, que "se não aconteceram podiam perfeitamente ter acontecido". São elas:
- o dia da vitória da equipa de ciclismo do Sporting, no dia 14 de Abril de 1947, na clássica do ciclismo nacional, Alenquer-Mafra;
- o dia da descoberta de Penicilina, pelos irmãos Correia, residentes no Sabúgal, no dia 19 de Novembro de 1928;
- o dia da derrota das forças malignas comandada por Darth Vader, na Batalha de Melgaço, em 8 de Janeiro de1989;
- e por fim, o dia da fundação do CDS, no dia 19 de Julho de 1974, por Basílio Horta.
quarta-feira, junho 01, 2005
Sô Nicolau
É um percurso relativamente sinuoso, com um subida considerável quando se vai em direcção a Viseu, mas quando a força para pedalar esmorece o Sô Nicolau continua sempre, caminhando e levando a bicicleta à mão, à chuva, ao frio ou ao calor. Se há algo que não se pode acusar o Sô Nicolau é de fazer gazeta aos seus compromissos profissionais.
Para sempre marcado por uma doença que em criança o atacou (consta que terá sido a meningite) e que nele deixou sequelas permanentes, o Sô Nicolau precocemente viu morrer o seu pai, ficando a cargo da mãe até à falecimento desta. Com o desaparecimento da progenitora, o Sô Nicolau ficou entregue a si próprio numa época em que o apoio e a assistência médica e material eram um privilégio ao qual a sua condição social não permitia aspirar.
Alguém que acreditou na sua capacidade, não obstante a perda de faculdades mentais que assolou o Sô Nicolau após a doença, empregou-o como padeiro. Até hoje, continua a abraçar a mesma profissão que o ocupa na maior parte do tempo, seja na actividade propriamente dita, seja nos tempos de deslocação para o local de trabalho. O resto do seu tempo é passado em confraternização com os seus conterrâneos e cumprindo rigorosamente dois rituais, que, passe o pleonasmo, são o pão de muitos dos seus dia-a-dias:
Marcar presença em todos os funerais de da freguesia, ainda que o faça, por vezes, com alguns minutos de atraso, que o obrigam a acelerar vertiginosamente a velocidade com que se desloca, proporcionando a execução de manobras na bicicleta somente ao alcance de poucos, cabriolando por entre magotes de pessoas e fazendo rápidos piões para saltar da bicicleta em movimento e assim mais rapidamente chegar à Igreja, e vestir o seu fato domingueiro no respectivo dia.