terça-feira, janeiro 18, 2005

Máxima Sociologia

Mérito do habitual incumprimento de horários, uma espera de umas boas dezenas de minutos num consultório médico possibilita-nos, em face da inexistência de alternativas, dar uma vista de olhos pela literatura colocada ao dispor dos pacientes, designadamente às revistas ditas femininas, Máxima e Activa.
Foi aí que, entre páginas que alternam entre os anúncios de perfumes da Gucci, lingerie La Perla ou cremes anti-rugas da Vichy, com artigos versando os ciúmes, a fidelidade conjugal ou novas formas de sedução, pude constatar que não havia nestes artigos publicados um só que não apresentasse um ou mais sociólogos a debitarem completas vulgaridades sobre a temática mencionada.
Sabemos que a sociologia é uma disciplina recente em termos da sua institucionalização académica, e de ser alvo de um relativo desconhecimento acerca da utilidade do seu contributo em diversas áreas de actividade. Sintoma disso mesmo é a difícil inserção profissional no mercado de trabalho dos sociólogos.
Por outro lado, e não obstante o reconhecimento social e mediático de alguns sociólogos, também é verdade que a transmissão da descoberta científica e reflexividade produzida pela disciplina gira ainda muito no circuito inter-pares, frequentemente veiculada em discursos herméticos e dificilmente descodificáveis pelos leigos.
Diga-se ainda, em abono da verdade, que o trabalho do sociólogo nem sempre é visto com bons olhos por aqueles que receiam a capacidade de intervenção crítica de que muitas vezes a disciplina se faz valer para tentar aclarar determinado fenómeno social.
Agora o que eu duvido muito é que perante este estado de coisas e face ao colete de forças imposto por alguns poderes (político e económico) ao espaço de manobra da disciplina, a melhor forma que alguns sociólogos encontraram para tentar aumentar o reconhecimento social da disciplina seja aquela que ontem me pude aperceber estar a ser basto praticada...