terça-feira, dezembro 07, 2004

Rambo 3 e um homem a cavalo

Até ao momento em que algum produtor de Hollywood mudar de opinião, Rambo 3 é o último filme da saga de John Rambo, personagem imortalizada pelo expressivo Sylvester Stallone. John Rambo pertence a uma galeria vasta de heróis americanos (que inclui bastantes super-heróis da BD), homens individualistas que funcionam fora das lógicas do poder institucionalizado, fazendo justiça pelas próprias mãos. São figuras típicas deste bestiário, ex-policias, detectives privados, antigos militares, indivíduos que faziam o seu trabalho de forma pouco ortodoxa e que foram, normalmente por uma qualquer injustiça, obrigados a viver à margem do funcionamento burocrático das instituições. Apesar de esmagados pelo mundo moderno das leis e regulamentos, algum episódio, uma missão, um rapto de um familiar, uma chantagem, fá-los voltar ao activo. Este arquétipo tem o charme inconfundível da fuga à modernidade, algo em que todos gostaríamos de viver senão estivéssemos presos aos tentáculos da vida quotidiana, emprego, família, etc. Vale-nos, claro, o cinema americano para viver durante algum tempo as emoções destes homens fora do seu tempo.
Em Rambo 3, o herói americano vai em missão ao Afeganistão para salvar um amigo preso pelas tropas soviéticas que ocupavam o país. Isto já foi há uns anitos como podem ir percebendo. A luta é desigual. De um lado, a máquina de guerra soviética, a representação da modernidade fria e calculista, burocrática e poderosa; do colectivo que esmaga os indivíduos. Do outro, o romântico John Rambo coadjuvado por um grupo, não menos romântico, de homens montados a cavalo. Os Mudjaidines. Se há elemento que não abunda neste tipo de filmes é a surpresa. John Rambo limpou os soviéticos com uma paradoxal eficácia moderna. Não será difícil de perceber que o cinema americano criou heróis românticos com bastante mais piada.
A imagem que o filme oferece dos amigos a cavalo do amigo Rambo é, por seu lado, bastante pedagógica. Os Mudjaidines eram uns amadores de cavalaria, corajosos e abnegados, mas falhos de qualquer estratégia eficaz para combater o poderoso inimigo soviético. Uns provincianos bem intencionados. As personagens destes bravos afegãos estão pouco definidas no filme. Se o realizador tivesse sido mais cuidadoso talvez pudéssemos ver entre os cavaleiros mudjaidines um saudita chamado Osama. Sim, Osama, o terrorista, o homem que, aparentemente, mandou as torres de Nova Iorque para o estaleiro e que nos obriga todos a viver neste mundo de loucura securitária. Quem diria, Osama ali mesmo ao lado de John Rambo. Se ele soubesse. Entretanto, a história ultrapassou com velocidade a ficção. Os bons e desajeitados homens a cavalo transformaram-se nos terríveis taliban. Uma espécie de nova encarnação do diabo, morto e enterrado o belzebu soviético.
Estou para saber de quem é a melhor definição do perigo islâmico, se a do Rambo 3 produzido em Hollywood, se a dos filmes de propaganda politica americana, engendrados por produtores relativamente mais sinistros. Onde está John Rambo quando precisamos dele?